Por uma notícia desta manhã, do Diário de Notícias, fiquei a saber que um conjunto de padres de Lisboa utiliza os seus boletins paroquiais para apelar ao voto em Santana Lopes. A revelação, já que disso mesmo se trata, não pode deixar de causar estranheza. Estava convencido de que o papel da Igreja Católica, a evangelização das almas e difusão da palavra de Cristo não passavam, num Estado laico mas que desde sempre caminhou lado a lado com a Igreja Católica e que muitas vezes lhe deu a mão, pela intervenção directa e descarada em campanhas terrenas de recolha de votos. Nada de mais errado. O cónego Armando Duarte e os padres Mário Rui e João Seabra, cuja voz o primeiro reclama, são apoiantes confessos do dr. Pedro Santana Lopes, pessoa em quem vêem um “homem que ama a cidade”, “um homem de palavra”, “de visão” e de “vergonha”, atributos que já antes certamente viam no dr. Oliveira Salazar e que não encontraram no dr. António Costa, um perigoso ateu. Para eles, Santana Lopes tem a seu crédito o facto de ter recebido a sua “corporação”, ou pelo menos alguns dos seus membros, logo depois de ter tomado posse e de lhes ter prometido a reabilitação das igrejas, coisa que António Costa não fez e a quem os referidos padres imputam o impasse, presumo, na recuperação dessas igrejas e uma forma de tratamento equiparada à dos especuladores imobiliários. Vê-los-ia, ainda, como “travões obscurantistas da cultura”. Ora, é aqui que a porca torce o rabo. Estamos a falar de salamaleques, de chá e bolinhos, de honrarias e privilégios terrenos. É que a Igreja Portuguesa, salvo raras e muito honrosas excepções, desde logo encabeçadas por ilustres bispos do Porto, de Setúbal e da Beira, foi durante 48 anos a muleta indispensável da ditadura de Salazar e Caetano e uma arma do atavismo cultural e político da Nação. A figura omnipresente do Cardeal Cerejeira, cujos rotundos vivas a Salazar e Caetano foram ainda recentemente recordados para todo o país na magnífica série televisiva de Joaquim Furtado sobre a guerra colonial, continua a ter alguma dificuldade em descolar da pele de alguns próceres mais dados à mediatização política e ao convívio com alguns políticos do que à evangelização. Ninguém ignorará que os boletins paroquiais são impressos com o óbolo de muitos fiéis e com as isenções que o Estado laico e republicano lhes vai concedendo. E, também, que o alimento das almas, muitas vezes, não pode ser dissociado do alimento dos corpos, sob pena da alma chegar esfomeada ao Reino dos Céus. Não sei o que Sua Eminência, o senhor Cardeal Patriarca, pensa da intervenção destas zelosas e comprometidas, com o dr. Santana Lopes, ovelhas do seu rebanho na pré-campanha eleitoral da Câmara Municipal de Lisboa, tanto mais que vêem no seu eleito algumas das virtudes que antes o Cardeal Cerejeira reconhecia em Salazar. A palavra, a visão e a vergonha não me deixam enganar. Contudo, estou certo que a atitude dos senhores padres que subscrevem os textos, independentemente de ser ofensiva da consciência de muitos católicos, entre os quais certamente me incluo, mereceria a compreensão e o aplauso dos vendilhões do templo. É evidente que estes não estariam dispostos a levar com uma laje em cima da respectiva banca durante a negociação de um loteamento ou a apresentação dos seus projectos imobiliários ao dr. Santana Lopes. Mais difícil será já aceitá-los de bandeira na mão num comício do candidato, na festa do Chão da Lagoa ou no "Calçadão da Quarteira". Em suma, depois de Monsenhor Paul Marcinkus, dos negócios com Roberto Calvi e Michele Sindona e da P2, só mesmo um grande milagre poderia fazer com que o cónego Armando Duarte e os seus pares descessem, já não digo à terra, mas pelo menos a Lisboa. Todos sabem que quando o espírito é fraco o corpo cede facilmente à tentação. O dr. Santana Lopes podia elucidar o cónego e seus acólitos sobre os riscos da sua atitude. Como homem de bem sei que ele não irá fazê-lo. É que, tal como eu, ele também sabe que essa ciclópica tarefa está reservada a D. José Policarpo. O dr. Santana Lopes é um homem voluntarioso e está sempre pronto para andar por aí. Para se meter em tudo. Mas ele sabe que desta vez não deverá meter-se. O homem não é parvo. Além de que, como todos sabem, detesta confusões.
A revelação
Sérgio de Almeida Correia,

Na minha terra o pároco na homilia atacou (verbalmente) quem se indignou com um levantamento de ossadas com uma retroescavadora, e defendeu a Câmara que queria apresentar obra em tempo útil, entenda-se a tempo de ser inaugurada num período eleitoralmente favorável. ml
Argumentou dizendo que quem estava a levantar problemas à Câmara (por acaso PS) queria era protagonismo político.
O altar da Igreja foi sempre um lugar de propaganda politica muitas vezes nada subliminar.
Mais detalhes aqui http://vilaforte.blogs.sapo.pt/30815.ht
Gostei, sobretudo, da expressão “homem de vergonha” aplicada a Pedro Santana Lopes. Não sou propriamente dos que comunga da ideia de que ele foi um desastre completo em Lisboa (uma ou outra coisa ainda se aproveitam), mas sei perfeitamente que vergonha na cara é coisa que ele não tem e nunca teve.
Além do mais, todos sabem que ele gosta de introduzir as suas «vergonhas» (adoro esta expressão) em tudo o que seja do sexo feminino e tenha mais de 18 anos.
Também ando perto dessa cogitação.
E há algum problema em um gajo meter o que você chama “vergonhas” no lugar que você diz?
Se tudo se passasse no mundo gay, não havia problema, pelos vistos…
Ora, bolas (salvo seja)!
Problema nenhum. Um gajo até pode meter comentários parvos.
Olhe que (esse) elogio em boca própria é vitupério.
Se a Arquidiocese de Braga criticou (a meu ver, bem) os clérigos que se candidataram às autárquicas, por igual razão o Patriarcado de Lisboa devia avisar os srs padres da inconveniência dos seus actos e da incompatibilidade dos boletins paroquiais coma propaganda política.
Cuidava eu que que já tinha passado o tempo em que nas missas era regular dizerem que o partido a escolher deveria ser o que tem as setinhas a apontar para o céu.
Balhamedeus mailos clérigos!
Confesso que comungo as cogitações apresentadas a propósito do ex-edil e candidato a edil em questão.
:)))
Há que tempos que não vou aos Clérigos.
eheheh
Tem piada sim senhor!
E se lhe serve de consolo, nem eu e estou perto…
:))))
Agora comunga-se cogitações? Pensava que era só hóstias…
Deixem lá os padres e as homilias, porque o Santana vai levar uma abada em Lisboa, coitado!
Padres, homilias… e abada? Não é ‘abada’ que se diz: é abadessa.
eheheh
Mas que inspiração. Sim senhor!
:)))
Puro wishfull thinking, D. Clara, é claro…