A voz de Eco


Rui Rocha,

 

Numa grande entrevista conduzida por Stephen Moss e publicada no Guardian, Umberto Eco aborda vários temas. Alguns destaques:

 

Sobre os Protocolos dos Sábios do Sião:

Interessa-me a filosofia da linguagem, a semiótica (…) e um dos aspectos essenciais da linguagem humana é a possibilidade de mentir. Um cão não mente. Quando ladra, é sinal de que está alguém lá fora. Os animais não mentem. Os humanos fazem-no. Das mentiras à falsificação a distância é curta (…). A maior e mais terrível falsificação é a dos Protocolos dos Sábios do Sião.

 

Sobre a Conspiração:

O que me atrai não é a conspiração em si, mas a paranóia que permite que ela se desenvolva. (…) A paranóia da conspiração universal é mais poderosa porque perdura. (…) É uma tentação psicológica da espécie. Karl Popper escreveu um belíssimo ensaio sobre o assunto em que afirma que tudo começou com Homero. Tudo o que aconteceu em Tróia foi congeminado pelos Deuses no dia anterior, no cimo do Monte Olimpo. A conspiração é uma forma de não nos sentirmos responsabilizados. É por isso que os ditadores usam a ideia de conspiração universal como uma arma. Fui educado na escola por fascistas durante os primeiros anos de vida e eles usavam a conspiração universal: os ingleses, os judeus e os capitalistas estavam a conspirar contra nós, pobres italianos. Hitler fez o mesmo. E Berlusconi, sem estar em causa compará-lo com Hitler ou Mussolini, passou a campanha eleitoral a falar da conspiração dupla dos juízes e dos comunistas. Já não há comunistas, mesmo que os procures com uma lupa, mas para Berlusconi eles estavam a tentar tomar o poder.

 

Sobre Berlusconi:

Berlusconi é um génio da comunicação. Se não fosse assim, nunca se teria tornado tão rico. Ele identificou o seu alvo desde o princípio: pessoas de meia idade que vêem televisão. Os jovens não vêem televisão, estão na Internet. As pessoas que apoiam Berlusconi são as senhoras de 50 e 60 anos e os reformados que vêem televisão que, num país em processo de envelhecimento, constituem uma força eleitoral poderosa. (…) O lema de Berlusconi foi paguem menos impostos. Quando um primeiro-ministro diz que tens direito a não pagar impostos, ficas satisfeito.

 

Sobre a Itália e suas escolhas eleitorais:

Berlusconi apresenta uma clara aversão aos intelectuais. Orgulha-se de não ter lido um livro até aos 20 anos. Há um claro temor dos intelectuais como representantes do poder da crítica e, nesse sentido, existe um embate violento entre Berlusconi e o mundo intelectual. Mas, a Itália não é um país de intelectuais. Em Tóquio, no metro, toda a gente lê. Em Itália não. Não avaliem a Itália a partir do facto de estar ter produzido Rafael ou Miguel Ângelo.

 

* tradução livre

2 comentários em “A voz de Eco”

  1. O livro é inteligente, divertido, principalmente para quem passou por Dumas.
    Está em português (com ortografia portuguesa, sem acordo) o único possível, e é, por isso, legível.

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