A. Pérez Rubalcaba (1951-2019)


Diogo Novo,

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Despediu-se da política levado em ombros. Os elogios vinham de todo o lado, até de detractores. Com humor sereno e certeiro, respondia “nós, os espanhóis, somos muito bons em enterros”.

Alfredo Pérez Rubalcaba (Cantábria, 1951) entrou na política em 1982 pela mão de Felipe González, de quem foi ministro. Voltou às pastas governamentais com José Luis Rodríguez Zapatero, que quem foi ministro, vice-presidente e seguro de vida política.

Nesta última encarnação governativa, Rubalcaba geriu a terceira e derradeira negociação entre um Executivo de Espanha e a organização terrorista ETA. O processo fracassou, tal como os anteriores, ficando marcado por momentos gravosos. Ainda assim, foi o suficiente para aumentar as brechas existentes no meio etarra e, dessa forma, precipitar a derrota operacional da organização. Este vislumbre de êxito no meio de um tremendo fracasso deve-se a pequeníssimo grupo de pessoas, entre as quais Rubalcaba. A 20 de Outubro do ano passado, data do sétimo aniversário da declaração de fim da violência da ETA, escreveu nas redes sociais: “Acossado policialmente e isolado social e politicamente, o grupo terrorista teve de que admitir a sua derrota, sem alcançar nenhum dos seus objectivos.” E, para desespero dos revisionistas históricos que ainda existem no País Basco, clarificou: “A verdade esta: a democracia ganhou e a ETA foi derrotada.”

Abandonou a política em 2014 para regressar à sua profissão de origem, a de professor de química orgânica na Universidade Complutense. O “maquiavel de Madrid” deixou a política para voltar ao ponto de partida.

Na última contenda pela liderança do PSOE apoiou Susana Díaz contra Pedro Sánchez. Apesar disso, Sánchez ofereceu-lhe o lugar de candidato socialista à câmara municipal de Madrid, oferta que Rubalcaba recusou, embora reiterasse a sua lealdade ao partido e ao seu secretário-geral.

Alfredo Pérez Rubalcaba dizia que depois da política começava a vida. Foi curta. Morreu hoje, em Madrid, vítima de acidente vascular cerebral. O PSOE perde um dos políticos mais inteligentes e sagazes dos últimos 30 anos e Espanha perde uma figura central do seu processo de consolidação e desenvolvimento democrático.

0 comentários em “A. Pérez Rubalcaba (1951-2019)”

  1. Ainda bem que o recordaste, Diogo. A imagem que me ficou dele é exactamente a do homem que deu a estocada final na ETA e a de um político extremamente competente, que acabou por falhar quando colocado à frente do seu partido pelo desgaste natural e talvez também por causa desta renovação geracional dos políticos em Espanha. Merece um enorme agradecimento dos espanhóis, e particularmente dos bascos.

    1. Tens toda a razão, João Pedro. O agradecimento impõe-se.
      Foi, de facto, a estocada final, dada no momento certo, ainda que muito ajudada pela sorte. Se o tema te interessa, sugiro-te o documentário “El fin de ETA” (Justin Webster, 2017) – está disponível na Netflix. O filme tem os seus pecados – algum revisionismo histórico, alguma hagiografia -, mas é um documento com inegável valor histórico e, no que toca a Rubalcaba, sobressai o papel crucial que desempenhou e a forma humilde e abnegada como encarava a sua participação na derrota da ETA.

    1. Obrigado, Pedro, mas temo que a evocação seja curta e demasiado simples para o papel que Alfredo Pérez Rubalcaba desempenhou nas últimas décadas.
      Azar dos Távoras: ando há meses a tentar chegar à fala com ele para o entrevistar e, agora que estava perto de o conseguir, a vida (ou a morte) meteu-se no caminho. Tenho, evidentemente, pena de não lhe fazer as perguntas que tenho preparadas, mas no plano pessoal (e egoísta) tenho pena de já não ter a oportunidade de o cumprimentar.

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