Abaixo de chimpanzé


Pedro Correia,

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André Silva nunca pediu desculpa pela mais aberrante frase proferida por um político português nos últimos anos: «Há características mais humanas num chimpanzé ou num cão do que numa pessoa em coma.» Tendo em conta que este dislate já data de 2015, numa entrevista ao Expresso, devemos concluir que o porta-voz do PAN, se nem sempre é pessoa para pensar no que diz, pelo menos diz aquilo que realmente pensa.

Com o brilharete conseguido a 26 de Maio, ao superar os 5% e eleger um eurodeputado, o PAN goza dias de glória. Levado em ombros pelas mesmas trombetas mediáticas que quase o ignoraram na recente campanha eleitoral (houve até um canal televisivo que o excluiu do debate entre os cabeças de lista de maior relevo, optando em seu lugar pelo partido unipessoal de Marinho e Pinto, que saiu das urnas com 0,5%).

Mas toda a medalha tem um reverso. O partido animalista que ultrapassou a CDU em sete dos 20 círculos eleitorais e ficou à frente do CDS em Faro e Setúbal vai finalmente ser escrutinado – como aliás devia ter acontecido logo em 2015, quando André Silva se estreou como deputado. Com um atraso de quatro anos a comunicação social descobre só agora, muito surpreendida, que o PAN celebra congressos à porta fechada, quer impor a utilização do «copo menstrual» às mulheres e orgulha-se de ter conseguido nesta legislatura uma redução do IVA no consumo de algas. Entre os devastadores incêndios de Junho e Outubro de 2017, que causaram 116 mortos, entreteve-se a legislar sobre a admissão de animais de companhia nos restaurante citadinos, o que define bem as suas prioridades.

 

Eis um partido new age, digno de subscrever proclamações pela «paz no planeta» com a convicção de qualquer candidata a Miss Universo. Um partido «ideologicamente amorfo», segundo o rótulo que alguns politólogos contemporâneos adoptaram para caracterizar este pensamento capaz de cruzar o melhor do Dalai Lama com o pior de Paulo Coelho.

O maior indício da consistência gelatinosa do PAN detecta-se, aliás, no facto de já ter mudado duas vezes de nome desde que surgiu, faz agora dez anos. Começou por chamar-se Partido Pelos Animais. Em 2011 registou-se no Tribunal Constitucional como Partido Pelos Animais e Pela Natureza. Três anos depois, num dos tais congressos interditos a jornalistas, adoptou a actual denominação pleonástica: Pessoas-Animais-Natureza.

André Silva recorre às técnicas dos pregadores evangélicos, alternando o discurso do medo, próprio dos milenaristas de antanho, com a invocação subliminar do halo de santidade só ao alcance dos convertidos. Arauto da virtude, lança anátemas aos que insistem em repudiar o tofu: apenas um mundo convertido ao veganismo e ao ciclismo sobreviverá à inevitável catástrofe ambiental. Ele e os seus acólitos, magnânimos, estão dispostos a conceder-nos a absolvição dos pecados da carne e do plástico desde que cumpramos a indispensável penitência e abracemos «um novo paradigma disruptivo», seja lá o que isso for.

Quem ousar dizer o contrário, já está em coma, embora ainda não saiba. Desceu abaixo de chimpanzé.

 

Publicado originalmente no jornal Dia 15.

0 comentários em “Abaixo de chimpanzé”

  1. Algumas considerações:

    – “e nem sempre é pessoa para pensar no que diz, pelo menos diz aquilo que realmente pensa”: penso que não diz aquilo que pensa, mas era bom que em todos os partidos o fizessem… Alguns nem tentam ludibriar o que pensam, simplesmente não pensam.

    – atenção ao contexto em que a frase foi dita, Pedro. E sim, de facto, um ser-humano em coma é praticamente um vegetal.

    – PAN não é um partido verde. Tenta mostrar que é e não é! Espero que isso não sirva (como faz o PEV) para limitar a verdadeira criação de um “partido verde”.

    – Mediatismo? Temos um PR que também chegou onde chegou e não foi propriamente pelas ideias…

    – Congressos à porta fechada, desconhecia… Enfim… Mas o que não falta são conluios à porta fechada mas com nomes diferentes.

