A Sair do Armário


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[Sigo ensimesmado. Notei-o anteontem, na morte de um homem que foi personalidade pública, e decerto que muito simpática dado o impacto que tem na imprensa e nas redes sociais. Pois desconhecia-o. Afinal familiar muito querido de meu bom amigo (Paulo, um grande abraço com condolências), amigo de outros amigos meus, e antigo atleta, até olímpico, do meu Sporting (o clube e o nosso És a Nossa Fé já ecoaram o nosso sentimento de perda comunitária).

Confunde-me um pouco o facto de tantos associarem o lamento a elaborações sobre as causas da morte. Estarei velho, sigo noções antiquadas de reserva, daquilo a que se chamava decoro? Os meus pêsames aos queridos de quem morre, as minhas condolências àqueles desses que conheço pessoalmente. É a minha norma, são os meus limites.

Recentemente no tão significativo obituário do grande José Cutileiro o seu autor culminou (mais-ou-menos) assim: a viúva não divulgou a causa da morte e como tal isso não é assunto. Que suprema, de tão linear, elegância.

Mas talvez, apesar disso, haja momentos em que seja preciso abordar os temas, ainda que nisso talvez magoando os já muito magoados. Li anteontem muitos elaborando sobre “depressão”. Esse mal escondido, qual maleita vergonhosa, pois como se sendo défice próprio. E o que me espantou, e me desagradou, é ver tanta gente valorizar a depressão e os deprimidos. A estes atribuir uma especificidade intelectual, uma densidade sentimental. Ou seja, como se os deprimidos o sejam porque são especiais, mais sensitivos, mais inteligentes. Mais lúcidos, e assim sentindo-se diante dos males do mundo, os próprios e os alheios. E essa ideia tem até um corolário implícito, o de que julga os aparentes antónimos “felizes” como menos inteligentes e menos sensitivos. Alienados, até. E contesto essa ideia. Um deprimido não é melhor do que os outros, mais lúcido ou mais sensitivo. Está doente, apenas.

É difícil viver com essa doença. E das piores coisas que se pode fazer a um desses (tantos) doentes é dizer-lhe “estás deprimido porque és especial, melhor do que nós”. E eles não podem, nem o querem, ser Prometeus da lucidez, da intensidade, seria mais um dos insuportáveis fardos, e estes já lhes são tantos. Há deprimidos extraordinários, há deprimidos muito básicos e a maioria são medianos.

Conheço essa depressão por via da “observação participante”. Há 8 anos escrevi um texto sobre isso. Era para a minha coluna no jornal “Canal de Moçambique”. Por coincidência (ou mão divina) a edição dessa semana foi cancelada – julgo recordar que devido a uma crise no fornecimento de papel. Ainda bem, talvez fosse inapropriado para aquele contexto. Ficou no blog ma-schamba. Partilho-o agora:]

A Sair do Armário

Tomás de Aquino foi clarividente no seu século XIII quando decidiu denunciá-la como um dos sete pecados capitais, assim pérfida fonte de um sortido de vícios. Falo da acedia, aquela “certa tristeza”, o torpor acabrunhante que algema os seus padecentes à inactividade, a uma estupefacção constante, no limite até à autofagia. Dela brotam os tais vícios, seus efeitos, entre alguns outros o rancor, a amargura, a timidez e aquele que mais temo, o da divagação da mente, essa que se traduz na inconstância, na verborreia, na mera curiosidade, na instabilidade. Sistematizo, a improdutividade. Diletante.

A tal acedia é pecaminosa, disse o filósofo, porque infundamentada, pois brotada da aversão por pequenos males, relativos. Que a tristeza é justa, e até necessária, mas se defrontada com o verdadeiro mal. Na linguagem de hoje dir-se-á que a acedia nasce de uma incompetência na hierarquização do mal, dos males. Talvez até da “banalização do mal”. Em assim sendo o acedioso é alguém que padece, também, de um défice intelectual, de perspicácia. Do desentender o real.

