Adeus


José Meireles Graça,

Ontem reuniu-se o Conselho Nacional do CDS e, soube-se ao fim do dia, o partido apoiará Marcelo nas próximas eleições presidenciais.

É um gravíssimo erro. Explico porquê:

O CDS chegou, por razões circunstanciais, tarde à distribuição de cargos no aparelho de Estado, incluindo autarquias, o que, num país clientelar como é o nosso (aliás crescentemente) explica, em conjunto com outras razões que não vou esmiuçar, a sua condição de parente pobre do poder democrático.

Durante muito tempo albergou toda a direita democrática. O PSD, que tem uma génese e uma história muito diferente, foi sempre um partido equívoco por em vários momentos ter encabeçado a reacção à estatização do país e aos sucessivos desastres da governação socialista, o que consolidou a ideia de se tratar de um partido de direita. Mas aprovou a Constituição, cripto-cubana na sua versão inicial, foi sempre ferozmente europeísta, ainda antes do estado de necessidade que tornou qualquer veleidade de condução dos destinos nacionais, em certos aspectos, uma quimera, e nunca pôs verdadeiramente em causa, salvo no consulado de Passos Coelho, a irreversibilidade da crença no papel central do Estado, que é o pano de fundo do inelutável deslizar do país para os últimos lugares do desenvolvimento. Servido embora de pessoal tecnicamente mais qualificado, e sem algumas das máculas que tornam o PS a mão negra que se abateu sobre o país, só por distorção de conceitos se pode considerar um partido de direita, ainda que tenha não poucos votantes e dirigentes que estariam igualmente bem, se não fosse o quererem atrelar-se a carros vencedores, no CDS.

Albergar toda a direita sempre quis dizer democratas-cristãos, liberais, nacionalistas e tutti quanti não fossem socialistas. Este era o cimento, e cada uma das capelas convivia com as outras com algum desconforto, vários próceres defendendo que o verdadeiro CDS era o da sua, e as outras equivocadas. Os sucessivos líderes, por sua vez, navegavam conforme podiam no meio das “sensibilidades” e tendiam a ter a autoridade que o seu perfil, e a percepção da aceitação pelo eleitorado, lhes permitia.

Este cimento abriu brechas com os novos partidos, um liberal e o outro troglodítico-oportunista (com perdão a muitos militantes que conheço, e que não cabem nessa qualificação). Nem um nem outro, porém, têm a curto-prazo mais aspiração (e se a tiverem estão a nanar) do que fazerem parte de uma futura solução encabeçada pelo PSD, no caso provável de o pavio do PS se extinguir.

Entram aqui os cálculos marcelófilos. Este é encarado como um facilitador de uma futura solução ao actual estado de coisas pantanoso.

Mal. Porque Marcelo não tem nem nunca teve nenhuma ideia para o país que fosse além da democracia, europeísmo e o resto da vulgata de ideias consensuais e pacíficas. Não tem estratégia, apenas táctica; não lidera a multidão, apenas quer saber para onde ela quer ir, para a encabeçar cavalgando num trote risonho e, com frequência, ridículo; diz todas  as verdades, se forem agradáveis; leu todos os livros, se tiverem sucesso; lisonjeia todas as costelas patrioteiras, se isso não implicar mais do que discursos de chacha e gestos vácuos; e, sobretudo, aprecia a estabilidade, que é invariavelmente a da sua permanência num poder fátuo com geral aprovação, sem jamais lhe ocorrer que ela só é útil ao serviço de políticas profícuas, que de toda a maneira não sabe quais são.

Pense-se o que se pensar sobre Costa (e eu devo ter escrito dispersamente um livro de dimensão média a execrar o homem), é inegável que é um sobrevivente, um mestre da propaganda e manipulação, e um escravo consistente de ideias deletérias, que são as da esquerda que sufoca o país. Pois Costa apoia Marcelo e os senhores 153 conselheiros do CDS acham que não sabe o que está a fazer – eles é que sabem e Costa, em devido tempo, descobrirá que enfiou um grande barrete.

Não enfiou. Porque Marcelo só não o recompensará se a relação de forças no país mudar e a opinião pública, e a comunicação social, deixarem de carregar o andor socialista.