    – Se o PAN é uma espécie de farsa? Os incêndios são um bom exemplo e do qual já falei, até lhe acrescentei o novo aeroporto em plena Reserva Natural e uma das maiores e mais importantes zonas húmidas da Europa! Silêncio total!

    1. Legislar sobre os lulus nos restaurantes entre os dois mais devastadores e mortíferos incêndios de que há memória em Portugal diz quase tudo sobre as pias prioridades do PAN.
      Quanto ao aeroporto, nada que me surpreenda. Mais do mesmo.

      1. Queria que durante esse verão (de 2017) a Assembleia da República tivesse encerrado para férias? Que não tivesse legislado absolutamente nada? Ou que se tivesse limitado a legislar sobre assuntos de magna, urgente, inadiável importância?

        Claro que, lá por ter havido grandes incêndios em junho e outubro de 2017, a Assembleia da República, tal como o resto do país, não “fechou” para luto, não deixou de legislar. Sobre assuntos mais importantes uns, menos importantes outros, claro – mas não fechou.

    2. Kanes:
      De facto, um animal em coma é praticamente um vegetal.

      O PAN tem origem num movimento radicalista, com propósitos utopianos, de transformação do real, soldado não em principios de razão e liberalistas, mas numa sonora tempestade e impeto.

      No inicio, eram estas as farpas dos seus fundadores:

      “Pela higiene nacional: Freaks e hyppies para a fogueira! Purificação Nacional! O mito renasce – a raça está viva! – Igualitários, mordereis o pó. Lâminas imperiais para barbas democráticas! Cristo era judeu! Marx era judeu! Freud era judeu! Quando nos libertaremos desta maldita herança?”

      E há ainda esporos, no PAN, à espera de oportunidade.

      1. Nunca se teria dado importância ao PAN se estes resultados (europeias) não tivessem acontecido… A verdade é que de repente o partido engraçado passou a pouco engraçado, digamos assim… Em Portugal é-se giro quando não se mexe com os interesses instalados. E atenção, não sou o maior amigo do PAN.

        Se os esporos de todos os partidos (especialmente à Esquerda) pudessem ter a sua oportunidade… Onde é que Portugal já estava 🙂

        1. É a luta de classes em conceito ‘new wage’: quatro patas proletárias contra dois pés exploradores.
          No combate à opressão do ‘homo erectus’, os bichos não têm nada a perder senão as respectivas grilhetas.

          1. Dizem que somos poucos, então aí nem “DeBorla” – passávamos a caber num móvel “IKEA”.

  2. O termo técnico é “nicho de mercado”.
    Ninguém pensa no pan para governar.
    O Bloco também não elegeu um deputado que entrou, passou a ” sua” legislação, e saiu logo a seguir? Mesma filosofia.

      1. Caro Pedro,
        Houve aí uma desatenção. O anónimo do “nicho de mercado” fala de “bicho de mercado” no primeiro parágrafo mas fala de ‘bicha do mercado”* no segundo parágrafo.
        * antes que chovam os insultos, sou “gay friendly”, pela autodeterminação dos povos e assim, ah e gosto muito de arco-íris

  3. nunca pediu desculpa

    Não tem nada que pedir desculpa. Temos liberdade de expressão e ele exprimiu, livremente, aquilo que pensa. Ele não tem nada que fazer autocensura àquilo que pensa, nem tem nada que pedir desculpa por ter a opinião que tem.

  4. quer impor a utilização do «copo menstrual» às mulheres

    Qual a fonte em que o Pedro Correia se baseia para afirmar isto?

    Julgo que o PAN propôs que se estimulasse, ou propagandeasse, o copo menstrual; mas não pretendeu impô-lo.

  5. redução do IVA no consumo de algas

    Acho tal redução naturalíssima. Todos os produtos crus (não processados) gozam de redução do IVA, por maioria de razão as algas também devem gozar dela, pois são vendidas cruas.

  6. o PAN celebra congressos à porta fechada

    E depois? Em Portugal goza-se de liberdade de associação, manifestação e reunião. Os partidos são livres de se reunir com a porta aberta, fechada ou entrecostada. Há liberdade política neste país, Pedro Correia!