O mundo de Tomás era diferente do actual. E nisto do necessário para se ser pessoa também. Que hoje para que a tal cheguemos, mais do que ser visto como um mero “tipo” que “para aí anda”, temos que ter um rumo, algo a perseguir, um refúgio a alcançar, uma montanha a escalar, um naco de felicidade ou orgulho luzidio, um qualquer sucesso que desfraldemos aos olhos alheios, em público às vezes, no privado da casa-própria ou, vá lá, pelo menos diante do espelho na hora de sacudir as remelas. Assim acredito que os céus são agora mais inclementes para os acediosos do que o eram naqueles tempos de Tomás. Quando apenas a expectativa de um Além infernal os consumiria, vis pecadores. Sendo que no hoje em dia, de menos aléns, o pecador se vai consumindo num aquém modorrento, culpabilizado, angustiado. Incompleto. Incompetente.

Tomás de Aquino foi um companheiro da alquimia, aquela incessante procura da criação do ouro, dos robôts, da abundância social. E, mais do que tudo, da panaceia, o remédio que tudo cura, o elixir da longa vida. Daquilo que cria a harmonia, esta um bem. Por isso estou certo que acolheria como santificados estas novas mezinhas industriais, os medicamentos que rearrumam a bioquímica dos neurotransmissores, como explicam as vulgatas da coisa. Que harmonizam as cabeças pensantes, ainda que trôpegas.

Pílulas que curam a acedia, por assim dizer, ou, pelo menos, que a disfarçam. Alisando estas cabeças que da maleita sofrem, da depressão como lhe chamamos neste século. Já não a dizemos pecado, que nos é termo mais difícil de usar. Mas dela fazemos aquele mal escondido, o “pequeno mal” actual, como antes se chamava, em surdina, à epilepsia quando se acreditava ser esta coisa de possessão por espíritos malignos ou meia-demência. Exactamente como agora se emudece a tal depressão, vista como se possessão por defeitos malignos ou meia-demência.

Leio que muita há, por aí afora. Talvez sim, talvez que muitos a vivam, a essa incompletude quotidiana. Porventura acompanhados, talvez apenas sozinhos. Se alguém, aqui por Maputo ou arredores, está assim no seu caminho pode-me acenar. Pois estou aqui a sair do armário, deixei-me, sei lá desde quando, assediar pela acedia. Incompleto-me dia após dia. Afogo-me em rancor, por mim mesmo.

Entretanto vão-se-me morrendo os familiares. Amigos queridos. Conhecidos simpáticos. Gente que me cruzou. E tantos que é absurdo continuar assim. Para disto fugir há por aí os medicamentos, os novos elixires da harmonia. Quem com eles vai vai bem, com toda a certeza. Eu, atrevido, vou tentar ir pelo outro lado. Se isto é, disse Tomás de Aquino, efeito de um defeito intelectual, da falta de uma correcta ponderação dos males do mundo, vou-me safar disto calibrando o meu olhar, e nisso o meu sentir. Não mais atentando na espuma dos dias.

E acabar todas as coisas que intento. Botando. Nem que seja um simples ponto parágrafo. Por ausência de bens do mundo de que falar.

14 comentários em “A Sair do Armário”

  1. A Depressão é uma doença. E como qualquer doença tem causas multifactoriais. Desde desequilíbrio bioquímico em certos neurotransmissores (serotonina, noradrenalina, dopamina), até experiências traumáticas, estas últimas causadoras de depressões ditas reactivas. Depois existem ainda outras, como a Transtorno Bipolar.

    A Depressão provoca com tempo alterações cerebrais. A Depressão crónica aumenta o risco de doenças neurológicas degenerativas, como por exemplo, Alzheimer.

