A pieguice


fiodeprumo,

Não sou piegas. Mas não me importaria nada de o ser, se isso fosse a exteriorização de algo autêntico na minha natureza. Porque é que ser piegas será pior do que não ser? 

No Grande Dicionário da Língua Portuguesa dá-se ao termo a seguinte definição: “pessoa considerada excessivamente sensível ou sentimental; pessoa que é considerada medrosa e assustadiça”.

Há ideias feitas sobre a forma como nos devemos comportar e quem saia fora delas é sempre qualificado com um qualquer epíteto. Como este a que o próprio dicionário atribui sentido pejorativo. 

E agora pergunto eu, quem é que tem autoridade para definir o excesso de sentimento ou de medo? Onde está o gráfico comportamental padrão que permite definir a “normalidade” nestas matérias?

Vem este intróito a propósito de uma carta que, há quase década e meia, circula na internet, como sendo de Gabriel García Marquéz, e que constituí uma espécie de despedida da vida de um homem em estado terminal. O texto é muito bem escrito, mas foi considerado talvez demasiado “piegas” para ser do autor do “Cem anos de solidão” que, aliás, desmentiu a sua autoria.

Aqui está o exemplo do que acabo de referir. Não estava em causa a qualidade literária da carta que até se podia confundir com a de Garcia Marquez. O que estava em causa era o “grau” de pieguice que se tolerava ao escritor. Por quem, gostaria eu de saber. De certo, por especialistas – nada piegas – da “natureza humana”…

8 comentários em “A pieguice”

  1. Seguramente essas avaliações são avaliadas por piegómetros bem calibrados e manobrados pelos mesmos especialistas que usam os idiotrómetros para classificar o grau do conhecimento dos indivíduos … Portanto, nada de novo.

    Beijinhos, D. Helena.

  2. É uma das características desta nova sociedade orwelliana. Até por dentro somos vigiados e nós, para prevenir aposições de rótulos somos os primeiros a ficar de olho no que devemos e até que ponto podemos sentir. Não tenho pachorra.

    1. Estou exactamente como tu, sem pachorra para estas classificações de comportamentos que obedecem sempre a determinados tipo de critérios, do género o homem é forte, mulher é fraca, um homem não chora…

  3. Sim, quem é que tem autoridade para definir o excesso seja do que for? Todos nós somos piegas, em certas situações; todos nós somos invejosos, ciumentos, egoístas, infantis, etc. em certas situações. E quem nunca o foi, que atire a primeira pedra!

  4. Sempre foi para mim um mistério porque é que pessoas que deixaram obras geniais ao mundo, escritores, pintores, inventores, académicos, etc., se comportavam no dia-a-dia como verdadeiros mentecaptos. Ninguém é perfeito, não é verdade?

    http://2.bp.blogspot.com/-VwtCzH6v2L0/U1FnvNbvBgI/AAAAAAAATo4/jveFJPWbRwE/s1600/A+Rua+28+7+77+GGM.jpg

      1. Mário Gouveia, isso é o que se chama confundir a obra prima do mestre com a prima do mestre de obras.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *