A seriedade não se legisla


Tiago Mota Saraiva,

Imagine o leitor que o pai de quem vos escreve era empresário e que fazia a sua vida a fornecer e instalar cadeiras de auditório. Muito provavelmente mais de 70% do seu negócio seria com o Estado o que, de acordo com o Código de Conduta que o governo aprovou, me tornaria inelegível para as funções de Secretário de Estado das Pescas. Imagine agora que eu estou desavindo com a minha filha, que não conversamos há anos, para aceitar qualquer cargo num governo com este Código de Conduta, teria de refazer relações para perceber o que faz ela e a sua família mais próxima de modo a cumprir com tranquilidade as minhas funções públicas.
Entenda-se uma coisa, o problema das relações familiares promíscuas não se resolve com legislação ou códigos de conduta mas com a escolha de pessoas sérias para os lugares. Não tem problema nenhum que o meu pai continue a vender cadeiras de auditório se eu não tiver qualquer influência na sua escolha. Legislar sobre a ética republicana ou sobre a seriedade das pessoas é terreno fértil para a trafulhice pois dá a matriz para quem quer fintar o sistema e tem tendência a misturar na lama quem desempenha as suas funções com seriedade e verticalidade.

15 comentários em “A seriedade não se legisla”

  1. E se o negocio do seu pai, sincronizado com a sua ascenção a secretário, ministro, acessor, vereador, tem um ‘boost’ de negócios, cria umas empresas na hora por conta de contratos com o governo, autarquia, agências, observatórios, misericordias ou outras capelinhas autarquicas,?

    Mais ainda, o governo aprovou códigos de ética sobre tudo e um par de botas, que furiosamente usou contra os seus adversarios (ou aliados) ou como diáfano manto para cobrir os ‘coirões’ das suas maltas, conforme as conveniências- já agora, eu como sou reaça, tenho que estas histórias agora a aparecer na prensa tem mais a ver com a ‘guerra’ intestina dos xuxas entre o alcaide Medina e o ‘jagunço’ Nuno Pedro, padrinho politico da sra. Begonha, Lisboeta candidate por Braga.

    Agora quando toca a eles, temos pedidos de parecer á PGR? Ainda vão pedir ao Luc Ferry que veja o que é que os Gregos&Romanos ou o Moisés diziam lá nas tábuas !! Ou então encomenda-se umas “consulturias” de ‘ética’ sei lá, junto do CES ou pagando serviços ao Dr. Paz Ferreira, que neste governo não se consegue pensar!

    Jorg

  2. Pois, Tiago, eu até estaria de acordo. Mas vivendo em Portugal, e sabendo como se fazem negócios, mais concretamente entre autarquias e empresas “amigas” , não poderia estar mais em desacordo. As leis devem, ao ser elaboradas, cá, ter em consideração a cultura de vilanagem, de esbulho da res publica. Não dá para importar leis, da Noruega, como se fosse Salmão, ou Bacalhau. Os casos têm sido demasiados, há demasiado tempo (desde o fax de Macau, pelo menos), contando, para isso com a mansidão do povo e o relativismo de intelectuais de pacotilha.

    Numa lista divulgada pela GRECO, Portugal é o país com maior proporção de recomendações anticorrupção não implementadas. 11 medidas ficaram por aplicar em território nacional.

    Turquia é o segundo país na lista com 70% de medidas não implementadas

    Portugal foi o país com a maior proporção (73%) de recomendações não implementadas do Grupo de Estados Contra a Corrupção (GRECO), seguido da Turquia (70%), indica o relatório de 2018 deste órgão de monitorização anticorrupção do Conselho da Europa.

    O Estado português tem “fama” de ser tão corrupto como o Qatar

    Olhando para a tabela mundial, divulgada em 2018, além de surgir empatado com o emirado do Médio Oriente suspeito de pagar subornos para ganhar a organização do Mundial de futebol de 2020 e com a ilha asiática que em 2009 condenou o antigo presidente, Chen Shui-bian, a prisão perpétua por fraude, corrupção e lavagem de dinheiro, Portugal surge ainda atrás do Butão ou das Bahamas, embora à frente de Espanha, Israel ou Polónia.

    Mais que a má governação, resultado da elaboração de más politicas (reveladora da impreparação dos nossos governantes) tem sido a corrupção que tem afundado o país e a democracia.

    https://www.google.com/amp/s/www.publico.pt/2018/08/06/economia/noticia/contratos-de-ppp-sob-investigacao-ja-custaram-836-milhoes-ao-estado-1839996/amp

    Que o senhor, o das cadeiras, as exporte para o Qatar.

  3. O meu pai e a minha mãe são bastardos. A minha mãe foi dada como filha do marido da minha avó. Com o meu pai não aconteceu isso (tinha no Bilhete de Identidade filho de pai incógnito, a minha mãe tinha lá um pai que não o era).
    Resultado: tenho primos que não conheço bem como tios. E tenho parentes (do lado da minha mãe) que só o são oficialmente mas que de facto não me são nada e muitos nem conheço.
    Se eu fosse Ministro podia negociar com os do lado paterno mas não com pessoas do lado materno que não me são nada de facto. Haverá pouca gente nestas condições mas ao levantar-se esta polémica logo me lembrei do meu caso. Que tem alguma piada. Ver-me-ia grego se fosse governante e quisesse nomear alguém para o meu gabinete. Se acertasse num primo direito daqueles cuja existência desconheço estaria tramado.

