A sorte da Torre Bela


João Pedro Pimenta,

Do desaparecimento de Wilson Filipe e da sua acção e consequências na Torre Bela já o Paulo Sousa escreveu no outro dia, num post que vale bem a pena ler. Mas há coincidências que se entrelaçam quase de propósito. Precisament quando se voltou a falar na herdade da Torre Bela, por causa daquela matança de gamos e javalis disfarçada de caça, e se recordou a ocupação da propriedade em 1975 e o célebre vídeo da “enxada da comprativa“, eis que morre o protagonista de ambas, da ocupação e do filme, Wilson Filipe. 

A tentativa de criar uma cooperativa popular naquela terra, à altura propriedade dos Duques de Lafões, uma das últimas famílias aristocráticas pré-liberalismo, é um bom resumo do PREC. Embora fosse uma expropriação selvagem, a verdade é que esteve longe das barbaridades dos sovietes. Olhando os numerosos testemunhos audiovisuais de tudo aquilo, há momentos de evidente comicidade, notando-se também bastante ingenuidade da parte dos ocupantes, à mistura com o oportunismo de uns tantos aventureiros e revolucionários de ocasião. 

A história da propriedade acompanha desde então o percurso recente de Portugal. De imensa herdade de caça de uma das principais casas ducais, passou a “cooperativa popular”, fruto da revolução, durando uns anos, até ser encerrada pela Lei Barreto e o fim do PREC; entretanto, os antigos proprietários receberam a correspondente indemnização, e a agora propriedade, crê-se, de testas de ferro de uma família angolana, preparava-se para ver parte do seu terreno transformado numa central fotovoltaica, pelo que tinha de se transformar a antiga coutada através de uma “montaria” cirúrgica, que também daria para ganhar uns euros extras, e que tão mal caiu nas notícias e nas redes sociais. Coutada de caça, cooperativa popular, central fotovoltaica: as vidas da Torre Bela ao longo das décadas.

Paralela a essas metamorfoses ao sabor dos tempos, temos também duas opções ambientais que se excluem: a reserva florestal de vida selvagem e a central de produção de energia solar. Para se obter energia limpa que não a dos combustíveis fósseis e não renováveis, há que sacrificar um raro habitat de fauna livre. Nada de espantar: as barragens também armazenam água e produzem electricidade, ao mesmo tempo que mudam o clima local, os ecossistemas e retêm sedimentos levando à redução as praias. As ventoinhas eólicas enxameiam as nossas serras. Para não falar das opções da energia nuclear. Valores ecológicos que se excluem mutuamente e que dependem de um sem número de outros factores. 

Por fim, outra história, mais distante e de outro país, mais indirecta mas ainda assim ligada. A saga da Torre Bela foi contada por Thomas Harlan, um realizador alemão de “cinema activista”, entusiasta da esquerda radical, talvez para fugir da sombra do pai, Veit Harlan, um dos cineastas mais notórios do Terceiro Reich. Harlam pai dirigiu O Judeu Suss, provavelmente o mais conhecido filme propagandístico anti-semita da época, que no fundo também correspondem a duas gerações alemãs: à que aderiu (ou se adesivou oportunisticamente) ao nazismo e à seguinte, com simpatias pela esquerda radical e até pela extrema-esquerda, que levou à criação de grupos terroristas como os Baader-Meinhof, para se afastar da precedente, numa tentativa de expiar os seus crimes. Escrevi sobre isso quando morreu Thomas Harlan, há uns anos, pelo que não vale a pena repetir-me.

Resta saber se a Torre Bela se tornará uma central fotovoltaica, voltará a ser um terreno de (autêntica) caça, ou o que mais for. Certo é que é um manacial imensos de histórias e de episódios dos quais podemos tirar inúmeras comparações.

E já que não vale a pena estar com grandes “resoluções de ano novo”, que seja um ano melhor para todos.

2 comentários em “A sorte da Torre Bela”

  1. Bom texto.
    Bons textos.
    E sensibilidade, para os entender e divulgar.
    Reflectindo nos anos que acabam e começas, enuncio: “Expectativas de cada (novo) ano – nos dai hoje”,
    Concluí, após leitura de “O Mundo como Vontade e Representação” (título original, em alemão: Die Welt als Wille und Vorstellung) de Schopenhauer.
    É pouco: não sei para mais.

  2. «A história da propriedade» sempre “acompanhou” a história do nosso país.
    No que ela se tornou hoje, é a perfeita imagem do que também até se tornou Portugal: aparentemente, o “crime em questão” está em que foram ultrapassados os (“razoáveis”) 40 selos para abater veados e 65 para javalis, de acordo com fonte da Sociedade Agrícola da Quinta do Convento da Visitação, para satisfazer as necessidades mais básicas dos nossos “novos duques”. Eventualmente, a “expropriação” até terá sido «selvagem»… porque, como de costume, isso é um atributo típico do “povo”…
    Aqui e ali até vou lendo declarações daquela abjecta criatura que Mário Soares foi buscar para aniquilar o poder do PCP, na reforma agrária. Confesso que raramente até leio as suas crónicas no Público e quando o faço, não consigo deixar de me descobrir, a ler a ladainha da habitual cobra viperina; Sobre o seu papel na criação de, por exemplo, o campo de extermínio de veados e javalis, ele continua a achar que nem tem qualquer responsabilidade… o culpado foi o PCP!

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