Afinal, quem fundou a Universidade?


Cristina Torrão,

A editora Clube do Autor publicou, há cerca de um mês, um romance histórico com o título “A Herança de D. Dinis”, de Maria Antonieta Costa. No texto promocional, pode ler-se:

O testamento de D. Dinis é a prova de que o monarca alcançou uma riqueza extraordinária. Como teria sido possível acumular tantos bens em apenas vinte e cinco anos, o tempo do seu reinado, entre 1299 e 1325?

A segunda frase é extremamente infeliz. Dela se depreende que o reinado de D. Dinis durou apenas vinte e cinco anos, iniciando-se em 1299. Sendo assim, gostaria de perguntar aos responsáveis por estas linhas (que, segundo a autora, fazem parte do texto da contra-capa), qual o monarca responsável por nada menos do que sessenta cartas de foral concedidas entre 1279 e 1298; quem presidiu às Cortes reunidas por quatro vezes, entre 1285 e 1291 (Lisboa 1285, Guimarães 1288, Lisboa 1289, Coimbra 1291); quem fundou a cidade de Vila Real em 1289; quem fundou o Mosteiro de Odivelas em Fevereiro de 1295; quem assinou o Tratado de Alcanices, a 12 de Setembro de 1297, no qual se definiram as fronteiras definitivas entre Portugal e Castela.

E afinal, quem fundou a Universidade, em 1290?

O reinado de D. Dinis durou quase quarenta e seis anos. Iniciou-se a 16 de Fevereiro de 1279, data da morte de seu pai D. Afonso III, e findou a 7 de Janeiro de 1325, com a sua própria morte. Seria demais pedir maior rigor, ao escrever sobre romances deste tipo?

 

Nota: gostaria de salientar que, antes da publicação de um livro, a editora mostra a contra-capa ao escritor, que pode solicitar alterações ao texto.

31 comentários em “Afinal, quem fundou a Universidade?”

  1. Mas resta a questão, como é que o D. Dinis acumulou tanta riqueza durante o seu reinado? Terá sido enriquecimento ilícito? Seria ele um corrupto?

    1. D. Dinis não era um corrupto, na assumpção actual da palavra, porque o sistema era diferente. Ele incrementou o comércio e era, por exemplo, dono de muitas tendas (lojas) em Lisboa, que nunca deixou de comprar e das quais cobrava depois rendas altas (já seu pai assim fazia). Na sua política de diminuir o poder da nobreza, mandou fazer inquirições rigorosas e apossou-se de muitos terrenos, para os quais não se conseguia comprovar posse de outrem (embora alguns pertencessem de facto). D. Dinis considerava que tudo o que não tivesse dono pertencia à Coroa, mas confundia, por assim dizer, aquilo que era sua pertença pessoal e o que era da Coroa. No fundo, considerava-se dono de Portugal, o que aliás era comum, em reis medievais.

      A sua riqueza está atestada na biografia do Prof. Augusto Pizarro. Supor que estaria relacionada com bens que suprimiu aos Templários é aliás igualmente considerado leviano. Porém, tratando-se de um livro de ficção…

    2. D. Dinis, diz-se, tinha familiares ricos. É mais ou menos seguro que lhe deixaram património, e que tinha um cofre que continha os bens da família.
      Reza a lenda que foi o primeiro doutorado a fazer um exame ao Domingo, afinal, ele fundara a Universidade, podia usá-la quando quisesse.
      O seu maior pecado ambiental foi ter cedido ao lobby do pinheiro (devem ter pago mais que os tipos do eucaliptal)

  2. Cristina, este postal tem muito a ver com o que eu aqui trouxe ontem. Escreve-se com os pés e edita-se com os calcanhares. Seja o que Deus quiser, parece ser palavra de ordem.
    Custará assim tanto rever com atenção e editar com critério?

      1. Está a tornar-se difícil, por causa de alguns comentários, percorrer blogues e jornais. Não sou dono de nada, muito menos da verdade. É triste que, perante um post como este, vejamos o teor dos comentários cair na brejeirice, na piada fácil, no pretender fazer esquecer um assunto de cultura que deveria ser comentado com serenidade e lisura. No dia em que alguma gente deixou a mesa da taberna para invadir as caixas de comentários, será tempo de pensar como se resolve o problema. Virão, certamente, algumas vozes dizerem que se pretende cortar a liberdade de opinião e livre expressão de cada um. Não é nada disso!
        Peço desculpa a Cristina Torão, ao Pedro Correia, por desalinhar e meter-me em caminhos de pedras que não deveria percorrer. Poderei dizer que não concordo com grande parte do que aqui se escreve, como o meu avô dizia «se o menino não gosta põe à beira do prato» passo à frente e volto no dia seguinte. Assim é desde que o acompanho desde o longínquo «Corta-Fitas».

