A vertigem das intuições


José Meireles Graça,

A intuição não é coisa de confiança: Ela diz-nos que se o Estado confiscar a riqueza dos que têm mais e a distribuir equitativamente ficam todos remediados. Mas na realidade ficam todos pobres, excepto se o mecanismo do confisco, a que chamamos impostos, for suficientemente comedido para não desincentivar nem o investimento privado nem o desejo de trabalhar.

Isto sabe-se, mesmo que o sonho de uma sociedade igualitária alimente uma quantidade de almas puras (na parte em que não sejam simplesmente invejosas ou ressentidas) que deixaram de querer nacionalizar os meios de produção, entusiasmante apelo que substituíram pelo expediente de reclamar o aumento da carga fiscal até ao ponto de se poder enriquecer desde que não se fique rico, e se fique pobre se em algum momento se tiver acumulado, ou herdado, riqueza.

Toda a gente sabe isto, mesmo os que fingem não saber porque sonhar é bom e alimenta nichos eleitorais com clientelas numerosas.

O diabo é que há outras intuições traiçoeiras, e uma delas é a velocidade: Quanto mais depressa mais perigo, e portanto quanto mais devagar mais segurança, não é? E estabelecendo um limite necessariamente arbitrário e ir microgerindo a rede viária de modo a que sempre que se registem ou possam registar acidentes em determinados pontos esse limite seja diminuído ficamos todos a ganhar: o Estado porque aumenta as suas receitas sem ser com odiosos impostos, mas antes com virtuosas coimas; os acidentes diminuem (é o que diz esta senhora ministra, provavelmente baseada num estudo qualquer feito com os pés em que se ilustra o ponto); os condutores vão progressivamente, já que não ligam peva às paternais injunções da Prevenção Rodoviária Portuguesa, habituar-se à disciplina imposta por “especialistas” dominando modelos de raciocínio burocrático-policial; os condutores que se indignavam com aqueles que os ultrapassavam vertiginosamente deixarão de ter motivos para a sua ira justiceira porque toda a gente circulará à mesma velocidade; os automóveis desportivos continuarão a ter interesse, mas apenas para estacionar à porta de pastelarias ou para consolar homens de meia-idade à procura da juventude perdida, o que fará diminuir o seu número (dos automóveis, não dos portadores de cãs, se é que não será também o caso de falar delas, que hoje se metem em tudo); os níveis de cidadania, medidos pelo respeito devido ao que as autoridades entendem ser o bem comum, serão preciosamente reforçados, o que tem utilidade noutros domínios, como por exemplo a repressão de hábitos ou vícios considerados deletérios para a saúde (para o que se usa o truque de chamar pública à saúde de cada qual); e Portugal junta-se ao esforço dos países mais avançados (com excepção da Alemanha), como é seu direito e obrigação, para acabar com o flagelo das mortes e estropiados na circulação. Em suma, o socialismo, do bom, do verdadeiro, na estrada – todos iguais, todos contentes com a igualdade e todos dispostos a castigar perniciosos elementos antissociais com coimas terroristas para princípio de conversa, e generalizadas reeducações no ramo da virtude colectiva para os mais recalcitrantes, as quais aliás já existem em certos casos.

Não fora pior se na Alemanha, em extensos troços de autoestrada, houvesse limites – ao menos um dos vários que existem consoante os países. Mas os teutónicos, com insolência, não querem ouvir falar nisso e, por serem geneticamente abençoados com excepcioniais dotes de habilidade para a condução, não têm taxas de sinistralidade mais altas. A União Europeia, porém, ainda não disse a última palavra: eles que continuem a enfraquecer a economia com políticas de esquerda e pode ser que algures no futuro se vejam obrigados neste particular a acolherem-se ao redil dos países bem-comportados.

