A segunda morte de António Feio


Pedro Correia,

 

Conheci António Feio ainda antes de ele se chamar António Feio. Explico melhor: nessa altura todo o País o conhecia por Luisinho. Era assim que se chamava a personagem do miúdo que ele representava naquela que foi a primeira telenovela portuguesa. Muito antes de Vila Faia e de o próprio termo telenovela estar popularizado em Portugal. Era ainda no tempo da TV a preto e branco, no final dos anos 60, e essa telenovela chamava-se Gente Nova. Foi um fenómeno de popularidade nessa época, concorrendo apenas com a série televisiva norte-americana O Fugitivo.

Eu era um miúdo nessa altura, bastante mais novo do que o Luisinho que via no ecrã, adolescente já embora sem perder a cara de garoto que afinal acabaria por conservar durante toda a vida. Mas fazia os possíveis por não perder cada episódio desse “folhetim”, como então eram conhecidas as telenovelas, adaptando o termo clássico popularizado pela imprensa oitocentista.

Sou incapaz de reconstituir hoje pormenores da trama: lembro vagamente que o Luisinho era filho de um casal da classe média. Tinha dois irmãos e era um miúdo irrequieto e desembaraçado. Eventuais complexidades do enredo escapavam obviamente ao meu olhar infantil em busca de modelos e de senhas de identidade. Mas aquilo que recordo bem é do elenco. Já nessa altura tinha o costume de fixar fichas técnicas e fichas artísticas, memorizando os nomes dos actores. Conhecia o David Janssen, protagonista d’ O Fugitivo. E o Don Adams, da série Get Smart. E, claro, a incomparável Elizabeth Montgomery, de Casei com uma Feiticeira. Mas o elenco daquela irrepetível Gente Nova era o primeiro conjunto de actores portugueses que me atraía a atenção. Actores como Rui de Carvalho e Helena Félix, que interpretavam os pais do Luisinho. A loira Leonor Poeira, a morena Henriqueta Maia. O Carlos Queirós – não o seleccionador de futebol, mas o irmão de Florbela Queirós, que viria a radicar-se nos EUA. E, claro, o Luisinho/António Feio, que rapidamente se tornou um dos rostos mais conhecidos do País. Tão depressa o víamos na TV como nas capas das revistas (da Flama à Plateia, do Século Ilustrado à Rádio e Televisão) ou em vistosos cartazes publicitários (lembro-me dele num anúncio de Fosgluten, um “fortificante da memória”).

 

Sabia-o muito doente. Era, aliás, impossível não saber: as publicações mais vampirescas da nossa praça iam dando nota, em parangonas sem qualquer resquício de pudor, da “evolução do cancro” deste actor que tanto fez rir os portugueses sem recorrer à ordinarice nem ao trocadilho fácil. Há pouco mais de um mês vi-o ser entrevistado pela Fátima Lopes na televisão: bastou ver o seu rosto, ouvir a sua fala já arrastada e algo hesitante, reparar naquele olhar que parecia já despojado da centelha da vida para se perceber cruamente que o fim estava próximo. Chegou agora, mais cedo do que muitos esperavam – a morte chega sempre cedo de mais. Os vampiros com carteira profissional de jornalista têm de procurar novos alvos: certamente não lhes faltarão motivos para novas capas que reduzam a estilhaços o direito à privacidade, garantido pela Constituição da República Portuguesa mas diariamente violado com total impunidade.

 

A RTP, que tornou António Feio familiar aos portugueses, tem um canal Memória que bem poderia voltar agora a exibir aquele “folhetim” que nunca mais revi.

Será talvez pedir demasiado à televisão pública: aposto que a primeira telenovela portuguesa já não consta do arquivo da RTP. De uma televisão que foi capaz de apagar grande parte das gravações do histórico Zip Zip e todos os registos do inesquecível concurso A Visita da Cornélia podemos sempre esperar o pior em matéria de conservação e gestão de arquivos. Se for assim, e espero estar enganado, esta seria a segunda morte do Luisinho, desta vez às mãos do “serviço público”. Nada mais feio.

 

Na foto: o jovem António Feio com Carlos Queirós e Henriqueta Maia, seus parceiros no folhetim Gente Nova

22 comentários em “A segunda morte de António Feio”

  1. Deve ter sido o vergonhoso arquivo da RTP a sugerir a criação de um canal Memória que, em vez de ser um regresso ao nosso passado, transmite jogos de futebol a preto-e-branco sem qualquer critério e um sem-fim de séries norte-americanas que fazem, afinal, inexplicável e desleal concorrência às televisões privadas (que também podem ir buscá-las às agências internacionais).
    Alguém explica isto?

  2. Lembro-me muito bem do Luisinho, já não me recordava do nome da telenovela. Nessa época, ainda se fazia bom teatro televisivo, que nos permitia conhecer os actores e saber os seus nomes. Na verdade, a RTP Memória bem podia passar o que de bom foi feito na época do preto e branco e homenagear quem partiu. Se apagou os registos é lamentável.