Isso sucederá, dependendo do tempo que levarem os patrões europeus a quererem começar a puxar a brida da dívida. Mas, quando suceder, não é imaginável que o concurso de Marcelo, com os poderes limitadíssimos que tem, o seu característico conjunto de convicções de plasticina, que passa por habilidade florentina, e a sua obsessão com a popularidade, sejam verdadeiramente úteis.

De modo que vender a alma ao diabo, se é justificável em tempos de guerra ou perigos mortais, não o é agora; ajudar a ganhar uma batalha, que aliás já está ganha com ou sem CDS, não é a mesma coisa que ajudar a ganhar a guerra; uma futura coligação de direita far-se-á em torno de um menor denominador comum, mas os equívocos não ajudam; e o CDS que votou contra a Constituição ou tinha um candidato próprio para ser derrotado com honra ou não apoiava ninguém porque nenhum candidato merece o seu apoio.

É certo que noutra maré o CDS se coligou com o PS, com a habitual retórica do interesse nacional e pé-ré-pé-pé – durou sete meses. Nessa época não era filiado, agora sou.

Sou mas vou deixar de ser. Nunca ninguém me censurou por pensar pela minha cabeça e dizer sempre o que me parece, e não estou certo de que seja apenas a minha irrelevância que sempre me protegeu – também a cultura partidária, de há muito habituada a conviver com vozes dissonantes.

Mas. Mas. Marcelo pode vir a fazer parte de uma solução para o país, se não houver outro remédio, mas não é por ser apoiado agora que se ganham créditos seja para o que for; não quero ser associado a soluções pastosas e oportunistas; não tenho nem nunca tive problemas em conviver com gente mais ou menos liberal do que eu, mais europeísta do que eu, mais ou menos nacionalista do que eu, até mesmo com quem julga que o manual para governar o país é a encíclica Rerum Novarum. Mas com nevoeiros onde difusamente se percebe o apelo do poder sem princípios, cálculos sem consistência e ambições sem tino – não.

Regressarei quando o tempo clarear.

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18 comentários em “Adeus”

  1. “Não tem estratégia, apenas táctica; não lidera a multidão, apenas quer saber para onde ela quer ir, para a encabeçar cavalgando num trote risonho e, com frequência, ridículo;(…)”
    Belo retrato
    “é inegável que é um sobrevivente, um mestre da propaganda e manipulação”
    Ninguém é mestre da propaganda e manipulação sem jornais e jornalistas. E qualquer político que tenha a “comunicação social” que Costa tem é um “mestre”. Ele não precisa de fazer coisa alguma até pode aparecer/parecer permanentemente enfadado.
    “só não o recompensará se a relação de forças no país mudar e a opinião pública, e a comunicação social, deixarem de carregar o andor socialista.”
    A Comunicação Social é o PS e o PS é a Comunicação Social não são coisas distinguíveis com poucas excepções. A Comunicação Social teria derrubado um Governo PSD após Pedrogão.

    1. A comunicação social não teria, sequer, permitido a formação de um governo PSD/CDS em formato gerigonça: teria sido um permanente estado de guerra-civil mediática.

      1. Além de que se uma coligação pós-eleitoral tivesse sido feita pelo PSD/CDS ou por quaisquer outros à direita do PS antes da geringonça — seria sempre uma traição à vontade expressa nas urnas, uma golpada contra os vencedores das eleições, um assalto ao edifício democrático que tantas vidas cust…. perdão, tantos empregos confortáveis deu a milhares de arregimentados e partidários medíocres.

  2. Em material plástico este presidente é o único possível.
    O que faz falta é entreter a malta, o que faz falta….

    1. O que eu gostava mesmo era de perceber a diferença entre estratégia e táctica,mas isso é coisa que o José Meireles (des)graça consegue explicar facilmente em poucas palavras compridas.

      1. Conseguiria, de facto, se estivesse para aí virado, ainda que não esteja certo de que entenderia, Alexandre Soares. Sugiro porém que, para inteirar a comunidade das suas congeminações, se abstenha de jogos de palavras com o meu nome. Excedem os limites do tolerável, por serem malcriados, e obrigam-me a não as publicar.

