A ver o Mundial (5)


Pedro Correia,

Olha-se para a selecção da Coreia do Norte e percebe-se que está ali materializado o sonho igualitário de uma sociedade comunista: o treinador anseia por bons resultados em campo para “satisfazer” o Supremo Líder e a sua polícia política, ninguém se diferencia de ninguém, o equipamento é rigorosamente vermelho e não há cruzamentos étnicos de qualquer espécie. A sociedade perfeita, igualitária, comunista, tal como consta dos manuais da especialidade, não é uma sociedade mestiça, cheia de mulatos, como surge representada na selecção brasileira, que ontem derrotou a da Coreia com notória dificuldade. É uma sociedade etnicamente pura e entrincheirada nas suas certezas, como bem se viu naquele baluarte defensivo que se manteve intransponível durante largas dezenas de minutos: cinco defesas e três médios defensivos comunistas resistiram bem às ofensivas do “capitalismo popular” brasileiro, caracterizado pela iniciativa privada e por lances individuais de indiscutível rasgo mas incapazes de formar um conjunto digno de transpor obstáculos mais temíveis. É certo que o capitalismo derrotou o “socialismo” norte-coreano nesta noite sul-africana em que o frio conseguiu ser notícia, com golos de Maicon (uma obra-prima) e Elano. Mas nada disso compensou a alegria proporcionada ao Grande Líder pelo nº 8 da Coreia do Norte que conseguiu “desfeitear” (é assim que se escreve?) a baliza brasileira. Prova insofismável de que é possível uma alternativa verdadeiramente de esquerda ao capitalismo. Aliás foi precisamente pela esquerda que Ji Yun Nam marcou. Isto anda tudo ligado.

 

Brasil, 2 – Coreia do Norte, 1

2 comentários em “A ver o Mundial (5)”

  1. A seleção coreana é etnicamente pura porque a Coreia do Norte é um país internacionalmente muito isolado, sem imigrantes – mas com bastantes emigrantes, geralmente temporários, na China.

    Também, a Coreia e o Japão são em geral países xenófobos, que rejeitam casamentos interraciais. Repare na política anti-imigração do Japão, por exemplo. Trata-se de um traço caraterístico da sociedade coreana, e da japonesa, ao contrário do povo chinês, que é muito aberto ao estrangeiro.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *