Depois de Mário Soares, apenas José Sócrates conseguiu atingir o estatuto de líder incontestado do PS. Efectivamente, a sombra de Mário Soares pairou sempre sobre todos os outros líderes do PS. Constâncio demitiu-se, acusando Mário Soares de interferência na sua liderança. Depois Soares apoiou a ascensão de Guterres contra Jorge Sampaio, para logo a seguir patrocinar um Congresso “Portugal, que futuro?”, destinado a demonstrar que era melhor líder da oposição que Guterres. Quando Guterres chegou a Primeiro-Ministro, Mário Soares chegou ao ponto de declarar estar contra a regionalização no referendo patrocinado por Guterres.
Já José Sócrates chegou ao poder apoiado numa forte maioria absoluta, o que lhe deu uma legitimidade própria, que pela primeira vez permitia a um líder do PS sair da sombra de Soares. José Sócrates, porém, nunca afrontou Soares, tendo inclusivamente aceite apoiar uma sua recandidatura à presidência, aos 81 anos, quando era evidente que não tinha quaisquer condições de derrotar Cavaco Silva. É por isso normalíssimo que Soares tenha ido espontaneamente a Évora visitar Sócrates, o que só demonstra elevação de carácter. Soares nunca deixa cair os seus amigos, tendo mesmo, quando era Presidente da República, visitado Bettino Craxi no seu exílio na Tunísia em fuga às condenações da justiça italiana. Outros políticos podem preocupar-se com a sua imagem pessoal ou com as conveniências partidárias. Soares não se move por esses critérios.
Curiosamente Sócrates acabou por deixar sobre o PS uma sombra semelhante à de Soares. António José Seguro era opositor declarado de Sócrates e bem lutou contra a sua influência no partido, mas os apoiantes de Sócrates acusaram-no sistematicamente de pôr em causa o legado do seu querido líder. Apesar dos insistentes pedidos destes, António Costa recusou-se sistematicamente a avançar, até ao momento em que percebeu, na noite das europeias, que António José Seguro já tinha conseguido consolidar a recuperação do PS e iria ser o próximo Primeiro-Ministro, o que quebraria definitivamente a influência de Sócrates. António Costa minimizou por isso a vitória eleitoral, dizendo que lhe “sabia a pouco” em comparação com os resultados conseguidos por Sócrates. Bastou essa declaração para que o PS lhe caísse nos braços, saudoso dos tempos gloriosos do anterior líder. Eduardo Ferro Rodrigues proclamou logo no Parlamento que o legado de Sócrates voltava a ser respeitado no partido.
É por isso que, Independentemente da presunção de inocência do visado, a detenção de José Sócrates é politicamente mortífera para o PS. Quando tinha acabado de proclamar o retorno ao legado de Sócrates, a última coisa de que este partido precisava era de ser confrontado com acusações de corrupção no governo cujas qualidades não cessava de louvar. Precisamente por isso vários militantes começaram mais uma vez a enveredar por teses da cabala, levando a que António Costa tivesse que comandar as hostes, ordenando a todos os militantes que se afastassem de Sócrates para preservar o PS da situação que o envolvia.
Só que se assistiu imediatamente a uma revolta em directo protagonizada por Mário Soares. Este foi imediatamente visitar Sócrates à prisão e proclamou do alto dos seus jubilosos 90 anos que “todo o PS está contra esta bandalheira“. António Costa sentiu claramente o desafio, assim como antes dele já tinham sentido Constâncio, Sampaio e Guterres, mas permaneceu mudo e quedo perante este ataque de Mário Soares que poderia incendiar o PS contra ele próprio.
Curiosamente, quem sentiu necessidade de reagir em auxílio de António Costa foi o próprio Sócrates. Num inédito comunicado, proferido ao início da noite, proclamou: “Este processo é comigo e só comigo. Qualquer envolvimento do Partido Socialista só me prejudicaria, prejudicaria o Partido e prejudicaria a Democracia“.
O que se passou ontem revela assim que não só António Costa não escapa à sombra de Soares, ao contrário do que sucedia com Sócrates, como também que, mesmo a partir da prisão, a sombra de Sócrates paira igualmente sobre a sua liderança. Uma verdadeira tragédia para o PS na altura em que tudo apontava para uma ascensão imparável em direcção ao poder. António José Seguro é que se deve estar a rir.

Não há nenhumas “acusações de corrupção no governo”.
Aliás: não há ainda quaisquer acusações. Há, alegadamente, suspeitas (que não são acusações) de corrupção, mas nada foi divulgado sobre quem é o corruptor, quem é o corrompido, nem em que ocasião terá havido corrupção.
Sendo a justiça portuguesa aquilo que é, frequentemente incapaz de materializar as suas alegadas suspeitas em acusações sustentadas, não comvem já transformar as alegações em acusações.
