Participar desta forma, tão simples, no destino de um país parece uma ideia pueril. Concretizá-la numa ilha com pouco mais de 300 mil habitantes prova que afinal é exequível, pelo menos numa ilha com pouco mais de 300 mil habitantes. Dir-me-ão que no caso da Islândia, o tamanho conta. E eu pergunto-me se tal como nas questões de alcova não estará o seu sucesso na dependência de factores que não se medem aos palmos.
O presidente islandês Ólafur Grimsson, responsável pelo referendo que em 2010 determinou que os contribuintes não pagariam as dívidas do banco privado Landsbanki, quando tomou essa iniciativa estava isolado. Os governos europeus, as instituições financeiras e até parte do governo e parlamento islandeses estiveram contra esse referendo, mas bateu-se por ele porque entendia que “é errado pensar que teremos um melhor futuro para a Europa dando prevalência aos mercados financeiros à custa da vontade democrática das pessoas”. Grimsson, não quis apoiar um sistema em que, “se tiverem sucesso os banqueiros recebem enormes bónus e os seus accionistas recebem o lucro, mas se falharem a conta será entregue aos contribuintes”. Quantos líderes europeus teriam, nas mesmíssimas circunstâncias, idêntica atitude?
A realidade veio dar-lhe razão. Em três anos a Islândia passou da bancarrota ao crescimento económico. Que seria da terra do gelo se Grimsson se tivesse derretido perante tantas e tão fortes pressões? O argumento do tamanho é um pau de dois bicos. Serve para defender tudo e o seu contrário. Em Portugal usa-se para realçar a nossa vulnerabilidade e justificar as dificuldades em defender os nossos interesses no exterior.


A diferença é que eles lá têm o Grimsson – literalmente, o filho do Grim (http://dictionary.reference.com/browse/g rim) – e nós por cá temos estes níveo-cesáreos doutores/comentadores: emplate=SHOWNEWS_V2&id=585527
http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?t
As pessoas esquecem-se que os países escandinavos têm por base, historicamente, uma estrutura social diferente da dos países do sul e que por isso as suas sociedades têm uma dinâmica política bastante diferente e eficaz. O fosso socio-económico entre pessoas nunca foi muito grande porque na origem estavam organizados em tribos e clãs, famílias alargadas. No sul, sempre houve de um lado as elites (os nobres e a padralhada) e os pobres. Daí a necessidade das Repúblicas nos países do Sul, quase todas falhadas porque velhas manias custam a morrer.
É utopia porque apresenta uma alternativa. É utopia porque nos mostra, a quem quiser ver, que basta pensar (pensar!), para ter uma alternativa a este desgraçado plano de empobrecimento a que estamos sujeitos.
É utopia porque prova, e não me venham com tamanhos!, que é possível ter outra saída para uma crise que quem paga nada fez para ela acontecer. Os políticos são-no, não apenas pelos cargos que ocupam, os políticos são-no na sua verdadeira acepção pelos actos que praticam. Este período em Portugal e na Europa vai ser lembrado pelos fracos representantes que elegemos para nos governar, vai ser lembrado pelos cobardes que não sabem, não querem, não conseguem arriscar, levantar a voz e defender os seus cidadãos. Tenho vergonha, dá-me asco, pertencer a uma geração que é responsável por fazer desaparecer a classe média, a base de uma democracia, por troca com o aumento da assimetria entre pobres e ricos. Não há democracia que resista a tanto.
1- O Problema Português não são os Bancos.
2- Os Islandeses se o fizeram, fizeram muito bem em não pagar os Bancos, é o que é supostos acontecer no capitalismo. empresas falirem quando são mal geridas.
3- Mas a Islandia como consequência ficou muito mais pobre. Pois os depósitos perderam-se, o valor dos bancos desapareceu.
“passou da bancarrota ao crescimento económico.”
Nesta altura Bastiat e a falácia da janela partida já deveria ser conhecida.
