Preparo-me para iniciar a leitura de um romance de John Le Carré que não conheço: O Gerente da Noite. Penso, antes de abrir o livro: nas primeiras linhas, o autor vai situar-nos num local concreto – um país, uma cidade.
Começo a ler. Página inicial, terceira linha: já estamos em Zurique, no hotel Meister Palace.
Estas pequenas previsões serão tão mais bem sucedidas quanto maior for a nossa experiência enquanto leitores.
Sendo Le Carré um escritor que leio há 30 anos, tenho a obrigação de conhecer algumas das suas características fundamentais. Uma delas – na linha de outros autores que muito aprecio – é fazer da topologia um ingrediente essencial dos seus romances.
Nas obras deste escritor o cenário é sempre determinante: tem clara influência no perfil das personagens, moldando-lhes as características, e no desenrolar das situações. Seja em Berlim, em Hamburgo, em Hong Kong, no Panamá, na Cornualha ou no continente africano, sabemos de antemão onde situar as cenas. E quanto mais cedo melhor.
Diz-me onde estás, dir-te-ei que riscos corres ou farás correr, que luzes e sombras se atravessarão no teu caminho.
Há muitas maneiras de escrever romances. Esta é uma delas. No princípio era o topos: toda a abstracção geográfica sucumbe ao claro enunciado desta terceira linha.


Nunca li nada do John Le Carré, falta-me ler tanto… Ainda sofro daquela angústia, própria da juventude, em que uma vida não chega para ler todos os livros, ver todos os filmes, fazer todas as viagens, e mesclar estes desejos com objectivos profissionais e pessoais mais profundos. Mas vi o filme “O Fiel Jardineiro”, cujo argumento se baseia no livro de John Le Carré com o mesmo título. Já vi o filme duas vezes e continuo a maravilhar-me com cada pormenor. Fiquei com vontade de partir para a leitura… Alguma sugestão para uma principiante no autor?
Sim, Joana. ‘Um Espião Perfeito’. Um belíssimo romance, escrito em estado de graça, e que nos fala de tudo quanto há de mais importante na vida.
Apanho a boleia de mais esta sugestão e faço mais ou menos minhas as palavras da Joana. Obrigada. Gosto cada vez mais deste blog 😉
E nós gostamos cada vez mais dos nossos leitores, Isabel.