    1. Lamentável? É quase criminoso. A RTP devia ter um arquivo soberbo e tem, afinal, um depósito de pouco mais que coisa nenhuma. O melhor, o que valia realmente a pena, foi-se.
      Ficou o Braga-Farense de 3 de Fevereiro de 1971, talvez…

    1. Delito de negligência qualificada, Ana. As gravações de quase todo o ‘Zip-Zip’ (excepto o primeiro, que teve o Almada Negreiros em palco) e todas as emissões de ‘E o Resto São Cantigas’ foram apagadas. Por isso estes dois programas – seguramente dos mais populares de sempre na TV em Portugal – nunca passam no tal canal Memória. Suponho que o mesmo aconteceu com essa estreia de António Feio na ficção televisiva.
      E ainda há quem chame a isto «serviço público»…

        1. É talvez a coisa mais antiga de que me lembro na RTP, falada em português. Fiquei com essa imagem do António Feio adolescente gravada para sempre na memória. Tal e qual surge na foto que publico aqui.

  3. Nada a acrescentar sobre a inenarrável gestão (que nunca foi responsabilizada, diga-se) do “arquivo” da RTP. Mas não posso concordar com o tom do post sobre as revistas vampirescas, e respectivos ratos voadores que nelas habitam. Certo sobre elas. Mas tendo estado em Portugal algumas vezes neste último ano sempre me surpreendeu a exposição que António Feio fez da sua doença: era um direito dele (nada nos obriga à privacidade na doença e na morte), mas nunca tamanha omnipresença mediática teria sido possível sem a opção do autor. Daí que – neste caso – reduzir a “vampirismo” o deleite noticioso obscurece o mais interessante (para mim até estranho) do caso, essa auto-mediatização. Lembro que uma vez li umas declarações do autor lamentando-se de que lhe tinham telefonado aquando da morte de Swayze (tinha um cancro similar, parece) e do menosprezo pelo jornalista que isso lhe causara. E lembro também do meu espanto de então, pensando que teria sido ele a semear tamanhas tempestades.
    É certo que falar disto até pode parecer pouco simpático (o homem morreu e era muito popular aí, o que torna as pessoas intocáveis), mas não era (nem é) nenhuma antipatia. Das razões para tal exposição nada sei. Mas confesso que sempre pensava que ele deveria estar aflito e que era uma questão monetária que o conduzia.

    1. Neste caso, segundo creio, a partir de certa altura terá ocorrido algo do género «se não podes vencê-lo, junta a eles». Mas li e ouvi vários pedidos do actor pedindo às revistas e aos jornais da especialidade para não o exporem daquela maneira. Pedidos que não serviram para nada, como bem se percebeu.

      1. É possível que assim tenha sido. Como disse apenas passei por aí e me espantei com as capas inúmeras que lhe dedicavam. Não acompanhei o caso.
        (já agora também não tinha a ideia de que ele fosse tão popular e querido em Portugal – em inícios de 90s conheci-o na Meia Praia e aí pude constatar um tipo modesto e muito simpático que passava despercebido. Ou por outra, podia estar descansado. A explosão de popularidade deve ter ocorrido depois)

        1. O António Feio teve vários picos de popularidade. O primeiro foi aquele a que aludi acima. Durou dois anos, entre 1967 e 1969, até regressar a Moçambique, onde aliás tinha nascido. O caso dele constitui uma excelente pista de reflexão sobre o fenómeno da popularidade que se confunde a partir de certa altura com uma total devassidão. A pessoa deixa de ter vida privada. Deixa sequer de ter direito à sua reserva mais íntima.

  4. “Os vampiros com carteira profissional de jornalista têm de procurar novos alvos […] novas capas que reduzam a estilhaços o direito à privacidade”

    E os direitos ao bom nome e a ser considerado inocente até condenação judicial, etc. Mais os deveres de sigilo judicial, etc.

    Vejo que o Pedro Correia, afinal, até percebe bem alguns dos motivos pelos quais eu tenho a classe dos jornalistas em péssima consideração.

    1. Mercadejar com a doença e a morte – e fazer disso pasto para o gáudio público é inaceitável. Nada a ver com o saudável, desejável e necessário escrutínio das instituições políticas e dos respectivos titulares.

  5. Tenho uma vaga ideia. Eu tinha 7 ou 8 anos e lembro-me do Luisinho possuir orgulhosamente uma guitarra elétrica com uma só corda e fazia uma chinfrineira danada. Eu adorava. Também eu queria uma guitarra. Até sonhava com isso! Achava o Luisinho o maior! Que saudade…

    1. Saudade, sim. Mas nem uma imagem na RTP Memória sobre este “folhetim” e esses tempos.
      O arquivo do “serviço público” tem mais buracos do que um queijo suíço.

  6. Lamento a perda das imagens da novela Gente Nova, decorrida nos anos 60.Lembro-me de quase tudo porque fiz papeis de duplo,tais como fazer esqui aquatico no Estoril/Monte e Estoril,desembarques no Clube Naval de Cascais,conduzindo uma embarcação a motor e andar a cavalo na Quinta da Marinha.Foram dias de gravações divertidas e com muitas emoções. Gostei e nunca me esquecerei de ter colaborado com António Feio no papel do Luisinho
    que deu os primeiros passos a andar a cavalo (sem medo )e que adorou .

    1. Caro Carlos Ryder: obrigado pelo testemunho que aqui nos transmitiu. É, de facto, revoltante que a RTP nunca mais tenha transmitido qualquer imagem desse ‘folhetim’ – assim se chamava à época.
      Se puder deixe-me o seu contacto. Ou por esta via ou pelo meu endereço electrónico, que fica visível quando clicar no meu nome, inscrito na aba lateral deste blogue.

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