  4. https://www.rtp.pt/noticias/pais/governo-contratos-feitos-com-familiares-valem-37-milhoes_n1164036

    Desde que o governo tomou posse, a 26 de novembro de 2015, as empresas de familiares de governantes celebraram contratos com o Estado no valor de, pelo menos, 3 727479,31 euros.

    Mas isto não entra pelos olhos adentro!?

    Para uma maior correcção do que se passa, com este governo, e em Portugal, o exemplo, do estimado autor, deveria contemplar que o fornecedor das cadeiras, mais o construtor do auditório, mais o que vendeu a aparelhagem de som, e os sanitários, por acasos do destino, eram amigos e familiares do Partido/membros do governo.

    Quando se acha tudo isto normal, então devemos ilibar os politicos, mas, acusar, sim, a população.

    1. Mas isso, meu caro, acusar a população (sem todavia ilibar os políticos), é coisa que se vai impondo. A falta, mais que demonstrada, de uma oposição à altura não pode explicar tudo. Um resultado eleitoral muito claro e de muito clara desaprovação seria sempre possível, mediante uma votação em massa e em massa pelo voto em branco. Isso sim, seria questionar de alto a baixo o regime e a legitimidade do vencedor das eleições. E questionar com inatacável legitimidade democrática. Um verdadeiro gesto de soberania.

      Mas não é isso o que parece preparar-se; antes a cobardia negligente de uma elevada abstenção e, dos votantes, a consagração imbecil, com uma ou outra variante, do actual estado de coisas.

      Ser-se o Soberano não significa estar sempre certo (estar o povo, o Eleitor, e por definição, sempre certo), as nossas décadas de regime democrático já o demonstraram. E o povo – largamente ignorante, inculto, mesquinho, egoísta, oportunista e que toma a geral prepotência do estado e o saque fiscal como fatalidades históricas, de discussão inútil e a aceitar com resignação – revê-se afinal (mesmo que se alivie regularmente de breves expansões de protesto) nos comportamentos de quem nos desgoverna por estes dias.

      Esses (ou “eles”, os “lá de Lisboa que mandam nisto”) nada têm feito que um português comum, à sua pequenina e medíocre escala, podendo, não fizesse ou faça. Para uns são andares em imóveis de luxo, para outros um T2 na Brandoa; para uns são cursos superiores concluídos como se sabe ou os laços que os levam, absolutamente inexperientes, para rendosas posições de assessoria ou afins num ministério, para outros a pequena cunha de secretaria para um empregozito não qualificado e que permite a vidinha de sardinha assada na varanda de subúrbio e a assinatura da SporTv; para uns são contratos de milhões, para outros a pequena reparação doméstica ou do carro, que custa X com IVA ou Y sem. Os exemplos, as analogias, são inúmeros.

      É tudo uma questão de escala. Da escala a que se aceda para aplicar a mesma e fundamental falta de escrúpulo. Ao contrário do que diz o ministro dos negócios estrangeiros, não é o princípio da proporcionalidade que está em causa (desde logo uma palavra e uma noção demasiado complexas para analfabetos funcionais, mesmo que com facebook); é o princípio de “sacar o meu (ou o nosso) e os outros que se lixem”. É esse que está em causa. É esse que faz parte da essência de se ser português. Para usar a expressão tão na moda: “está no nosso ADN”.

      Mas há quem ainda tenha, de genuína boa-fé, esperança neste povo.

      Costa

      1. Costa, desculpe-me o calão. Mas o povo, desde que consiga ir, a crédito, às praias brasileiras, ou a Bali, está-se a cagar para essas “coisas”, ” das filosofias”, das conversas indigestas, durante “O Golpe de Sorte”, sobre Democracia, Regime mais o catano que há-de vir. O pessoal delira é com a Gabriela, a Tieta e o cabrão do Astro.

        1. “Mas o povo, desde que consiga ir, a crédito, às praias brasileiras, ou a Bali, está-se a cagar para essas “coisas”, ” das filosofias”
          Portanto o povo está errado, os intelectuais é que estão certos.

      2. “Mas não é isso o que parece preparar-se; antes a cobardia negligente de uma elevada abstenção e, dos votantes, a consagração imbecil, com uma ou outra variante, do actual estado de coisas.”
        Parece que há muita gente, Senhor António Costa, que não partilha a sua opinião o que é uma desgraça. Senhor António Costa, o Senhor devia ser Primeiro Ministro, se se candidatar tem pelo menos um voto: o meu.

  5. Se fosse só o seu pai, era como o outro. Mas os pais, os irmãos, as mulheres ou os maridos de mais de metade do governo terem negócios com o estado é um bocadinho demais, não é? esta gente parece que não consegue viver sem o estado. Se calhar por isso é que aqui o jardim à beira-mar não passa da cêpa-torta.
    Quanto à ética, republicana ou outra qualquer, estamos conversados…

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