À última da hora


Ana Vidal,

 

Sempre me fez urticária aquele riso escarninho, trocista, de quem julga ter o mundo aos pés. Não exagero: as pretensões políticas dele foram, em tempos, de uma megalomania tal que roçava o ridículo, e sem que alguma vez se tenha apercebido (era egótico de mais para sequer imaginá-lo), era gozado por toda a gente por causa disso. Enfim, fraquezas só perdoáveis a quem tenha qualidades que as suplantem. Mas não era o caso. Foi toda a vida um marido e um pai déspota, intratável, que humilhava em público os filhos com exigências e exibições de autoridade absolutamente descabidas e expunha a mulher (que era muito bonita, por sinal) como um troféu de sua exclusiva propriedade, merecidamente ganho numa qualquer mesa de jogo. Porque era um jogador inveterado, também. E dos que têm mau perder. Lembro-me bem de assistir a exibições deploráveis do seu proverbial mau feitio, sempre que o jogo não lhe corria de feição.

 

A vida não o poupou, é verdade: primeiro, a revolução de Abril atirou-o para uma insustentável prateleira na empresa em que trabalhava, onde contava chegar longe devido ao nome que lhe coroava o cartão-de-visita. Não por mérito próprio, que nunca o teve. Mas nunca se recompôs dessa “injustiça”, nem tanto orgulho ferido alguma vez o levou a tentar provar o seu valor de outra qualquer maneira. Ficou enclausurado num ódio primário, irracional, que remoeu o resto da vida numa espécie de vingança cega, aplicada a eito em todos os que lhe estavam mais próximos. Depois, muito mais grave do que a humilhação profissional, a vida familiar foi cruelmente atravessada por uma tragédia arrasadora. Nessa altura toda a gente teve pena dele. Mas nem assim se tornou mais humilde ou aprendeu alguma coisa de útil com esse terrível acontecimento. Pelo contrário, dir-se-ia que o desgosto refinou tudo o que ele tinha de pior, e o azedume começou a corroê-lo por dentro, por inteiro, como um ácido letal.

 

Eu já não o via há alguns anos, felizmente. Encontrei-o um dia, por acaso, na Bertrand do Chiado. Ainda tentei disfarçar, mas foi inútil: ele tinha qualquer coisa para ensinar-me, como sempre, porque veio lá do fundo para me falar, num gesto magnânimo sublinhado pelo insuportável sorriso de superioridade. Estava com um amigo mais novo que, percebi logo, o bajulava. Enorme erro, pensei. Apresentou-nos e trocámos algumas palavras de circunstância. Quis ver o que eu estava a comprar e preparava-se para dissertar sobre a minha escolha quando eu lhe disse que estava cheia de pressa porque estava de partida para férias e tinha passado por ali, à última da hora, para comprar aquele livro que me fazia falta para as minhas pesquisas.

 

E pronto, eu acabara de dar-lhe o mote para uma aula de português correcto. O tal amigo tinha-se afastado para o fundo da livraria e não nos ouvia, mas havia por ali clientes suficientes para compor uma plateia que lhe parecesse valer a pena. Rasgou um sorriso sardónico e disparou, bem alto para conseguir o máximo efeito: “Não sabes que não se diz à última da hora, mas sim à última hora? E és tu uma pessoa que vive da escrita?! Francamente, menina!!”.

 

Tenho de abrir aqui um parêntesis, para explicar que teria aceite a correcção de bom grado se ela tivesse partido de qualquer outra pessoa. Não tenho nenhuma pretensão de escrever ou falar um português sem falhas, e todos os dias aprendo alguma coisa sobre a minha língua que não sabia antes. Mas aquilo irritou-me. Aquela criatura tinha sempre de dar lições a toda a gente, sobre todos os temas. Apanhou-me numa falta, não tão grave que justificasse todo aquele chinfrim, e aproveitou logo para fazer o seu brilharete. Subiu-me a mostarda ao nariz, às vezes também tenho mau feitio. Olhei-o nos olhos e fiz o meu sorriso mais cândido, para ganhar tempo. E depois, quase sem pensar, saiu-me isto, enquanto compunha um ar blasé: “Engana-se. Diz-se à última da hora e a expressão significa à última badalada da hora. Vem do tempo dos antigos relógios de sala, que cantavam as badaladas, e quer dizer que o tempo está a esgotar-se. Olhe, é o meu caso, peço desculpa mas tenho mesmo de me ir embora.”