    1. O Sr.Lavoura “amiguinho” do Kosta-Kong, também gostava do Chimpazé do Tarzan em criança, dias felizes entre lianas…..

      A.Vieira

      1. Um congresso é a reunião onde o partido decide a sua estratégia, tática, programa e protagonistas. Faz todo o sentido que tal debate seja feito em privado. Da mesma maneira que uma qualquer empresa privada decide em privado a sua estratégia de marketing e os seus líderes.

        É claro que aos jornalistas, como o Pedro Correia, faz imenso jeito que os congressos sejam públicos, para que eles, jornalistas, tenham tema para notícias e comentários. Mas o facto de lhes fazer jeito não é razão para virem dizer que deveria ser assim.

        A generalidade das organizações decide em privado (à porta fechada) os seus líderes, a sua estratégia, e a forma como se vai apresentar ao público. Há bons motivos para que os partidos políticos façam o mesmo (embora alguns possam, livremente, não o fazer).

  7. Esse associado a Quintino Aires, faziam uma dupla imbatível.
    O iluminado e o esclarecido.

    Política e psicologia unida,
    nunca a bichesa será vencida.
    O comatoso para o chão,
    o símio para o colchão.
    O marido não dá jeito,
    o cachorro para o leito.

    E viva o livre pensamento!

  8. É natural e expetável que, agora que se afigura que o PS em coligação com o PAN possa obter maioria na próxima Assembleia da República, e que António Costa já afirmou que estaria disposto a formar uma coligação formal com o PAN, pessoas ligadas ao PSD, como o Pedro Correia, comecem a atacar afincadamente o PAN, quando até agora não lhe tinham ligado nada.
    De apêndice da maioria de esquerda o PAN pode passar a partido fulcral numa coligação de governo com o PS, o que naturalmente irrita solenemente o PSD e os seus compagnons de route.

  9. Pedro, como o PAN existem outros. Partidos de nicho, que fazem de meia dúzia de causas um par de calças. Há por aí partidos, europeus, que em vez do tofu, ou das touradas, fazem dos emigrantes, da identidade branca e cristã, ou da sacralidade dos mercados, o seu leitmotiv. O eleitor que escolha.

    Quanto aos congressos de porta fechada, servem para esconder uma agenda radical, de engenharia social.

        1. «Pela higiene nacional: Freaks e hyppies para a fogueira! Purificação Nacional! O mito renasce – a raça está viva! – Igualitários, mordereis o pó. Lâminas imperiais para barbas democráticas! Cristo era judeu! Marx era judeu! Freud era judeu! Quando nos libertaremos desta maldita herança?»

          Eis os belos pensamentos do fundador do PAN.
          Jornalisticamente esquecido.

    1. já agora convém repetir o que Rui Ramos (julgo que foi ele) lembrou após as europeias: há muito soar sobre o PAN mas, de facto, tiveram para aí menos 70 ou 80 mil votos do que o Marinho E (tem que ser em maiúscula) Pinto teve nas anteriores eleições

  10. O PAN quer o fim dos Humanos “impuros”, não passa de outra manifestação das tácticas Marxistas.

    A táctica de desenraizamento humano da sua História como estratégia para sem referências que façam obstrução poder guiar as massas sem que estas possam resistir.

    Tudo pelo Poder. E fazer acreditar o outro que é pecador é a arma mais eficaz para o constranger, silenciá-lo.

    lucklucky

    1. Entre o humano impuro de uns e o menino-consumidor mimado movido por desejos caprichosos dos liberais venha o diabo e escolha.

      1. Pensamento do fundador do PAN:
        «Pela higiene nacional: Freaks e hyppies para a fogueira! Purificação Nacional! O mito renasce – a raça está viva! – Igualitários, mordereis o pó. Lâminas imperiais para barbas democráticas! Cristo era judeu! Marx era judeu! Freud era judeu! Quando nos libertaremos desta maldita herança?»

  11. Há características mais humanas num koala a comer do que num político a dormir

    Diz tudo e não diz nada.
    Quando um filho de um PAN andar de mota, cair e ficar em coma, queria saber se os seus colegas lhe vão dizer o mesmo.

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