Adiantamento mental


José Meireles Graça,

A comunicação social não tem dado grande relevo ao facto de Portugal, pela segunda vez nos 47 anos de democracia, ter um adiantado mental no elenco governamental.

Não é um mago das finanças, está mais no ramo Pantone: o país terá um futuro cor-de-rosa se apostar na economia azul, há um negro passado de descaso e indiferença, e as perturbações no abastecimento de combustíveis dão um claro sinal amarelo, é o que se infere das muitas declarações que tem prodigalizado. A Oposição tem envolvido as declarações de Costa e Silva num manto de silêncio, mas não estará longe de, à medida que os planos ministeriais se vão concretizando, ficar verde de inveja.

A Task Force do Mar, com oito grupos de trabalho, já está a flutuar, o que prova que Lisboa tem todas as condições para se transformar numa espécie de praça financeira para a economia do mar. Uma balsa, portanto.

Costa e Silva está determinado a construir o greenshipping (não sei o que é mas parece coisa de grande engenho) em Sines, desenvolver os portos, digitalizar, modernizar e inseri-los na rede internacional, e diz:

Temos na eólica offshore um potencial imenso e a nossa eólica offshore tem potência suficiente que pode ser importante para se transformar na grande plataforma de apoio ao hidrogénio verde, mas o mar vai ser o futuro, com a eólica offshore e a electrólise da água, directamente da água do mar. Precisamos de grandes quantidades de hidrogénio.

Tudo leva a crer, portanto, assim a Costa deem tempo e meios, que teremos abundância de ar, água e fogo, embora quanto a este último o tempo ainda não esteja de feição.

Uma coisa que não podia faltar a este grande programa são os players, dos quais há muitos: a Fundação Oceano Azul, o Fórum dos Oceanos, a Marinha, a Universidade do Atlântico, diversas empresas do sector.

E é claro que esta revolução não tem passado despercebida lá fora: somos informados que este mês chegam a Lisboa 4000 empresários focados em investir na economia azul e que é preciso “um choque” para aproveitar todo o potencial.

E dinheiro? Não falta: Ele há fundos internacionais com montantes impressionantes e os 252 milhões da bazuca.

Isto a mim parece-me tudo muito fúcsia.

15 comentários em “Adiantamento mental”

  1. Eu o que achei graça foi à ideia de que Sines pode vir a ter um porto tão grande como o de Hamburgo.
    Lembrou-me Tobruk, que também tem condições naturais fantásticas para um porto, porém nunca terá um porto tão grande como o de Tânger.
    Para um porto não bastam localização e condições naturais – é também preciso um hinterland.

    1. Penso que no público em geral não está inculcado o facto de que o transporte aquático é de longe o mais barato.

      Trazer coisas de barco até Sines e metê-las em comboios ou camiões para o centro da Europa não vai acontecer. Provavelmente nem para o centro da península …

      1. Há também que ter em conta que a Espanha é um dos países do mundo mais bem servido de bons portos. Sines pode ser muito bom, mas compete com Algeciras, València, Barcelona, Santander, etc, que são ainda muito melhores.

  2. o hidrogénio verde com a eólica offshore e a electrólise da água

    Isto em termo energéticos tem tudo um desperdício enorme.

    Fazer a eletrólise da água gasta imensa energia. Muita mais do que a que depois se ganha a queimar o hidrogénio resultante.

    A eólica, além da energia que gasta a ser produzida, gasta também imensa energia a ser instalada offshore. Mesmo nos mares baixinhos da Dinamarca a eólica offshore é caríssima em termos energéticos e ambientais; nos mares muito profundos da costa portuguesa, nem quero imaginar.

    Toda esta economia verde parece-me cheia de contas que não batem certo. É por isso que, quanto mais geradores verdes se instala, mais cara fica a eletricidade.

  3. Antes que alguém lhe pergunte, atrevo-me a recordar que Portugal, tem “pela segunda vez nos 47 anos de democracia […] um adiantado mental no elenco governamental” porque o original era o Ministro das Finanças Jorge Braga de Macedo. Calha que esse era (e é) um sujeito brilhante (o que, obviamente, não dá jeito em política democrática). Já o grande mérito deste é ser amigo do chefe.

  4. “Adiantado mental” foi a alcunha que deram a Braga de Macedo que foi ministro das finanças de um governo de Cavaco. Ao menos um bocadinho de esforço nos neurónios para inventar uma alcuha original.

  5. Ainda bem que temos um adiantado mental!
    Para chicos-espertos chegaram os governos de Cavaco e sus muchachos com o famoso petróleo verde, que nos vai sair muito caro.

  6. Se já há oito (8) grupos de trabalho, fico mais descansado.
    Como já sou uma pessoa com uma certa idade, estas lérias do mar, não são novidade.

  7. 8 grupos de trabalho? Estão reunidas as condições para tudo correr mal e mandar dinheiro para o lixo.
    Pedro Cunha

  8. O Estado como empresário é um contrassenso em qualquer das formas ou variantes. Auto-estradas “gratuitas” com portagens e subsídios, aéro-mosca num deserto populacional, companhia aérea de bandeira eternamente “falida”, Bancos sem actividade bancária mas cheios de funcionários….
    Se algum Ministro ou agente no Estado tem vocação para empresário, óptimo!. Venha para o privado, demonstre na prática a validade das suas teorias trabalhando com acionistas privados e sem subsídios estatais.
    Deixem os planos quinquenais, estatais, para quem pode.

  9. Finalmente, alguém que vai fazer o mar ter uma só cor: AZUL E BRANCO.
    Valente, esclarecido, esclarecedor, pessoa com extremo bom-gosto. É deste calibre de homens dedicados à causa pública que precisamos para finalmente almejar atingir aquilo que nunca ninguém atingiu.
    Valha-nos Santo Onofre, não come, não dorme, não fuma, não chateia branco nem outras cores coloridas.
    Força novo poeta dos tempos novos.
    Já dizia o poeta-outro: … Deus ao mar o fundo e o abismo deu, mas foi nele que espelhou o céu.

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