 

Deixei-o plantado, sem lhe dar oportunidade de resposta. Sou mazinha: aquilo fez-me ganhar o dia. Ainda vi, por cima do ombro, o amigo aproximar-se dele e fazer-me um adeus com a mão. E seria capaz de jurar que foi aquele desgraçado quem pagou as favas pelo meu atrevimento. Pelo menos não deve ter-se livrado de ouvir uma lição acabadinha de aprender e totalmente falsa: “Sabes qual é a origem da expressão À última da hora?”…

19 comentários em “À última da hora”

    1. Obrigada pela dica do Ciberdúvidas, que também consulto muitas vezes. A explicação que dei ao senhor da história foi inventada naquele momento, mas também acho que o uso continuado de uma incorrecção (desde que não seja grave, como é o caso) acaba por fazer a norma, com o tempo. E não há grande mal nisso. 🙂

    1. Obrigada, José Catarino. A verdade é que se aprende sempre qualquer coisa sempre, nem que seja só um teste à capacidade de improviso e à imaginação. Mas eu sei que se tivesse ficado lá a coisa não teria acabado assim, ele não reagia bem aos atrevimentos. Muito menos de mulheres, e mais novas. Enfim.

  1. Escreveu que “a revolução de Abril atirou-o para uma insustentável prateleira na empresa em que trabalhava, onde contava chegar longe devido ao nome que lhe coroava o cartão-de-visita. Não por mérito próprio, que nunca teve.”
    Mas isso foi nos primeiríssimos tempos, por que, logo a seguir (e agora), os apelidos constantes do cartão-de-visita (e do BI) estão com cotação elevada. Infelizmente, digo eu.

    1. Acho que no fundo sempre foi e sempre será assim, e ainda mais nos países latinos. Infelizmente, digo eu também.
      Apesar de tudo, se a entrada é facilitada pelo nome ou pelos conhecimentos, a responsabilidade de provar o que se vale é maior ainda, ou pelo menos devia ser…

  2. A irritação nem sempre é má conselheira. Às vezes concentra a mente e aguça a língua de uma forma extraordinária!

  3. “Última hora” e “última da hora” não me parecem referir-se sempre à mesma ideia (e já vi que a sua justificação deste texto, passados cinco anos, até ganhou adeptos!).

    A descrição do personagem parece inscrever-se bem num conto de Dickens. Ou seja, há muito que essas partículas foram previstas pela teoria, e são muito detectadas em meios propícios ao seu desenvolvimento. Esse meio precisa delas, e elas vivem desse meio… um bocadinho como as moscas!

    Há um ponto importante sobre os “erros”, e lembro a questão da “quadratura do círculo”.
    Durante dois milénios, a obsessão da Geometria, sagrada ou consagrada, de “esquadro e compasso”, procurou esse ponto G, pelo “rigor”.
    Durante dois milénios baniram-se as aproximações, por estarem contaminadas de profanos “erros”…
    Porém, dois mil anos depois, aceitando e trabalhando com esses “erros”, dois séculos bastaram para concluir rigorosamente a impossibilidade.
    Ainda hoje não se concebe outra maneira de o provar.

    No entanto, os perfeccionistas continuam por aí, como críticos de serviço, está claro… porque justificam a sua inútil postura apontando as imperfeições alheias.
    Porque não aceitar erros não torna ninguém mais perfeito, torna apenas o seu juízo menos humano… entrando em contradição com a própria natureza do seu pensamento.

    Dou um outro exemplo linguístico engraçado – “há-des”.
    Impôs-se “hás-de” em vez do popular “há-des”, excepção que atravessou gerações, por incógnitas razões… quem sabe, se Hera ou não era do Hades?
    Desse “haver”, só ficou o “a ver”… navios!

    Aí onde foram os defensores da evolução na tradição fonética? Ficaram aquartelados em regras gramaticais ou numa qualquer etimologia?
    – Foram no “ir” da cantiga do Romance latino, não foram de “ser”.

    1. Sempre excelentes os seus comentários, Da Maia. Mas confesso – mea culpa, mea massima irritação – que o único deus que me vem ao pensamento quando ouço “há-des” é Marte, o da guerra. O que não impede que lhe dê razão, até porque a fonética neste caso favorece o erro, é mais fácil dizer assim do que correctamente.

  4. Ui, que irritação, conheço o estilo. Pobre diabo… digamos assim 🙂
    Foi muito bem achada a tua resposta mas parece-me que o indivíduo nem tinha razão, porque. primeiro, a oralidade permite a adopção de formas menos rigorosas de expressão. E depois, alguns desvios ao figurino configuram os chamados “enfatismos” e não são exactamente um erro. É o caso do “há dias atrás”…
    😉

  5. Aninha, estive por aqui cogitando e cheguei à seguinte conclusão: à última badalada o gajo parece-se com um badalo sem freio.
    Vão muito bem esgalhadas essas palavritas.

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