O diabo são as externalidades, um conceito que, por ser caro a economistas, peço desculpa por usar aqui, porquanto:

Qualquer automóvel actual trava em muito menos espaço do que o equivalente de há 40 anos, percorre com segurança curvas a velocidades que dantes o fariam esbardalhar-se na paisagem e, em caso de acidente, protege imensamente mais os passageiros do que nunca. Sabe-se porquê: tem travões de disco, assistidos, e não de tambor, muito melhores suspensões, auxílio electrónico, em certos casos, à condução, airbags, zonas de deformação e um longo, com frequência invisível, rosário de inovações para poderem circular a velocidades muito superiores às legais.

Isto significa que a baixas velocidades são muito mais seguros do que seriam se não fossem concebidos para circular a altas. E que talvez, talvez, haja uma ligação entre a superioridade dos carros de fabrico alemão, que vem sendo progressivamente emulada, e a tradição local em matéria de circulação em autoestrada, admitindo que essa superioridade não decorra exclusivamente da vocação para a excelência nas indústrias. O que, a contrario, significa que se a competição automóvel deixar de exportar inovações para o fabrico em série, e se a propriamente dita deixar de se fazer em torno do desempenho, será natural que a segurança deixe de progredir, primeiro, e regrida, depois, por soluções mais baratas serem perfeitamente aceitáveis para velocidades de caracol.

A indústria é madura, mas a competição entre marcas sempre foi feroz, tanto que muitas ficaram pelo caminho. Se os veículos não se puderem distinguir de uma maneira, privilegiarão outras: conforto, espaço, dimensões, entretenimentos de bordo e milhentas novidades, que já existem mas ainda não se banalizaram, ou virão a existir.

Há já sinais disso? Há, os SUVs. Correspondem a uma moda (semelhante à que existiu em tempos e que favorecia carrinhas), são mais cómodos para acesso a pessoas com idade, dão a falsa impressão de poderem circular em terrenos para jipes e de serem mais seguros do que as berlinas equivalentes e ainda proporcionam sensação de velocidade que os radares não confirmam. De qualidades reais ou aparentes estamos conversados. Porque na realidade consomem mais porque mais pesados, não são mais seguros, pelo contrário, e são necessariamente mais caros e de mais cara manutenção. Para já a tradição ainda impõe incorporar o último grito para o segmento em matéria de segurança activa. A concorrência se encarregará, é apenas uma questão de tempo, de começar a cortar no que é demasia – aquela segurança passará a ser menos exigente e o legislador europeu nunca conseguirá cobrir todos os aspectos que, na concepção, contendem com a qualidade e a eficácia no desempenho.

Qual é então a minha tese, que, por desafiar aquilo que a intuição diz às pessoas, e que faz com que elas julguem que sabem do que estão a falar, não converterá senão convertidos?

É esta: o grande amigo das pessoas que cumprem religiosamente as regras em matéria de velocidade é, e sempre foi, quem não as respeita; e, no futuro, os ganhos com as limitações (de resto não tão relevantes como quer fazer crer a propaganda oficial) serão anulados pelo progresso que deixará de se fazer, e pelo retrocesso que terá lugar em alguns aspectos.

Três páginas, já? Ora, mesmo que o assunto dê pano para mangas o melhor é ficar por aqui, de modo que encerremos:

O socialismo na estrada não é diferente do socialismo em todos os outros lugares.

12 comentários em “A vertigem das intuições”

  1. Interessante ver o Delito de Opinião a defender a sinistralidade rodoviária.
    Não quer pagar multas de trânsito? Simples, não cometa infrações.
    E se circula em excesso de velocidade sabendo que há um radar, então é muito burro e está a entregar o seu dinheiro ao Estado de forma 100% voluntária.
    Se realmente houvesse uma caça à multa (o que quer que isso signifique), o governo não avisaria que há radares, colocava-os escondidos e pronto.

    1. As opiniões são de quem as assina, neste caso minhas, não do Delito. Obrigado pelos seus conselhos, utilíssimos para quem deles precise, ainda que embrulhados em desnecessária grosseria. Incidentalmente, ter-lhe-á escapado que há radares fixos, com aviso, e móveis, sem aviso.

