A tradição é uma língua


Ana Cláudia Vicente,

[Reprodução de postal do início do séc. XX (Museu de Brezno – Eslováquia) , encontrada no slovak.com, onde se lê: «Feliz Páscoa!»]

 

…mais ou menos estranha: na maior parte das vezes sentimo-nos à-vontade com ela, parece-nos próxima, falamo-la sem pensar muito; noutras nem por isso, e então estudamo-la, medindo bem o que queremos transmitir. E claro, lá chega o dia em que topamos com uma expressão  que nos soa familiar mas foge mesmo ao nosso entendimento. Ocorreu-me isto entre a indignação e o riso, depois de ouvir contar um costume eslovaco em aparente (e pouco surpreendente) declínio. A coisa é simples: segundo a tradição, na manhã seguinte ao domingo de Páscoa os rapazes têm licença para atirar água e bater com ramos de salgueiro nas raparigas da sua terra; em  resposta, estas devem retribuir as investidas com…docinhos e bebidas espirituosas.

Ora bem. Por que ponta é que a gente pega nisto sem acabar num libelo antipatriarcal mal cosido? Também não sei. Mas não me parece que a violência (que está lá, não há que ignorar nem relevar) seja o fundamento ou o fim destes hábitos meio pagãos, meio cristãos. É inevitável a comparação com o produto nacional, que acaba por levar vantagem: as chocalhadas dos nossos caretos de Podence sempre têm melhor justificação («É Carnaval, ninguém leva a mal!» é mais convincente que «Aleluia, toma lá com um balde de água fria!», convenhamos) e não provocam pneumonias nem dão despesa às solteiras que lhes saem ao caminho. Suponho que o denominador comum destas brincadeiras brutas, esse, não oferece luta: à chegada da Primavera, em Bragança como em Brezno, rapazes e raparigas de há muito que vêm arranjando  pretexto para o jogo da apanhada.

3 comentários em “A tradição é uma língua”

  1. Não conheço a origem dessas práticas, mas devem ter-se iniciado em tempos de grande repressão “do corpol” digamos assim! Então, toca a arranjar pretextos mesmo que hoje nos pareçam completamente desajeitados!

    :)))

  2. Ao que pude apurar, mdsol, são práticas com uns valentes séculos em cima (em ambos os casos os seus continuadores reclamam que elas remontam à Antiguidade Tardia), nascidas em contexto agrário; e digamos que apesar de o convívio entre os dois géneros ser habitual (não falamos de sociedades que recolhiam as suas mulheres em casa, dada o seu papel na economia familiar), ele era de facto cingido a coreografias bastante supervisionadas, sobretudo na fase púbere. Daí a ânsia pelo destempero, pelo menos uma vez por ano, supõe-se 🙂

    Pedro, apesar de a minha contribuição andar um bocado magra, vou passando por cá com frequência para vos ler a todos; abraço

    Feliz Páscoa!

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