Acho que não cheguei a dizer-te que a D. Idalina deixou a loja, reformou-se, e que agora está lá um indiano. E que a prima da Paula também vai emigrar. Foi tão pouco tempo, ainda tanta coisa por dizer, não deu para nada.
– Os dias passam a correr, qualquer dia já estás cá outra vez.
Já sinto saudades e ainda nem partiste. Quem dera ter já acabado as minhas férias, para não ficar a ver o tempo passar devagar, devagarinho, sem ti.
– Pois é, o tempo voa.
A Versailles agora tem esplanada, se calhar não viste. E o jardim do Campo Grande ficou pronto.
– Puseste o bilhete de avião e o passaporte na bagagem de mão?
– Estão aqui.
Não é isto que eu te quero dizer. Vais-me fugir outra vez e não consigo dizer-te o que quero.
– Logo telefono, quando chegar.
“Adoro-te”, era isto que eu te queria dizer, mas não posso.
– Sim, não te esqueças.
Em 365 dias tenho-te vinte. É uma tortura.
– Felizmente temos o skype.
– Pois, no tempo em que não havia nada, só o telefone e as cartas do correio, era muito pior.
Mas e o teu cheiro? Onde é que no skype posso sentir o teu cheiro?
– Viste como está lá o tempo?
– Sim, dizem que também vai estar calor.
Sou uma piegas, isto é bom para ele. Toda a gente diz. Lá ganha 3000, aqui ganhava 700. É bom, dá-lhe currículo, dá-lhe mundo. É tão bom. Devia estar feliz, devia sentir aquilo que toda a gente diz que eu devia sentir. Estar orgulhosa e pensar que isto é uma aldeia global e que num instante estamos em qualquer lado e a começar uma nova vida e a ter muitas experiências. Aplicar a teoria à prática e por uma vez ser também empreendedora, forjar um amor menos exigente, mais flexível e 100% digital, para substituir este que me deixa a morrer de cada vez que o vejo, analógico e lindo, e volto a perder entre aviões.
– Levas o anti-inflamatório?
– Sim, vai na mala de porão.
É bom!I like, like, like, like it.
– Bem, tenho de ir.
O pior nem é estares lá, mas saber que “nunca mais volto a viver aqui, mãe”. Que nunca mais voltas a viver nesta merda de país.


Boa tarde.
Chamo-me José e sou apenas ,mais um, dos que partiram em busca de uma vida minimamente digna rumo a outro país tal como o protagonista deste relato.
Confesso que me emocionei ao lê-lo pois creio que reflecte na perfeição os sentimentos que se geram cada vez que volto ao meu país. Enviei , de imediato, este texto à minha mãe quando o li e estou completamente seguro que esta sentiu o mesmo aperto no peito que eu senti ao disfrutar do mesmo.
Muito obrigado por partilhar este exercício de reflexão e escrita comigo ( e com todos).
Este é um belíssimo texto que me me deixou com um nó na garganta.
Mais uma vez muito obrigado.
José
Obrigada, José. Agora quem ficou emocionada fui eu, com as suas palavras. Desejo-lhe o maior sucesso e para a sua mãe muita força.