A tontice do (des)acordo


Pedro Correia,

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Ontem a selecção nacional jogou contra a do Egipto em Zurique – vitória por 2-1, com dois golos do inevitável Cristiano Ronaldo.

Mas não é de futebol que aqui venho hoje falar-vos: é da nossa tão maltratada língua. De imediato pelo menos dois terços das edições digitais dos jornais que restam se apressaram a escrever “Egito”, em obediência ao (des)acordo ortográfico de 1990.

Estipula a pauta acordística que a ortografia deve submeter-se aos ditames da fonética em geral e da “pronúncia culta” em particular – algo que nenhum académico foi até hoje capaz de nos explicar o que significa, com o rigor científico indispensável a quem queira transformar simples bitaites de café em normas com valor legal.

Acontece que sempre escutei pessoas cultas, ao meu redor, pronunciar a palavra Egipto assim mesmo, com o p bem articulado – ressalvando compreensíveis excepções de alguém com deficiências no aparelho vocal. Refiro-me a portugueses, pois os brasileiros falam “de fato” à sua maneira.

Ao fazerem cair o p de Egipto, estes jornais digitais cá do burgo abdicam da secular norma portuguesa, fazem tábua rasa da tal “pronúncia culta” que invocam para outros fins e separam irremediavelmente famílias lexicais, passando a si próprios verdadeiros atestados de analfabetismo funcional. Pois continuam a escrever egípcio, egiptologia e egiptólogo.

Se tantos outros exemplos não houvesse a confirmar a tontice do (des)acordo ortográfico, este bastaria.

27 comentários em “A tontice do (des)acordo”

    1. Uma dessas luminárias, fervorosa acordista, imaginou este título: “Para para pensar”.
      Depois parou mesmo. E ainda lá está, parada, sem perceber o que aquilo significa.

  1. so·li·dão
    (latim solitudo, -inis)
    substantivo feminino
    1. Estado do que está só.

    2. Lugar solitário. = RETIRO

    3. Isolamento.

    4. Lugar despovoado. = ERMO

    “solidão”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/solid%C3%A3o [consultado em 24-03-2018].

    Pensando com Al Berto:

    Solidão – um oceano de dias lentíssimos e sem ninguém.

  2. É na verdade mais que uma tontice. Tontice é coisa palerma e de pouca monta na palermice e na importância dela. Ora um acordo ortográfico é de outra ordem. Mas vai ao parlamento e os partidos, com a honrosa excepção do PCP, apoiam-no. É um desrespeito para com a língua portuguesa. Mas nas escolas já se ensina e pratica…

    1. Quase nenhum político e praticamente nenhum escritor sai em defesa deste produto contrafeito, Dulce. Se houvesse uma ASAE para a ortografia, o (des)acordo de 1990 estava há muito retirado de circulação por danificar seriamente a nossa cultura.

  3. Interessante como as definições técnicas de conceitos ,embora compreensíveis, não despoletam no leitor qualquer emoção.

    Ex: Pobreza

    Estado ou qualidade de pobre.

    2. Falta do necessário à vida; escassez, indigência, penúria.

    3. A classe dos pobres.

    4. Pequeno número, pouca abundância.

    “pobreza”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/pobreza [consultado em 24-03-2018].

    Não se sente nada. Deixa-nos indiferentes.

    Mas agora usando outra técnica de definição do mesmo conceito :

    https://youtu.be/90ZL9Zj8P9M

    A tecnocracia, a racionalidade da realidade, desligada da emoção, produz monstros. A edição tecnológica da vida, trunfo da razão, tem sido pródiga em monstruosidade. Faltam-nos os poetas. Basta de acções. Urgem as promessas.

    1. Se não Sentirmos o mal, por muito que o recitemos de cor, estamos perdidos.

      Outro exemplo:

      Leiamos a definição cientifica de floresta. A seguir caminhemos por uma adentro. Notam a grande diferença?

    2. Oh Vlad , juro, juro que tento mesmo compreender a desambiguação, mas há temas em que por muito que me esforce não consigo fazer bater ( ou sequer aflorar) a bolota com a perdigota.
      Erro meu, seguramente.

      1. “Apesar das melhorias, Portugal continua entre os mais desiguais. E mantém-se nos 11% a taxa de trabalhadores pobres”

        Dulce conhece a D. Maria Alice, que leva para casa 280€, tendo descontado, assim lho disseram, durante 38 anos? Que foi operada aos joelhos e agora se queixa da coluna. Cozinha num casebre e dorme num outro. E o marido, Sr. Emídio. Que sofre de arritmia e quando pressente uma a aproximar-se dobra-se sobre o volante do trator pedindo a Deus que o não leve, ainda. Porquê me pergunto?

        Aquele casal que vive numa enorme Quinta,em ruínas, porque quem a herdou nem por coisas nem por gente nunca se interessou.

        A D. Maria e o Sr. Emídio que bebem água do poço? Se não os conhece, nunca poderá entender.

        1. Não conheço o Sr. Emídio nem a D. Maria Alice, que têm uma casa velhota e um tractor e uma pensão, provavelmente da Casa do Povo, como os meus sogros, que trabalharam a vida toda de sol a sol e viveram frugalmente.
          Conheço casos bem mais graves. Em alguns casos em posso ajudar, pago as contas da farmâcia, por exemplo.
          Os meus sogros não sabiam nada sobrebo acordo ortigráfico e o desfuncionalismo arcordês, e se soubessem , garanto que não incluiriam o tema num debate sobre pensões e sobrevivência, porque seria idiota demais.
          Isso é um desvio de projecção psicológica , distorcer ou mudar a realidade dos assuntos para algo que lhe interessa e desvia a linha do pensamento da questão original.
          Nisso o querido Vlad é um mestre .
          Beijinhos e bom Domingo.

          1. Não tem nada a ver com isso. Necessitando por vezes de escrever , de desabafar, tomo a liberdade, que o Pedro dá, de aqui o fazer – em nenhuns outros posts o faço. Sou preguiçoso demais para escrever sozinho.

            Não desviei conversa pois fazia um solilóquio. A sua resposta, para quem, como eu , estava perturbado com um acumular de vivências – tenho idade pelo que já vi de ter o dobro dos anos que tenho- foi estúpida.

            Quanto ao que faço por outros prefiro mantê -lo para mim.

          2. Olhe Vlad, você “estava perturbado com um acumular de vivências” e a minha rspesposta foi … estúpida…
            A minha mãe faleceu de repente e fui eu quem a enctrou há uns dias… desculpe perturbar o seu solilóquio desenquadrado nos temas dos posts que tento inegrar com a cabeça que não tenho, no meu esforço diário para recuperar a normalidade, sem narcisismos idiológicos egoíttas.
            Soliloquie para aí e passe bem.
            Uma pessoa do seu nível tem a obrigação de se abster de parvoíces.

          3. Lamento Dulce. Aconteceu o mesmo com a minha mãe.

            Os meus sinceros pêsames

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