Como é que é possivel o 1º ministro poder ser acusado de corrupção sem que essa acusação se estenda pelo menos a uma parte do governo? a ex ministra da Educação já foi condenada a pena de prisão com pena suspensa.
O resto é atirar areia aos olhos das pessoas.
Nota: a lista de reservas no “Fialho” está esgotada por longas semanas nos dias de visita na prisão de Evora.
O (antigo) primeiro-ministro foi de facto acusado de corrupção, mas aparentemente ninguém (incluindo o próprio acusado e o seu advogado) sabe em que se baseia tal acusação. Até mais ver, não passa de uma acusação gratuita. Não sabemos em que consistiu a corrupção, quem corrompeu, quem foi corrompido, etc. Portanto, não podemos deitar-nos a presumir nada sobre alguém no governo ter sido corrompido.
Até ver, não passa de uma acusação infundada. O que, aliás, é muito grave: a justiça portuguesa lançar a público uma acusação sobre um cidadão, sem que nem o próprio cidadão nem o seu advogado saibam em que se baseia tal acusação.
Será? Não será o anúncio da morte de Sócrates e do PS um pouco precipitado?
Afinal o circo é outro com montagem apressada. Em pânico não vá o desenrolar do novelo apanhar mais peixe na meada. Partido dorido, Soares calcanhares, Seguro escuro, Sócrates potes, Costa arrosta.
Aqui está uma análise com cabeça tronco e membros. Eu acrescentaria que Seguro nunca quis viver à sombra de Soares. E foi corajoso quer nesta posição quer na posição que tomou ao enfrentar Sócrates.
Eu sempre disse e mantenho, não era Sócrates que era forte era e é o PS que o apoiou fraco.
Seguro, como sempre afirmei, surpreenderia pela positiva; e tanto surpreendeu que o que se passou com o seu afastamento assemelha-se a um golpe de estado.
Costa não tem projecto, só tem imagem. O mesmo se passa agora com o PS, quer dar uma imagem de coesão para fingir que tem um projecto.
Está aberta a porta ao regresso de Seguro.
PSD/CDS têm-se desunhado para mostrar obra, nem que para isso recorram a pseudo-descidas do desemprego e de recuperação económica.
Isto está tão bom que ontem trocaram divida no valor de 1.75mm€, é a recuperação empurrando com a barriga;
O desemprego a baixar com a emigração, a dita Vida Activa, que coloca pessoas a trabalhar em condições de exploração em nome de ajudar à empregabilidade, os estágios profissionais, a precaridade de emprego sazonal e etc e tal, são sólidos argumentos da sanidade da economia na boca destes propagandistas;
O défice e a divida efectivamente aumentam, mas o défice está encapotado por uma colecta de impostos que eles dizem agora ser eficiência fiscal e não aumento da carga fiscal;
A economia está de tal forma a recuperar que os créditos fiscais são subsídios encapotados que em nada contribuem para a empregabilidade e para o investimento de raiz.
E tudo isto apresenta-se para o PS de Costa uma espécie de esboço para construir um livro lá pela Primavera.
Volta Seguro, funda tu também um novo partido! Está provado que em Portugal só se nasce depois de tudo arruinado.
“… Já José Sócrates chegou ao poder apoiado numa forte maioria absoluta, o que lhe deu uma legitimidade própria,…”. Sim. “Legitimidade própria”.
José Sócrates (ou qualquer outro PM) que tenha maioria absoluta como candidato ao cargo de Primeiro Ministro no presente sistema eleitoral, terá uma “legitimidade própria” sim, no seu partido e no universo dos seus eleitores.
Mas como candidato não tendo nunca previamente exercido o cargo de PM tratou-se, tratar-se á sempre, para o universo eleitoral nacional de um voto “no escuro”.
No caso vertente a maioria, a “legitimidade própria” (com a abstenção de cerca de 1/2 do eleitorado) resultou de 1/4 dos votos escrutinados, sendo que 1/5 até votou expressamente contra o candidato. Votos, todos, baseados em “fezadas”.
Já na re-eleição, então já julgável pelo que realizou como PM, não teve a nível nacional a (meritória) “legitimidade própria”. Paciência.
Ora aqui está uma excelente análise. Parabéns ao seu autor.
Divergindo algumas vezes das suas posições, venho hoje apoiar e subscrever, se me permite, esta sua análise. Precisaria apenas o seguinte: disse o senhor, e muito bem, que a ida do Dr. Mário Soares a Évora, a visitar um amigo (?), “demonstra elevação de carácter”, mas eu todavia acrescentaria que, face ao que ele ali disse à comunicação social, não é possível, a meu ver, outra definição que não a de que estamos na presença de uma pessoa de mau carácter.
O Socrates ou era preso até as eleições ou depois no consulado do Costa já não o seria? Nunca se deixa cair os amigos era a pratica real da anterior( e futura?) cúpula do procurador, supremo e investigação.