A pátria está em perigo


Pedro Correia,

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A 15 de Abril, Rui Rio estabeleceu por escrito a doutrina oficial no PSD: quem entre os laranjinhas se atrevesse a criticar a gestão da actual crise pelo Executivo socialista cometeria o pecado de lesa-patriotismo. 

«Não raras vezes, aparecem os que não resistem à tentação de agravar os ataques aos governos em funções, aproveitando-se partidariamente das fragilidades políticas que a gestão de uma tão complexa realidade sempre acarreta. Em minha opinião, essa não é, neste momento, uma postura eticamente correcta. E não é, acima de tudo, uma posição patriótica», escreveu o presidente dos sociais-democratas em carta aos militantes.

Imagino que nem em sonhos António Costa tenha ousado alguma vez chegar tão longe, confundindo o Governo com a pátria.

 

Acontece que o sucessor de Passos Coelho não anda a seguir as directrizes que ele próprio estabeleceu. 

«Rui Rio critica aumentos na função pública», li há dias, com manifesta surpresa.

«Rui Rio critica apoios do Governo destinados à comunicação social», ouvi-o reclamar num telediário.

«Rui Rio critica Governo por dar mais dinheiro ao Novo Banco», atreveu-se ele, pisando claramente o risco.

Rui Rio critica até os ajustes directos promovidos pelo Ministério da Saúde no âmbito das medidas postas em prática para travar o Covid-19. Já chegámos a isto.

 

Começo a ficar preocupado. 

Um dia destes, Rio ainda acorda disposto a imitar o seu colega Pablo Casado – líder da oposição em Espanha e parceiro do PSD no Partido Popular Europeu – a disparar farpas contra a «arrogância, a incompetência e a ineficácia» do Executivo de Pedro Sánchez.

Ou lembra-se de parafrasear o novo dirigente máximo do Partido Trabalhista britânico, Keir Starmer, que denunciou na Câmara dos Comuns a «confusão» estabelecida pelo primeiro-ministro Boris Johnson no combate à pandemia.

Ou segue o rumo de Jean-Luc Mélenchon, líder da França Insubmissa, que contesta sem rodeios a «política errática» do Presidente Emmanuel Macron.

Ou – sabe-se lá – cede à tentação de endurecer o tom, imitando Nancy Pelosi, presidente da Câmara dos Representantes dos EUA e opositora de Donald Trump, que acusa o inquilino da Casa Branca de «deixar morrer» milhares de compatriotas. Ou até mesmo o ex-presidente norte-americano Barack Obama, que aludiu à gestão do seu sucessor, nesta crise pandémica, como «um caótico desastre».

 

Temo o pior. A pátria está em perigo.

24 comentários em “A pátria está em perigo”

  1. Ainda não perceberam que não há espaço para oposição em Portugal quando se tem uma comunicação social própria de uma ditadura.

    É a comunicação social que legitima a violência seja do estado ou para-estado (sindicatos etc)- obviamente que é preciso muito cuidado a criticar o Governo dos pais do regime.

    lucklucky

  2. Sinceramente, gosto de Rio. Posso estar a fazer uma avaliação errada, mas a opinião que tenho de Rio é que é um político competente e de todos os que pululam a política nacional, aquele que mais próximo vejo como um político honesto, sem telhados de vidro, capaz de lidar com as mais altas pressões e não cedendo nas suas idéias, só para ganhar alguns votos. Políticos como Rio fazem falta a este Portugal, o problema é que os portugueses não estão habituados, nem preparados para um político assim. Provavelmente habituamo-nos de tal maneira ao político artista, que não conseguimos aceitar um mais direto, mais franco, mais genuíno. Rio tem curriculum. No Porto alavancou a cidade para um progresso notório, lutou contra os velhos do restelo, no que concerne a obras que alteraram completamente o rosto da cidade e resistiu a Jorge Nuno Pinto da Costa, o que mostrou não só a sua resiliência e verticalidade, mas também a capacidade das gentes do Porto, que souberam não misturar futebol com política.
    No entanto Rio não escolheu a melhor estratégia neste caso. Se a idéia de dar tréguas ao governo nesta fase foi boa, porque foi e há que o valorizar por isso, acabou por dar tréguas a mais, retirando-se do seu papel de escrutinador. Ora isso não foi uma opção pela pátria, pois a pátria ficou a perder. E ficou a perder porque esse papel de escrutínio foi desempenhado por políticos que nem de perto nem de longe, têm a credibilidade de Rui Rio.
    No fim, arranjam-se umas notícias bonitas sobre os elevados valores de Rui Rio, com manchetes nos telejornais, citando fontes estrangeiras, que atribuem os bons resultados, à postura do PSD. Sinceramente? Notícias escolhidas a dedo para o manter na penumbra, a pensar que ganhou pontos.
    As sondagens encomendadas sabe-se lá por quem, acabam por fazer soar os alarmes. E coincidência ou não, é a partir daí que Rio regressa do marasmo, critica aqui, critica ali, posta de pescada para aqui, bitaite para ali… e o resultado é zero.
    Zero porque a sua voz não chega, zero porque atreveu-se a criticar os apoios para a comunicação social, ingénuo que foi ao pensar que Portugal era como o Porto. E é aqui que se evidencia a sua ingenuidade. Pensar que quem derrota Pinto da Costa no Porto, derrota os media no resto do país.
    E é por isso que gosto de Rio. Não se vende. Não se priva de apontar o dedo à injeção de 15 milhões de euros nos media, mesmo sabendo que os media o vão encolher.
    E com esta sua atitude de grande patriota, Rio só fez com que a sua voz não se ouvisse, seja por ser abafada, seja porque os portugueses se habituaram a não a ouvir.

