
As farmácias devem ser um excelente negócio. Só perto da minha casa, na Avenida da Igreja, há seis. Uma delas, mais modernaça, deixou agora de chamar-se farmácia. Fez obras para «modernizar as instalações» e ressurgiu baptizada como chemist store – assim mesmo à “amaricana”, como se em vez de Lisboa estivéssemos em Seattle, Portland, Omaha ou Minneapolis.
Sinal dos tempos: eis o nosso idioma em recuo acelerado nos mais diversos tabuleiros, com a anuência generalizada das entidades públicas, a bocejante indiferença dos nossos putativos “agentes culturais” e o aplauso contentinho dos basbaques que imaginam podermos atrair “resmas de turistas” cá para o torrão se substituirmos a língua materna de Vieira, Eça e Pessoa pelo esforçado vernáculo do senhor Trump.
O estúpido “acordo ortográfico” já tinha funcionado como sinal de alerta: o português necessita de cuidados intensivos. Não apenas na versão escrita, com a abertura da época de caça às supostas consoantes mudas, mas na própria oralidade, com a progressiva atonalidade de sílabas e a contínua condenação das vogais abertas à reforma antecipada. Agora somos colonizados culturalmente pelos “camones”. Cada vez mais longe de Camões.
Receio que isto já não se cure com uma simples ida à farmácia.

Aos portugueses foge-lhes o pé para a chinela, julgam que estrangeiro é fino, e que inglês é sinónimo de sucesso internacional, por isso as tascas são “wine bar”. Nada de novo, quando entrámos para a CEE, e durante anos, todas as novas empresas se chamavam Euro-qualquer-coisa. Daqui a uns anos será o latim, ou mandarim.
Quanto ao “acordo” ortográfico – do qual aparentemente somos os únicos subscritores, continuo na minha, não o reconheço porque não foi referendado. E não se muda a língua dum povo num gabinete.
Se o acordo fosse ortográfico estaríamos bem e não haveria discussão.
Mas ele é, é heterográfico.
Tão heterográfico que até depende da esferográfica.
É uma pena…
Não se pode considerar que im acordo ortográfico seja a mudança da língua de um povo, pois caso contrário, e apenas para recuar alguns séculos, continuávamos a escrever e a falar o galaico-português.
Salvo melhor opinião, julgo que devemos apenas concordar ou não com o acordo e não associar exemplos extremos.
Certo, mas avance lá uns séculos e admire o nosso pioneirismo de secretaria. Ou recue uns milénios valentes e grunha onomatopeias.
A onomatopeia grunhe mais alto.
Emojis e emoticons, quais hieróglifos, não são gravados na pedra ou no papiro porque o digital é mais rápido.
E tudo começou a recuar quando aos ii tiraram as pintas e neles tascaram corações, meninas tontas a exibir – mal elas sabiam! – nádegas despudoradas à vista de incautos leitores. Alguém achou piada e, descobrindo o amarelo junto com a pólvora, invadiu a comunicação de Smileys. O que fizeram em tão poucos anos!
Enfim, do norte da Europa chegam outras notícias – a grafia é ensinada, manuscrita, em maiúsculas de imprensa: acabaram-se a minúscula e a cursiva, dizem. Mas nada esclarecem sobre serifas, ou então perdi sinais no meio do fumo.
Pelo andar da escrita, se não nos pusermos a pau – que é como quem diz, com moca – urros talvez não tardem assim tanto…
Quanto ao acordo, só concordo que discordo.
julgo que devemos apenas concordar ou não com o acordo e não associar exemplos extremos.
Evidentemente. Dizer que se a língua não mudasse na secretaria ainda estaríamos a falar “o” galaico-português é o exemplo acabado de um exemplo perfeitamente sensato.
Eu diria mais — é o corolário das justificações de merda associadas a uma outra noção de merda que tem estado bastante em voga: a aceleração do processo histórico.
Trata-se afinal de um acordo hortográfico. Aqui só o Lavoura o segue.
Chama-se a isso semear ideias de subversão gráfica?
É caso para dizer, e desculpem os modos,
“Dass! Tá-se mal! Wtf?!”
Incompreensíveis tais atitudes – mas é talvez o que nos espera: os miúdos saem globalizados do útero e logo crying para, em babygrows trendy e com muitos likes no face, crescerem com smartphones e sofrerem bullying enquanto teens de jeans e sneakers poque sapatilhas são de bailarina, canojo!
Resta-nos o escárnio publicado e o boicote pessoal.
Com uma ressalva: o nome comercial (não é marca) pode ser distinto do nome de registo, e no primeiro as autoridades não fazem nada porque não têm qualquer controlo, ao abrigo da liberdade de expressão. Como o nome e a alcunha. Ou nickname, prontos!
Vou perguntar à câmara. Tem de ser rápido, antes que vire city hall.
City hall se tiver sorte – há por aí muito menino capaz de lhe chamar camera (e até polaroid, se de velha má escola).
Este problema ja tem centenas de anos. Podia ter ditto: Adeus Magalhaes, Hello Magellan!
Prefiro dizer: bye bye, Anonymous.
Se for Anonymous, entra-lhe no sistema operativo enquanto o Pedro diz o primeiro bai, nem chega a ter tempo para dizer te lixar! não se meta com essa gente, são piores que claques…
Não há remédio.
Nem na farmácia.
Pelo menos nesta.
Não entendo uma defesa da nossa língua conotando negativamente outras línguas. Há pessoas que se insurgem que quando se deslocam a Inglaterra, por exemplo, têm de falar inglês, e quando os ingleses vêm a Portugal, não falam português! Será que quando vamos à Rússia falamos russo e quandos os Russos vêm a Portugal falam a nossa língua?
Entendo que para o cidadão “comum” a identificação da farmácia não seja a ideal. Mas muitos outros termos entraram na “nossa língua”, particularmente na informática.
Começo a dar razão aquele crítico do programa 100% Portugal (não tenho a certeza da designação), onde, às vezes, se utilizavam termos “estrangeiros” e produtos importados. Tudo em defesa da língua e produtos portugueses.
As coisas evoluíram. Para melhor? Para pior? Sinceramente não sei. O que sei é que chegamos aqui fruto de uma evolução que devemos encarar como natural. Podia ter sido melhor? Se calhar podia, agora olhando para trás. Acontece sempre isso. Depois das coisas feitas, das decisões tomadas, das escolhas,… vemos que podia ser diferente. No entanto podemos melhorar, mas à coisas que não é possível.
Devemos fazer um esforço para encontrar uma solução com responsabilidade e respeito. Temos essa obrigação perante as nossas crianças.
A língua evolui por incorporação de estrangeirismos, e esse é um processo natural.
O problema são os modismos que pegam de estaca à revelia de vocábulos pré-existentes e assim os atiram para o acervo arqueológico, mercê da impregnação quase bárbara de vocábulos de outra língua – não são estrangeirismos, são mesmo estrangeiros.
É redutor. Castrador. Silenciador.
Escrever “(…) mas à coisas que não é possível” não é evolução, mas, sim, involução.
Direi mesmo mais: é bater com estrondo num muro em marcha-atrás.
Caro Pedro, nós temos logo à partida uma solução fácil para estas incursões palermas, não frequentar. No que toca às farmácias, nunca me aconteceu ainda na que me é próxima, mas se vier a verificar-se, fácil, deixo de lá ir. Quanto ao comércio da restauração, assim faço, se disser wine bar, desconheço e não entro (os camones e afins que lá vão), se disser taberna ou tasca, estou em casa.
Somos dois, caro Vítor.
Pois eu entro em qualquer sítio sem distinção de língua, raça, religião, sexo, orientação sexual, etc.. Para mim tudo serve.
com a anuência generalizada das entidades públicas
Que queria o Pedro que as entidades públicas fizessem?
Se as autoridades protestassem contra a chemist store também teriam que protestar contra o <>ristorante</i> ou as tapas.
E ninguém faz nada? No mínimo é de muito mau gosto…digo eu que tenho mau feitio.