    1. Lembrei-me logo do post anterior do Pedro Correia. Isto só prova que serão bem-vindos o posts com as calinadas que encontra nos livros. Cá estaremos para rir um pouco… Também precisamos.

  3. Ok. Como achei impossível a investigadora ter escrito isso, fui verificar e ela no Facebook responde à Cristina Torrão que foi lapso da Editora na contracapa.

    1. Foi o que eu disse no postal. Eu falei nos “responsáveis por estas linhas”, não disse ter sido a autora.
      Mas no fim também acrescentei que o texto da contra-capa é mostrado ao autor, antes da publicação, e ele (ou ela) tem hipótese de pedir a modificação. Pelos menos, assim é costume fazer.

      1. Sim, é um facto. Deve ter sido de propósito para criar a intriga. De outro modo não era preciso ouro dos Templários. 😉
        Mas nem sei se a autora queria referir montantes amealhados durante as duas últimas décadas do reinado, se deixou passar.
        Para o caso ela tem muito boa investigação que até considero mais pertinente conhecer-se que romances.
        Agora que toda essa primeira dinastia tem casos estranhíssimos e foi mais que excomungada, isso é verdade e D. Dinis e a Rainha Santa Isabel ainda mais. O “bodo aos pobres” que ela fazia era tradição que as misericórdias modernas tratam logo de modificar. E os templários, sim, É um caso sui generis o que se passou com eles em Portugal.

  4. O testamento de D. Dinis é a prova de que o monarca alcançou uma riqueza extraordinária. Como teria sido possível acumular tantos bens?

    Vai-se a ver e o D. Dinis foi corrompido, quiçá pelo dono do Grupo Lena. Se calhar o D. Dinis entregou as obras do castelo de Leiria ao Grupo Lena, por ajuste direto, e em troca recebeu chorudas luvas.

    Eu acho que o Ministério Público deveria por-se a investigar. É bem possível que a corrupção do D. Dinis ainda não tenha prescrito.

    Será que o D. Dinis tinha apartamento em Paris? Se tivesse, seria mesmo herança de seu pai, que era francês?

  5. Mau… não me digam que o home andou também a mercadejar as cartas de foral!
    É o que dá muita cultura… descobrem-se sempre os podres todos.
    Só faltava esta !

  6. Romances históricos, dispenso. Misturar ficção com factos históricos, nem sempre dá bom resultado. Imperdoável, o erro (seja lá de quem for) referido.

  7. E o que dizer de uma editora que publica um livro em que o autor tenta branquear o holocausto quando diz que em Auschwitz a forma mais humana de matar a fome aos judeus era gaseá-los.
    Eu não sei se isto é erro de impressão se é erro do revisor ou se é da editora, o que eu sei é que se queremos realmente corrigir alguma coisa não podemos olhar só para a forma, temos de olhar também para o conteúdo.

  8. Nos livros editados todo o cuidado é pouco. Não sei como se precessa a revisão, não faço ideia se é do autor ou de alguém a quem a editora paga para o efeito, se de ambos, editora e autor. Seja como for, o lapso assinalado (neste caso, lapso histórico) deve ser corrigido de imediato, suponho que por meio de errata para os volumes já editados.

      1. Sim, são poucos os editores que fazem a sério o trabalho de edição. As excepções são meritórias, mas – infelizmente – cada vez mais escassas.
        Como se estivesse fora de moda, sei lá. Se calhar está mesmo.

      2. Muitas vezes penso que seria bom, já que vejo os erros ou lapsos ou o que seja, enviar às editoras uma nota com o número da página e assim, mas nunca o fiz, acho que nem liam.

  9. Provavelmente substituíram os revisores profissionais por pessoas com conhecimento de Word na óptica do utilizador a ganhar o ordenado mínimo, que seguem piamente a cartilha do corrector ortográfico, Cristina.
    E cada vez há mais e mais flagrantes (e tristes) incorrecções.

    1. E numa editora que até se considera séria, Zélia.
      Na verdade, parece-me mais um truque de marketing, mas, de qualquer maneira, lamentável.
      Resta saber se a autora manifestou o seu desacordo, mas não conseguiu levar a sua avante. Também acontece.

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