    1. Rio é um desastre.
      O que está é ainda pior.

      “Se a idéia de dar tréguas ao governo nesta fase foi boa, porque foi e há que o valorizar por isso,”

      Não há que valorizar nada. É só ler as asneiras vindas da boca da DGS, para a própria DGS dizer o contrário semanas depois. As máscaras eram um “pedaço de pano” e agora são obrigatórias e levas com uma multa ou pior.

      É este o estado da ciência.

      Já se está a desenhar a perseguição nas praias quando as praias são fundamentais para os UV’s e manter os níveis de vitamina D de boa parte da população essenciais para a imunidade.

      A DGS lembre-se é uma entidade política uma vez que o Estado controla quase tudo em Portugal.

      Para finalizar desde que chegou ao poder Rui Rio dá tréguas ao Governo porque o que resta ao falhanço cultural de uma parte e a coerção dos média é o PSD ser muleta do PS.

      lucklucky

      1. Vamos concordar em discordar. A idéia de deixar o governo trabalhar sem pressões, numa altura de crise na área da saúde, com impactos profundos na vida (literalmente) dos portugueses foi boa. Foi boa e demonstra o elevado nível moral de Rui Rio. Rio demonstra com a sua postura inicial, que é aquele tipo de profissional com valores éticos, com os quais qualquer pessoa gostaria de trabalhar. Por outro lado, também demonstra alguma ingenuidade. Ingenuidade no sentido de nunca pensar que o nível de incompetência de certos organismos públicos fosse tão elevado. Ingenuidade no sentido de nunca acreditar que certos organismos públicos, que apesar de públicos deveriam ser independentes, afinal não o são. E é aqui que Rio falha. Falha porque é muito melhor ser humano que Costa. Falha porque tem princípios muito mais elevados que Costa.
        Falha porque acreditou que Costa iria abdicar das suas manobras, por este ser um momento muito sério da sociedade portuguesa.
        Falha porque pensou que Costa iria ter alguma elevação, visto o problema não se resolver com austeridades, ou injeções de capital, ou troikas, ou seja, o problema é muito mais valioso que o dinheiro, é a vida.
        Falha porque Costa é Costa e Rio achava que, por uma vez na vida, Costa não ia ser Costa.

    2. Excelente comentário, concordo com praticamente tudo.

      Eu não sou um adepto de Rui Rio, o qual é um social-democrata enquanto eu sou um liberal, mas gosto dele como político honesto e sério que me parece ser.

      A comunicação social está a fazer um papel vergonhoso, limitando-se a seguir e reforçar a tese da covid como uma doença extremamente perigosa da qual é essencial protegermo-nos. Para uma comunicação social assim, que mais não faz que seguir a liderança governamental, não vale a pena o erário público dar qualquer contribuição.

  3. É verdade que RR tropeçou na patetice de confundir oposição com falta de patriotismo e esteve em silêncio quando não devia, mas já está com as agulhas alinhadas.

    É bom não alimentar o vespeiro do PSD. Não vão lembrar-se de começar novamente a pôr-se em bicos dos pés ansiosos por mostrar como se faz muito pior.

  4. O PS de António Costa nunca teve problemas em criticar o governo PSD/CDS, quando este estava a tentar tirar Portugal do abismo onde o mesmo PS, onde pontificava o mesmíssimo Costa, o lançou.
    Admitindo que Rui Rio é um político e um cidadão sério e honesto, tem o azar de ser sério e honesto frente ao PS e António Costa.

  5. Num país de espertalhões, o Rio é o equivalente a um tanso.

    A sua capacidade técnica enquanto governante não sei avaliar, talvez um portuense o consiga fazer.