  2. Uma sanção pecuniária é isso mesmo: uma punição imposta em resultado da prática de uma acção censurável à luz da lei vigente. Numa sociedade perto da ideal, que juntasse um povo civilizado e um poder decente (tão improvável uma e outra premissas como o é a sua fusão), a receita de multas e coimas seria igual a zero ou pouco mais. E seria, deveria ser, objectivo do poder, pelo nível cultural, educacional, das massas e pela razoabilidade da autoridade e acção desse poder (um delírio utópico, eu sei), que assim fosse: que muito naturalmente essa receita fosse irrelevante. Desejavelmente nula.
    Entre nós, contudo, a receita de multas e coimas integra o orçamento do estado. Tem, portanto, objectivos definidos de cobrança. Tem que ser conseguida. Interessa assim que se prevarique, que se cometam as famosas “infracções ao código da estrada”. Interessa pois, também por isso, que o povo se vá mantendo embrutecido e de sua índole dado à indisciplina, e que o código da estrada vá eternizando disposições mais e mais anacrónicas. E que se baixem, se necessário for para o cumprimento das metas orçamentais, os limites de velocidade.
    Sempre, claro, em nome da segurança na estrada.

  3. Não se iluda, caro colega! É certo que há troços de auto-estrada, na Alemanha, sem limite de velocidade. No entanto, o tráfico intenso e os engarrafamentos (sim, na auto-estrada, todos os dias, atingindo dezenas de quilómetros de extensão) evitam o desfrutar da situação. Isto, aliado a um ror de troços com limite (por vezes, 80 Km/h), na prática significa raramente se poder andar à velocidade desejada. E não se iluda mais uma vez: muitos dos acidentes que se verificam na auto-estrada são devidos a condutores impacientes que, na sua ânsia de dar gás, intimidam, com sinais de luzes e o colar-se à traseira do que vai à frente, condutores que querem simplesmente ultrapassar um camião.

    Além disso, não se iluda: experimente passar numa localidade alemã a 80 km/h a ver o que lhe acontece (limite 50 km/h). Fora das auto-estradas, há limites para todos os gostos e, acima de tudo, radares em todas as esquinas. E teria o colega paciência para andar a 30 km/h em inúmeras ruas citadinas? E para andar a velocidade de passo (máximo 10 km/h) também numa data de bairros habitacionais, nas chamadas “ruas de brincar” (porque se encoraja as crianças a brincar nas ruas)?

    Nem todos somos ases do volante, é verdade. E depois? As ruas e estradas públicas são para todos. Tem de haver regras. E elas têm de ser cumpridas. Evita acidentes, sim!

    1. Durante mais de 20 anos, pelo menos de 2 em 2 meses, fazia longas viagens de carro com origem em Guimarães e com vários países de destino, incluindo frequentemente a Alemanha, que atravessei muitíssimas vezes em vários sentidos, por ter clientes em sítios onde Judas perdeu as botas. Agora viajo menos e tenho por hábito ir de avião a um sítio qualquer perto do destino, alugando depois um carro. Faço isso até mesmo em Inglaterra (ainda recentemente fiz uma data de kms na região de Manchester), como fiz na Irlanda, Chipre e África do Sul (refiro estes três por serem países em que se circula pela esquerda). No caso da Alemanha isso que referes é tudo verdade, mas não infirma nada do que digo no texto porque não é a mesma coisa ir numa autoestrada axial por onde circulem TIRs que atravessam o país, ou em horas de ponta, e situações normais em autoestradas “normais”, assim como em lado nenhum contemplei o caso de estradas comuns e, menos ainda, localidades. De resto, o assunto careceria de muito mais tempo e espaço para ser adequadamente tratado, e só refiro o caso da Alemanha não por alterar seja o que for (o caso não seria diferente se lá imperasse, como talvez venha a acontecer, um limite genérico) mas porque é um exemplo prático que infirma algumas das tolices securitárias em que as pessoas acreditam. Nem pretendo, porque é impossível, contrariar “verdades” de natureza intuitiva, apenas em casos raros atirar uns grãos de areia para raciocínios que se julgam cartesianos . É aliás provável que, num futuro não muito longínquo mas fora da minha vida, velocidades hoje proibidas venham a ser possíveis por controle electrónico da circulação. Um detalhe (que provavelmente te custará a acreditar, mas verdadeiro): Muitas vezes arranquei de Guimarães às 7 da manhã para jantar em Paris por volta das 10 da noite. Hoje seria impossível, ia preso algures em Espanha. Abraço, Cristina.