E ninguém faz nada? No mínimo é de muito mau gosto…digo eu que tenho mau feitio.

DNO
Abaixo o acordo ortográfico! Viva a pharmacia!
Já experimentou inscrever-se nos Asnónimos Anónimos?
Em alemão é que ficava mesmo giro:
– Ó marido, onde vais a esta hora?
– Vou à apoteca nos Olivais…
É de onde vem a palavra boticário — usada a martelo pelos brasileiros em vez de farmácia (surprise, surprise!). Uma botica (apoteca no original grego) é um armazém. Uma farmácia é uma loja de fármacos.
Segundo Eustácio de Samos poeta e bate-chapas do séc. IV ac, apoteca deriva de apoteus , significando Casa de Apote, herói semi divino , cujos ritos de celebração – Mistérios Apoteicos – misturavam dança e cerveja preta…daí provem boteco
Eta coisa mai maluca, sô!
Sai uma geladinha para o pobre do Apote,
que está no apoteu com a chapa que bateu (ou com a tuta que o pareu, mas quem o disse não fui eu).
Isso é verdadeiramente espantoso — até porque “Eustácio” é já a onomatopeia de bater em chapas.
Aproveito sempre a oportunidade:
– E os erros de sintaxe são ainda muito mais graves.
João de Brito
Um dia destes inicio aqui uma série só sobre isso.
O cúmulo da tolice é o Established in 2015 por baixo do Chemist Store como se fizesse parte da marca.
Devia chamar-se Farmácia Brega. Ficava mais de acordo com a realidade.
Chique-bem
Primeiro estranha-se. Depois desentranha-se.
Não concordo consigo num aspecto, Pedro: «Agora somos colonizados culturalmente pelos “camones”.» Na verdade, isto será mais um caso de «auto-colonização»: os anglófonos não nos obrigam a fazer estas tristes figuras.
Desculpem, mas parece-me algo exagerado o post, para não dizer despropositado.
O mesmo reclame que contém a menção ” chemist store”, tem no seu lado direito e perfeitamente visível, FARMÁCIA xxxx (nome da farmácia).
Estamos a discutir o quê afinal?