    A Depressão é uma doença “macaca”, porque enquanto as outras não nos impedem de sentir momentos de prazer, de alegria (a tal recalibração mental de prioridades, provocadas pela doença grave), a Depressão caracteriza-se por Anodia.

    Não há analgésicos para o sofrimento mental como os há para a dor física. Não há medicação eficaz.

    Enfim, a Depressão é o Diabo feito doença.

    Muito tempo passou desde S. Tomás de Aquino. A Depressão, o Depressivo terá a mesma “culpa” pela sua doença como um doente oncológico, ou um engripado. A Depressão não depende de vontade ou força interior. Aliás, a pior coisa que se pode fazer, dizer, a um depressivo é acusá-lo de carência de vontade. De fraqueza de ânimo. Tive Depressão. O meu pai e o meu avô também.

    1. Obrigada, Vorph.
      Gostei muito de ler o que escreveu (comme d’habitude, aliás).
      Tenha um bom dia 🙂
      🌻
      Maria

  2. «Que hoje para que a tal cheguemos, mais do que ser visto como um mero “tipo” que “para aí anda”, temos que ter um rumo, algo a perseguir, um refúgio a alcançar, uma montanha a escalar, um naco de felicidade ou orgulho luzidio, um qualquer sucesso que desfraldemos aos olhos alheios»
    Profissionalmente, agora, chama-se: “ter objectivos” ou melhor comprometer-se (assumir um compromisso) com os objectivos e corolário disso: “cumprir os objectivos” (ultrapassar os objectivos nunca é boa ideia se não no mês seguinte ou no trimestre seguinte os objectivos aumentam).
    O que são os objectivos?
    Os objectivos são seres pensantes, com sentimentos (poucos) por estes dias é habitual ouvir-se: os objectivos não se compadecem com a pandemia; bolas para os objectivos, toda a gente se compadece com a pandemia menos eles.
    Solidarizo-me nas condolências e um abraço pelo texto para o “Canal de Moçambique” (concordo que talvez seja um registo demasiado íntimo, mais apropriado a um blogue que a uma coluna de jornal)

  3. O jpt deixou uma excelente mensagem e uma esperança: “E acabar todas as coisas que intento. Botando. Nem que seja um simples ponto parágrafo. Por ausência de bens do mundo de que falar.”

    O meu caro, com a ausência de bens do mundo de que falar, oferece ao mundo um bem. Portanto, nada está perdido.

    Estou em crer que um dos factores da depressão também reside na persistência de esperar dos outros aquilo que só em cada um se pode encontrar, que é esse o tesouro que habita no segredo. E o segredo de cada um não está no intelecto mas no coração. É aqui que reside a aliança e o equilíbrio.
    Em um outro sentido, buscar a segurança em mundo de inseguros é iludir à exaustão o reconhecimento de que só em si e em cada um se pode obter o resultado dessa alquimia que tanto se busca.
    Erroneamente muitos buscam na religião, nas instituições, na política e nas promessas dessa mundivisão científica o sentido de sua esperança e o preenchimento de seu vazio, esquecendo que não se pode encher uma vasilha com nada.
    Teresa d´Ávila e Edith Stein, esta última em certo sentido como discípula da anterior, perceberam e percorreram a via dos sete castelos interiores ou sete moradas. Castelos, ou moradas, estes que necessitavam ser objecto de limpeza e conquista. Isto é: a consciência de que estas moradas interiores são habitadas por um infindável número de germes e vermes que a tradição cultivou e ainda cultiva, tornando-se também tradição.
    A desinfestação da alma é uma tarefa árdua e obriga a uma constante batalha para não se retroceder nestes propósitos. Só depois desta tarefa realizada, cada um por si e até mesmo com ajuda de outros que já tivessem feito tal percurso, é possível entrar no mundo do outro e habitar no mundo de todos. Só a consciência da miséria nos poderá tornar misericordiosos, isto é, olhar a miséria com o coração.