    2. Na cidade de Lausanne a partir das 22h é 30 km/h. (certas zonas durante
      o dia é de 50km/h ).
      Os semáforos ficam a piscar laranja e posso dizer-lhe
      que é extremamente difícil e perigoso circular a essa velocidade.
      Quando vou jantar com amigos vamos cedo e eu volto sempre antes das 22h.
      É simplesmente um horror e não estou assim tão certa que essa medida
      evite acidentes ,antes pelo contrário.

  4. Conclusão, a baixa velocidade não há acidentes, logo não há mortes nem feridos.
    Neste sábado o meu carro ao fim de 20 anitos resolveu beijar a trazeira doutro conduzido por africano.
    Seguia na sua rota, não é que subitamente fez uma travagem brusca porque alguém saía do estacionamento!
    O governo é bonzinho, tanto que se preocupa com os 90 milhões de multas no orçamento.

  5. todas as pessoas têm direito , estando em condições físicas , de conduzir,independentemente da idade. é normal que à medida que vai havendo condutores cada vez mais velhos ,com menos reflexos e maior probabilidade de avcs e ataques do género, que os limites de velocidade desçam como já fizeram em França. e não é só a qualidade dos carros que tem de avaliar em questões de velocidade , é também a qualidade das estradas e a personalidade “cultural” dos condutores.
    as penas para condutores que provoquem acidentes por não cumprir regras , havendo mortes , deveriam ser as mesmas dos assassinatos com dolo. um carro é uma arma.
    o que interessa é manter as pessoas em segurança ,as regras têm de ser pensadas tendo em conta o que pode correr mal , não é sempre a abrir.

  6. Os limites de velocidade nas auto estradas, foram impostos no inicio dos anos 70, não por razões de segurança, mas sim por causa da crise energética. Agora tentam passar a mensagem que foram razões de segurança mas é falso. Qualquer pessoa de bom senso percebe que circular numa auto estrada a 160km/h ou a 180 km/h é muito menos perigoso que circular a 90km/h na N1 cheia de cruzamentos, entradas particulares etc. Quando circulamos numa AE larga e com pouco trânsito, sem causar perigo para ninguém, é normal infringir a Lei, porque a Lei é estúpida e cega, não protege nada nem ninguém nesses casos. Por isso, na Alemanha, não existe de velocidade nas auto estradas, sempre que as condições o permitem! Quem já lá andou com alguma frequência, sabe bem que, sempre que o trânsito é muito denso, ou as condições climatéricas adversas, aparece rapidamente nos sinais de aviso, o limite de velocidade adequado. E todos cumprem! Porque a Lei é clara, compreensível e adequada. Por alguma razão, os carros alemães têm tido supremacia tecnológica, elevado índice de segurança activa e passiva. Por cá, a Lei só tem um objectivo e não é a segurança como é óbvio. É roubar mais algum dinheiro aos portugueses através de coimas abusivas cujo fundamento não é outro senão, encher os cofres do Estado à custa dos incautos. Socialismo no seu esplendor na verdade…

  7. É irónico que os nossos governantes andem rotineiramente a 250 porque o carro não dá mais. Presumo que o façam por questões de segurança. Dirão que os carros deles são bons, que os condutores tiveram formação. Se eu tiver um carro bom e formação posso andar a 250?

  8. Socialismo na estrada: sistema político em que o governo toma medidas que visam reduzir a sinistralidade rodoviária, salvando vidas, mas têm o inconveniente de fazer alguns prevaricadores desembolsar alguns euros.

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