A Europa destruída pela Segunda Guerra também começou a crescer.
Se amanhã um terramoto destruir metade das casas dos portugueses também cresceremos muito logo a seguir.
Mas esqueceu-se do valor da recessão de um minuto e muitos milhares de milhões de euros que é o terramoto.
O que interessa é se e quando a Islândia vai regressar à riqueza que só tinha devido aos altos riscos que bancos incorreram.
E como.
Tal como Portugal.
Iremos regressar à riqueza que só tinhamos devido défice record, ou seja constante endividamento, que aliás continua só a um nível mais baixo?
Tudo indica que não. A Constituição não permite outra coisa a não ser mais Estado.
Tem razão, Lucky. Quando se bate no fundo só se pode recuperar a seguir. A questão é que no caso da Islândia a recuperação foi considerada notável.
Para chegar aonde está agora, a Islândia e os islandeses passaram por muito: tres anos de recessão de 11%, e praticamente metade dos islandeses passaram pelo desemprego. Nós, estando mal, ainda não chegàmos aí!
É claro que para muitos portugueses, principalmente da esquerda, o melhor do sucesso islandês é o “não pagamos”. Mas essa história está muito mal contada, porque eles nunca recusaram pagar as dividas do estado, e agora já estão a pagar aos bancos holandeses e ingleses, cuja divida, que foi contraída pelos bancos islandeses, o governo em determinada altura disse que não pagava.
Mas, pelo menos para mim, o melhor da saga islandesa, é o facto de estarem a rever a Constituição à revelia dos partidos politicos; o PR nomeou uma comissão de experts para o efeito, e depois os islandeses irão referendá-la, coisa que nunca aconteceu em Portugal. Toda a gente que têm mais de 50, sabe bem como e em que clima é que a nossa sempre tão invocada Constituição da Républica Portuguesa, foi feita!
A verdade, Alexandre, é que até o FMI acabou a elogiar o modelo de resgate islandês – economia.publico.pt/Noticia/para-o-fmi-o-r esgate-ao-estilo-islandes-e-uma-licao-a-r eter-em-tempos-de-crise-1559284.
Acabaram a pagar as dívidas, mas de acordo com as regras que estabeleceram e não compulsivamente.
Meu caro Alexandre Carvalho da Silveira
A última vez que em Portugal uma constituição foi elaborada à revelia dos partidos, e aprovada em referendo, foi em 1933. Essa constituição deu origem ao Estado Novo. Claro que é preciso ter muito mais do que 50 anos ou conhecer a história de Portugal para saber isso. Os referendos são muito democráticos quando as pessoas estão informadas, e muito perigosos quando não há informação ou ela é deliberadamente distorcida.
Vale a pna notar que os islandeses recusaram-se a pagar pela falência dos seus bancos, mas outros fizeram-no por eles: os Estados inglês e holandês.
Se não fosse isso, a falência dos bancos islandeses teria sido muito mais dolorosa para aqueles que lá depositaram o seu dinheiro.
Monsieur de La Palisse diria que há um pormenor fundamental, mas que nos escapa – a Islândia é , pasme-se !, habitada por islandeses..
P.S. ( vade retro!) Como isto anda tudo ligado, recordemos a choraminguice, epistolar e não só, dos bem-aventurados jovens enfermeiros/as que tiveram o “azar” de arranjar colocação em Inglaterra…
Quantos islandeses …emigraram?
Qual é o crescimento do PNB real da Islândia?
Anda tudo à espera de encontrar um … sítio milagroso. Os humanos alucinam quando “recuam”…
Ninguém disse que foi com um estalar de dedos que os islandeses saíram da bancarrota, mas a verdade é que decidiram com coragem agir contra a corrente, ignorando os prognósticos catastrofistas – que já apontavam a Islândia como a Cuba do Norte caso não seguissem os ditames da Europa e da finança – e estão a ser bem sucedidos, ninguém o nega. É um caso que merece a nossa reflexão.