    Assim, conhecer a Verdade e o Amor não é a busca de um ideal e de um sentimento; ainda que envolva algumas emoções, o encontro com a Verdade e o Amor leva-nos a concluir que estes são atributos para uma ATITUDE perante a Vida e diante da Vida que em cada um se oculta.

    “Onde estiver o teu tesouro, aí estará o teu coração”. Concluindo, é no íntimo do mais íntimo que se realiza o novo nascimento e a recriação do Homem. O coração é o local do segredo é o cofre cuja chave devemos encontrar para que se possa abrir e expressar propriamente.
    Como não há combate sem sofrimento e não há luta sem reacção, o Caminho afigura-se dificultoso mas não impossível de alcançar.

    jpt, é a perseverança que salva: “E acabar todas as coisas que intento.”

  4. jpt,

    Aprecio o que escreve. Penso que seja um Homem bom.

    Mas… notável. Nem o Cardeal de Mendonça chegava ao sopé disto:
    «Toda a gente gostava de Pedro Lima, desde logo pela sua simpatia natural, e pelo seu gosto pela vida, que se transmitia às personagens que interpretou e ao modo como as interpretou.»
    Duplamente notável: a pérola ainda está no site do PR!

    1. Ah, isto parece-me um golpe baixo. É verdade que muita gente gostava do Pedro Lima pela sua simpatia natural e pelo seu talento como actor (logo um bom fingidor de emoções).
      Tinha gosto pela vida?
      Claro que sim!
      Certamente era feliz quando surfava uma onda, quando brincava com os filhos, quando convivia com os amigos, quando representava bem um papel, etc., etc..

      Mas ninguém é feliz 24 horas/dia, havia também o lado negro da vida: problemas, preocupações, inseguranças, medo de não conseguir… tudo agravado pela depressão, sempre pronta a atacar, precisamente quando nos sente mais vulneráveis.
      E desta vez o lado negro venceu.
      E eu lamento muito, mesmo.
      E compreendo, compreendo mesmo.
      E não tenho dúvida que ele deve ter sofrido imenso ao tomar esta decisão.
      Mas quem sou eu?
      Uma Maria qualquer…

  5. Relendo o que escreveu sobre Santo Tomás, não sei se ele aplaudiria os ‘novos’ fármacos. Porventura aconselharia a via que jpt escolheu.
    Isto dos fármacos é complicadamente simples…
    E. Hemingway suicidou-se após uns tempos a tomar Reserpina, um dos primeiros medicamentos para baixar a pressão arterial e que causa depressão. Quase todos os fármacos que tratam a pressão arterial alta têm efeitos no sistema nervoso central. O mais frequente é depressão.
    Cumprimenta

  6. Não vou entrar na discussão sobre correlações entre QI e depressão, muito embora elas existam e sejam… contraditórias.

    Prefiro disparar à queima-roupa umas citações de Freud, que valem o que valem.

    “Before you diagnose yourself with depression or low self-esteem, make sure that you are not surrounded by fools.”

    “The more perfect a person is on the outside, the more demons they have on the inside.”

    “At that moment when a person starts to seriously ponder the meaning and value of life, you can consider him a madman.”

    “We live in a thoroughly strange time in which we are surprised to note that progress is marching in step with barbarism.”

    “The first indication of stupidity is a complete lack of shame.”

    E, também à queima-roupa, algumas questões. Pode alguém que afirma raramente ter dúvidas e nunca se enganar (ou vice-versa, pouco importa) sofrer de depressão? Os ditadores e praticantes de carnificinas alguma vez terão sofrido de depressão enquanto exerciam o seu “mister”? E os vendedores de banha da cobra, literal e figurativamente, enquanto a despacham a crédulos e incautos?

    A terminar, Einstein.

    “Só existem duas coisas infinitas: a estupidez humana e o universo; e quanto a este último tenho algumas dúvidas.”

    “Como seria mais feliz se fosse canalizador.”

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