      2. O que eu gostava mesmo era de perceber a diferença entre estratégia e táctica

        Tirando a palermice de atacar o autor do post, a pergunta até tem cabimento porque há por aí muita gente no Governo e de volta dele que não sabe a diferença: como o amiguinho do Costa que escreveu aquele plano que não serve para nada — porque não tem tácticas. Ou seja é só para sacar a massa aos alemães e pôr os amigos do partido a geri-lo. No fundo nem interessa dizer como se vai fazer porque o dinheirinho dos alemães não é para distribuir.

        Sucintamente, uma estratégia é um plano geral; e as tácticas é o conjunto de operações concretas que são desenhadas para levar a cabo a uma estratégia. No xadrez, a estratégia pode ser desenvolver o seu jogo pelo lado do Rei (porque defende e ataca o lado mais fraco do tabuleiro) e para isso vai fazer jogadas e combinações que são tácticas (deixar linhas de ataque para os bispos, avançar os cavalos para casas que podem ser defendidas, etc).

        Se não percebeu, candidate-se a ministro. Eles também não percebem.

        1. A parte do etc percebi.
          Mais coisa menos coisa, a coisa deve ser mais ou menos assim: a estratégia é uma táctica de longo prazo, já a táctica é uma estratégia de curto prazo.
          Fico deslumbrado com a abundância de eminências prenhes de inteligência e eivadas de superior arrogância que por aqui pululam. Sem dúvida, num sítio que se intitula “delito de opinião”, e perante uma insignificante provocação, aparecem tantas virgens ofendidas a (des)tratar desconhecidos por palermas e ignorantes, é de louvar.

          1. estratégia é uma táctica de longo prazo, já a táctica é uma estratégia de curto prazo.

            Hmm, parece-me arriscado não procurar uma distinção mais clara porque elas podem coincidir em termos de duração no tempo — a estratégia é sempre um objectivo geral (por exemplo, se quiser desenvolver um país com base num modelo económico em que o dinheiro está nas mãos das pessoas e não do Estado e aumentar a poupança e o volume de transacções) e uma táctica são sempre coisas muito concretas (neste exemplo, seria baixar ou acabar com uma série de impostos ou criar aforros ou acabar com o IMI — uma série de tácticas) e podem coincidir no tempo e em duração.

            E já agora, uma “palermice” não é nada de grave, até é um termo simpático, acho eu (sem ironia). Eu tenho muitas.

  3. No momento que o partido vive, não vejo outra solução que não esta.
    O CDS não tem dimensão, neste momento, para apresentar um candidato próprio.
    Penso que se o fizesse, colocaria ainda mais a nu, a sua diminuta dimensão.
    Não apoiar nenhum, teria o mesmo resultado.
    Daria ainda mais a imagem de partido sem rumo e daria a imagem de não ter ninguém com nível suficiente para o cargo. O que teria ainda mais repercussões na opinião que o povo terá do partido hoje em dia.
    Restava-lhe duas soluções. Apoiar Ventura, o que resultaria num linchamento público, da comunicação social a soldo de Costa. Ou apoiar Marcelo, o que é nada mais do que apoiar num cavalo vencedor e assim já se poderá colar à equipa que ganha e poderá dizer aos 4 ventos que o seu candidato venceu.
    Por isso, poucas ou nenhumas alternativas restavam ao partido neste momento. Esta foi a menos nefasta, a menos polémica e aquela que lhe poderá permitir passar entre os pingos da chiva, sem se falar muito no assunto.
    Outra qualquer iria dar falatório. E esse falatório poderia ser a machadada final num moribundo.

