Absolutamente transparentes


Rui Rocha,

Decorreram já mais de 24 horas sobre a detenção de José Sócrates. É tempo suficiente para fazer um balanço das reacções dos seus círculos mais próximos. Muitos seguiram o caminho da teoria da conspiração. O momento, os factos, o contexto, estariam a ser manobrados com intenção política deliberada. Outros salientaram as circunstâncias em que Sócrates foi detido, procurando minar a credibilidade da investigação. O que é verdadeiramente significativo é que, até ao momento, não houve uma única declaração de convicção incondicional sobre a irrepreensibilidade da conduta de Sócrates. Isto é, ninguém pôs a mão no fogo pelo ex-primeiro ministro. Trata-se, portanto, de posições elucidativas que permitem um retrato claro sobre o que pensam os seus apaniguados e, antes de tudo, sobre o que os move.

5 comentários em “Absolutamente transparentes”

  1. Bom dia Rui.
    Em 1º lugar, uma nota: uma coisa é comentarmos o conteúdo, a questão material. Ou seja, se ele é culpado ou inocente. Penso que aqui ninguém, salvo ele e algumas pessoas mais próximas com conhecimento directo, pode afirmar se é uma coisa ou outra. É natural que ninguém ponha a mão no fogo por ele. Eu próprio não ponho a mão no fogo por quase niguém… Outra coisa é comentarmos a forma como decorreu este espectáculo (sim, foi um espectáculo mediático), se foi a mais correcta ou não, nomeadamente comparando com outras detenções mediáticas e outros processos (o Ricardo Salgado, por exemplo, não foi tratado desta forma), alguns bem recentes.
    Em 2º lugar, considero que sendo um caso que ainda vai no início (está a decorrer o 1º interrogatório judicial de arguido detido, o inquérito ainda vai continuar, depois haverá acusação – ou arquivamento – eventualmente instrução e só então julgamento), será prematuro tirar conclusões. A Justiça seguirá os seus termos. Na Justiça e não nos pasquins e na praça pública, apesar de a turba mediática tender sempre para os julgamentos sumários como nos velhos tempos dos pelourinhos…

    Para mim, o mais grave neste caso, tal como noutros (ainda na semana passada sucedeu o mesmo com o então ainda ministro Miguel Macedo), é a violação do segredo de justiça. Este é o verdadeiro crime que compensa, pois as investigações desembocam sempre num enorme vazio. Nada sucede. Ninguém é condenado. A impunidade continua para alguns, para os chibos. Eu sei umas coisitas que não digo nem escrevo aqui (só em privado). Mas há casos em que é fácil saber de onde partiu a fuga de informação. Tão fácil, aliás. O modus operandi das fugas de informação é quase sempre o mesmo: os jornais são sempre os mesmos, os processos estão quase sempre na mesma fase processual e, mais importante, encontram-se no mesmo gabinete. É tão fácil…
    Como o Rui escreveu noutro post, há vários possibilidades de quem se chibou. Pode ter sido o própio Sócrates. Mas não creio. Pelo modus operandi deste caso, igual a tantos outros, parece-me que o interesse da fuga de informação não era dele. Acresce que a divulgação destes processos junto da comunicação social, envolvendo figuras do PS, são quase sempre em momentos políticos intensos. O Casa Pia foi em vésperas de eleições e apesar de terem vindo a público nomes ligados ao governo de então (incluindo ministros), só foram chamados à Justiça elementos do PS. O freeport (combinado com jornalistas em casa do chefe de gabinete do então PM e opositor de Sócrates) foi divulgado num jornal amigo 2 semanas antes das eleições de 2005. A inventona de Belém (combinada entre um assessor do presidente e um jornalista amigo, que inventaram a notícia de que Sócrates estaria a escutar o presidente) foi divulgada semanas antes das eleições de 2009. Este fds são as directas do PS e na próxima semana haverá congresso. Há mais. E os timings são de uma tremenda coincidência…
    Posto isto, não creio que a fuga tenha partido do próprio Sócrates. Por estas duas razões. Mas tenha partido dele ou de pessoas ligadas à Direita dentro da Justiça (que também as há e em maioria), a verdade é que houve uma fuga. E isto, para mim, é o mais grave nisto tudo. Vermos políticos e figuras gradas do regime serem detidas, acusadas e/ou julgadas parece-me natural atendendo que o país é um dos mais corruptos da Europa. Até será bom sinal, de que a Justiça funciona (às vezes não funciona mesmo, basta ver os processos que vão marinando, como o dos submarinos, quando na Alemanha já há condenações e trânsito em julgado). Teremos é de esperar para ver no que isto irá dar. Pois, como já várias pessoas escreveram e disseram, ou esta onda de processos mediáticos fará as pessoas voltarem a confiar na Justiça, se funcionar bem claro, ou isto irá dar cabo de vez dessa confiança.
    Veremos.
    Abraço

    PS: Peço desculpa pelo texto longo.

  2. Uma novidade absoluta no argumentário:

    “Se não existir um grupo enorme de pessoas a colocar as mãos no fogo por ti: És culpado!”.

    Uma maravilha… já 5 graus de separação para lá da presunção de inocência e 10 graus de separação da simples decência.

    miguel

    1. Note que a interpretação é sua. A Justiça há-de, naturalmente, e esperemos que com isenção, chegar a conclusões. De momento, registo apenas a reacção dos que estão próximos de Sócrates. A presunção de inocência em processo penal vincula o poder judicial e é fundamental que assim seja. Mas não me impede a mim, ou a quem quer que seja, de observar comportamentos.

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