A ver vamos


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(fotografia de Luís Abelard)

 

Blogar tem sido para mim, nesta última década, uma espécie de catarse, uma navegação de cabotagem, enfrentando os males meus e fruindo os bens alheios. Nos últimos tempos tenho procurado fazer do bloguismo, um pouco aqui no DO, mais ainda no ma-schamba, um refúgio, de coisas melhores face a horizontes difíceis. Algo que tentei aventar em 13 “futuro” que lá fui metendo. Mas esse “futuro” chegou entretanto, não tão inesperado assim. A situação é muito complicada. Não é tempo, não é espírito para bloguismos. Eu suspendo, voltarei quando desanuviar o país e se me aligeirar aquela alma na qual não creio. Um abraço aos opinadores aqui, que continuem nos seus delitos.

12 comentários em “A ver vamos”

  1. Caro JPT,

    Os meus sinceros desejos que a situação pelas suas bandas se endireite e retome, o mais rapidamente possível, o que parecia ser ainda não há muito uma eventual história (ainda que com alguns contratempos e atropelos) de sucesso no futuro.

  2. Que as coisas melhorem rapidamente, são os meus votos. Para si e para todos os que estão a viver esse pesadelo.

  3. MIA COUTO….
    e a situação de Moçambique
    Intervenção na Gala de STV para atribuição do galardão do “Melhor de Moçambique.

    ” Pensei bastante se estaria ou não presente nesta cerimónia. A razão por essa dúvida era a seguinte: há três dias a minha família foi alvo de várias e insistentes ameaças de morte. Essas ameaças persistem e trouxeram para toda a nossa família um clima de medo e insegurança.

    A intenção foi-se revelando clara, depois de muitos telefonemas anónimos a extorsão em dinheiro. A mesma criminosa ameaça, soubemos depois, já bateu à porta de muitos cidadãos de Maputo.

    Poderíamos pensar que essas intimidações se reproduzem a tal escala que acabam por ser desacreditadas. Mas não é possível desvalorizar este fenómeno . Porque ele sucede num momento em que, na capital do país, pessoas são raptadas a um ritmo que não pára de crescer.
    Esses crimes reforçam um sentimento de desamparo e desprotecção como nunca tivemos nos últimos vinte anos da nossa história.

    Esses que são raptados não são outros, são moçambicanos como qualquer cidadão.
    De cada vez que um moçambicano é raptado é Moçambique inteiro raptado. E de todas as vezes, há parte da nossa casa que deixa de ser nossa e vai ficando nas mãos do crime.
    Neste confronto com forças sem rosto nem nome, todos perdemos confiança em nós mesmos, e Moçambique perde a credibilidade dos outros.

    Este é um fenómeno atinge uma camada socialmente diferenciada do nosso país. Mas o mesmo sentimento de medo percorre hoje, sem excepção, todos os habitantes de Maputo, pobres e ricos, homens e mulheres, velhos e crianças que são vitimas quotidianas de crimes e assaltos.

    Eu falo disto, aqui e agora, porque uma cerimónia destas nos poderia desviar do que é vital, na ´nossa nação.
    Não podemos esquecer que o nosso destino colectivo se decide hoje sobretudo no centro do País, nessa fronteira que separa o diálogo do belicismo. E todos nós queremos defender essa que é a conquista maior depois da independência nacional. A PAZ, a PAZ em todo o país, a PAZ no lar de cada moçambicano.

    Se invoquei a situação que se vive hoje em Maputo é porque outras guerras, mais subtis e silenciosas, podem estar a agredir Moçambique e a roubar-nos a estabilidade e que tanto nos custou a conquistar.

    Caros Amigos,
    Estamos a celebrar nesta gala algo que, certamente, possui intenção positiva de valorizar o nosso país. Mas para usufruirmos o que aqui está a ser exaltado, as melhores praias, os melhores destinos turísticos, precisamos de saber e ver o que nos cerca.
    Na realidade, em rigor, o melhor de Moçambique não pode ser selecionado em concurso.

    O melhor de Moçambique são os moçambicanos de todas as etnias, todas as raças, todas as opções politicas e religiosas. O melhor de Moçambique é a gente trabalhadora anónima que, todos os dias, atravessa a cidade em viaturas transportados em condições que são ofensa à vida e à dignidade humanas.

    O melhor de Moçambique são os camponeses que embalam à pressa os seus haveres para fugirem das balas. O melhor de Moçambique são os que, mesmo não tendo dinheiro, pagam suborno para não serem incomodados por agentes da ordem cuja única autoridade nasce da arrogância.

    O melhor de Moçambique são os que anonimamente constroem a nação moçambicana sem tirar vantagem de serem dum partido, de uma família, de uma farda.

    Os melhores de Moçambique não precisam de grandes discursos para acreditarem num pátria onde se possa viver sem medo, sem guerra, sem mentira e sem ódio. Precisam, sim de acções calaras que eliminem o crime e a corrupção. Porque a par deste galardão que distingue o melhor de Moçambique há um outro galardão, invisível mas permanente, que premeia o pior de Moçambique . Tosos os dias o pior de Moçambique é premiado por impunidade, pela cumplicidade e pelo silencio.

    Caros Amigos,

    Disse no inicio que hesitei em estar presente nesta Gala. Mas pensei que me competia, junto de vocês, a obrigação de construir um evento que fosse para além das luzes mediáticas…”

    Esta celebração só terá sentido se ela for um marco na luta pela afirmação de valores morais e princípios colectivos. Para que as nossa vida seja nossa e não do medo, par que as nossas cidades sejam nossas e não de ladrões…”

    Mia Couto / 25.10.2013

    Peço desculpa pelas eventuais gralhas

  4. Obrigado a todos pela vossa simpática solidariedade. Semana complicada, continuaram os raptos na cidade de maputo (uma colega de turma da minha filha, 7º ano, saíu a meio da tarde das aulas directamente para Luanda com a família, ameaçados telefonicamente), continuaram as escaramuças no norte e centro do país, com alguns mortos e crescente instabilidade. Em Maputo ocorreu a maior manifestação de sempre, sem ser partidária, talvez 15000 (os participantes dizem 30 000) pessoas reclamando paz e segurança. Algum desnorte no país, muita crispação, muita gente também falando naquilo a que eu um dia chamei (tem direitos de autor esta) “primavera de capim”. A macromineira Rio Tinto acaba de evacuar as famílias dos seus expatriados aqui residentes. Daqui a um mês eleições autárquicas, se acontecerem. Difícil

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