    1. Ou apoiar Marcelo, o que é nada mais do que apoiar num cavalo vencedor

      Eu não digo? O pessoal do CDS tem a mania dos cavalos

  4. Este belíssimo texto precisa do toque de um ser divino como eu para se transformar em uma obra de arte.
    Vamos lá!
    O problema nesta nação é não termos um Presidente louco e burro. Marcelo é inteligente e aproveita-se da burrice e da loucura do governo para cimentar sua caminhada. E até lá vai conseguindo que o SEF seja transformado, mesmo com Cabrita no mando. Sim, seu disse mando, pois não há quem eu veja que tenha habilidades de comando. O sentido de comando é o contraponto do mando – muito característico no Costa -, pois o comando obedece também a uma ordem hierárquica constituída por subalternos e não por subordinados. Quero com isto dizer que um subalterno pensa e age, e um subordinado deixa que outros ajam com mando e sem comando algum. O estrago é sempre maior quando assim ocorre. Por isto não admira que aja tantos mandados e subordinados nesta nação: desde partidos, governos, empresas, municípios, parlamentares, vizinhos, familiares; e até mesmo feministas e animais.

    A minha esperança, porém, reavivou com as lágrimas de Marta Temido. Eu sou mais generoso na libertação de fluidos, pois não choro: mijo. Mas mijo em abundância, que nem um leão a marcar território. Não fosse esta minha generosidade na libertação de fluidos, marcando território, e aconteceria que outros mijariam em mim fazendo-me perder território, que é meu e sagrado.

    Concluindo: ficai com a nação que eu fico no meu território. Se alguém precisar de ajuda, disponha. Pois andamos por aqui uns para os outros, sem mando.

    Passemos a outra dimensão: A Rerum Novarum de Leão XIII (1891) está ainda aí para demonstrar que hoje os operários acima referidos estão em situação diferente e são diferentes dos anteriores. Os actuais gostam de mando e de ser mandados, mas sem brio algum por um serviço que se deve prestar. Com excepção para a Marta – e também para a Graça que está doente – que ainda se comove com tanta dor. Daqui envio-vos um beijo.

  5. Só não percebo o momento de largar o CDS. No dia do “irrevogável”pareceu-me um imperativo. No dia em que a Dra. Cristas ofereceu Lisboa ao porta-voz do Sócrates, já ía tarde. Quando foi eleito aquele rapazito, se não fosse então, então seria quando? Agora? Mais vale esperar uns meses e ir ao fundo com o barco, à capitão.

    1. Sou um soldado raso e quase anónimo, donde abandonar “à capitão” só faria no meu caso sentido se me atribuísse a importância que não tenho. Esses episódios que contas um não foi bem como o descreves e o outro ainda hoje não se sabe em que exactamente consistiu. Quanto ao “rapazito”, não o vejo assim: em determinada altura pareceu-me que tinha potencial, e tomou conta do partido num momento de desnorte em que, qualquer que fosse o herdeiro, não teria a vida fácil, para além de ter tido o grande galo de não ter sido eleito deputado. Não tem cessado de cometer erros, uma parte dos quais, a meu ver, desculpável. Este erro não, não é desculpável. E há uma componente vaidosa na minha decisão (sou uma pessoa muito vaidosa, mesmo que sem grandes motivos para o ser), que consiste nisto: em determinada altura, em que já não sei quem aventou a hipótese de o partido apoiar o saco-de-vento Marcelo, disse que em tal eventualidade sairia, convencido de que a hipótese era apenas académica. Não era, pelo que se vê. Não faço porém ameaças que não cumpra, senão deixaria a impressão de que sou um gajo igual aos outros e, lá está, a minha vaidade não me deixa ser.

      1. O “panache”, saúdo! Quanto ao mais, em política, o que parece é, e (i) o “rapazito” parece isso mesmo, e, (ii) dos restantes episódios, só sei o que pareceu, e gostava de saber mais (até porque em 2011 votei no partido em causa e, claro, abjurei). PS: quanto ao Prof. Neca, subscrevo tudo. Votei nele com “self-loathing” (auto-asco?), e apenas porque fui enganado pelas sondagens quando à possibilidade de uma segunda volta com aquele senhor de cabelo branco.

  6. Depois da Cristas o CDS ficou irrecuperável.
    Depois do Rio o PSD ficou irrecuperável.
    Mesmo antes do Sócrates o PS já era infrequentável.

    Hoje, assumir publicamente o apoio a Marcelo tem o mesmo valor que um gay assumir que gosta de homens, ou da Marisa.

    Votar nas presendiciais é um acto inutil, deve ser usado com a oportunidade que a eleição proporciona para expressar o nosso descontentamento com o regime.

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