    1. Não sabe avaliar? Mas o Porto fica numa latitude assim tão distante? Eu sou do Porto e consigo avaliar um autarca de Lisboa, de Coimbra ou do Funchal. Sem precisar se lá ir.
      Mas permita-me responder: foi o melhor presidente de câmara do Porto e talvez o melhor de todas as câmaras do país. Lavou a cara de uma cidade envelhecida, fechada em si mesmo, que desabrochou para o exterior, seja nacional, seja internacionalmente. Criou as bases para o Porto destino número um da europa e do mundo, aumentou incomensuravelmente as oportunidades de negócio dentro da cidade, tornou-a atraente, fashion e cosmopolita.
      Fez do Porto um ótimo sítio para investir, criou condições para o investimento.
      Ao mesmo tempo fez uma coisa que só por si, merecia uma estátua… equilibrou as contas. Pegou uma autarquia com dívidas até às orelhas e deixou-a com saldo positivo. Ora tendo em conta que isto aconteceu em Portugal e RR é português, vem dar muito mais valor à coisa. Não se esqueça que aqui dão-se prémios a gestores de instituições que têm menos prejuízo que no ano anterior.
      RR mostrou a sua raça quando enfrentou o FCP e Pinto da Costa.
      Com o enorme risco de deitar tudo a perder, ganhou ainda mais.
      Eu como portista, acérrimo defensor do presidente de todos os presidentes, votei sempre RR. Eu e muita gente que conhecia. Mas o tripeiro é diferente dos outros. Quando ama, ama loucamente… mas nunca ama cegamente.
      E é este o único ponto em que aceito que não tenha conhecimento sobre RR. A coragem, a firmeza e a competência que se tem de ter, para enfrentar o FCP e PdC, no Porto, e ganhar. Tem de se ser muito bom.

      1. Não, não sei.
        As análises exteriores valem o que valem. Quem mora lá deve saber coisas que os de fora desconhecem.

      2. Subscrevo quase inteiramente, especialmente na capacidade de RR para sanear contas e no juízo demonstrado pelos portuenses que são portistas em não trocar alhos por bugalhos. Só não alinho no ‘é o melhor’. A devolução não chega a tanto.

        1. Num país pejado de corruptos, cheio de cunhas e amigos dos amigos, lobbys, gestão danosa em imensas instituições e câmaras municipais atoladas de dívidas, quando aparece alguém que consegue apresentar resultados positivos e ao mesmo tempo modernizar e criar riqueza e oportunidades de negócio para os munícipes, tem de ser considerado o melhor.
          Alguém se lembra de alguma Câmara Municipal com contas certas na primeira década do milénio? Eu não me lembro. Muito menos uma autarquia com o tamanho do Porto.
          Os resultados de RR comparados com os resultados de qualquer outro, falam por si e elevam-no a melhor.
          Mas lanço o desafio de exporem algum nome que tenha conseguido resultados melhores, em municípios de idêntico tamanho. E cujo trabalho tenha tido eco no futuro.
          Não há. De Bragança a Faro, não há. Daí o título de melhor.
          E já agora, sobre futebol, vejamos a postura de RR com o FCP e a postura dos autarcas da capital com o Benfica e com o Sporting… mais com o Benfica.
          Vejam a postura de RR com o FCP, comparada com a postura de Luís Filipe Menezes em VN Gaia… negociatas inconcebíveis para uma autarquia que à epoca estava na bancarrota.
          Vi nascer um novo Porto com Rui Rio e gosto cada vez mais dele. Vi um Porto sujo e pobre, inseguro, onde tinha receio de sair de casa a partir das 22h, repleto de lojas fechadas a cair de podre. Com Rio o Porto tornou-se vivo, ativo, com vida a pulsar em cada esquina. Com negócios, movimento, mais limpo, mais animado, mais seguro, mais alegre.
          Desculpem-me a emotividade, mas quem viu o Porto à 25 anos atrás e o vê hoje, agradece a Rio sempre que sai à rua.

          1. Quem vive no Porto e viveu em Gaia ao tempo de Menezes percebe bem e como é verdade o que diz. Um descalabro de contas. Mas se formos pelo embelezamento temos que recordar como era horrenda a marginal marítima de Gaia e naquilo em que Menezes a transformou. E não foi obra fácil. Apesar de saber que nunca se preocupou com a conta.

          2. Essa foi a sua maior obra e ao mesmo tempo a sua mais injusta decisão. Porque Gaia não é só a marginal, não é só a praia nem o cais. Gaia é 2 ou três vezes maior que o Porto e atravessando Gaia do cais até sandim, passando por sermonde ou seixezelo, parece que passamos por dois países diferentes.
            E o problema é que até hoje essa diferença contínua acentuada. Para Menezes Gaia é o cais, a afurada e a praia, o resto é paisagem. Mafamude é a freguesia com mais habitantes e nem parece pertencer ao mesmo concelho, já olival ou grijó, nem parecem pertencer ao mesmo país.
            Menezes apostou tudo em 20% do seu município e a única aposta que fez no interior do concelho foi o centro de estágio do FCP, a preço de saldo. Muito pouco.
            E a cereja no topo do bolo foi transferir as comunidades ciganas que habitavam a zona marítima para o interior, para o olival, lever, grijó…
            Menezes foi um autarca de betos para betos. Foi um autarca que apenas privilegiou os privilegiados.
            Menezes tinha à época os maiores polos industriais em canelas e em oliveira do douro e nunca modernizou aquelas freguesias. Menezes marginalizou completamente os gaienses que não vinham da costa, os mesmos gaienses que também tiveram de andar a pagar as dívidas que ele deixou, com a diferença de não terem recebido nada em troca.

  6. Se bem compreendi, é mais ou menos como ir com os da feira e vir com os do mercado.

    E gritemos todos em uníssono.
    Salvé honrosos filhos que ditosa terra gera. Honrem a Pátria que a Pátria vos contempla.

  7. Espero que a mensagem do Rio seja a de não querer imitar o soalheiro infame do PS quando está na oposição.
    A dúvida é saber se quer meramente ajeitar o sistema ou se lhe quer dar remédio.
    Para remédio tem que ser forte laxante.

  8. Francamente, não compreendo porque razão se tecem tantos elogios a Rui Rio. Se, enquanto presidente da Câmara do Porto, pôs as contas em ordem, foi, precisamente, à custa duma gestão do município por inércia: nenhum plano para a cidade se traçava, apenas se avançava com o que estava pré-definido pelo executivo anterior. Alienou património no montante de 80 milhões (praticamente equivalente ao valor do passivo eliminado). Fez cortes, muito além do razoável, nas actividades culturais, etc.
    Como administrador da Metro do Porto envolveu-se, em co-autoria, nas trapalhadas que são de conhecimento público, e que, seguramente, não lhe enriqueceram o currículo!
    De resto, acumulou fracassos na recuperação do mercado do bolhão e do pavilhão Rosa Mota – que borregou sucessivamente -, bem como na criação do ‘Fundo do Aleixo’.
    Quanto à batalha que travou com Pinto da Costa a propósito do PDM das Antas, foi mero acto de propaganda política, atendendo ao facto de que para Pinto da Costa o que estava em causa era a construção do estádio e não a envolvente económica que o sustentava – que assentava naturalmente num acordo entre a autarquia e o conjunto de investidores liderados pelo grupo Amorim. E que, sendo este posto em causa por Rui Rio, naturalmente inviabilizaria a construção do estádio. No final, chegariam a um acordo, e, como é costume, ambos cantariam vitória – ainda que de costas voltadas devido ao desgaste que tais negociações provocaram, sobretudo pelo facto de haver prazos para a construção do estádio, impostos pela UEFA, que estariam comprometidos se não fosse rapidamente posto fim ao diferendo.
    Meritória a realização de importantes obras de recuperação de bairros sociais – sem dúvida. E a saudável desparatizacao do aparelho administrativo camarário, que funcionava em modo CGTP. Mas pouco mais.
    Como líder partidário não me convence: demasiado social-democrata e demasiado confiante na ética política do governo – o que me parece uma ingenuidade ( ou será manha?!) imperdoável. Sendo que o pior de tudo é que não faz oposição, convencido que o levará ao poder o mesmo eleitorado que elegeu o actual PM: depois de maiores ou menores trapalhadas este fartar-se-à de aturar o Costa e verá nele um clone mais fresco e mais motivado, prontinho para o substituir.
    Será mais competente como primeiro-ministro do que Costa, mas cultiva um estilo um pouco d`ej’a vu em Cavaco Silva, que, sinceramente, não me agrada.
    No confronto político –
    com opositores internos, ou com externos -, parece-me demasiado sonso – o que até poderá ser vantajoso dado o carácter pouco frontal dos portugueses.
    Muito senhor de si e demasiado convencido da imprescindível natureza do seu carácter. Parece que o estou a ver, ainda jovem, às segundas-feiras, com a determinação de quem não tem tempo a perder, a abandonar a amena cavaqueira com amigos, no Café, e dirigir-se ao seu pequeno Mazda preto, rumo à capital do império, onde se esculpia um futuro político promissor!

    J M

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