Notícia do dia: José Sócrates tornou-se opinion maker do Público. Pode ser o início de uma carreira alternativa à política, actividade que desenvolveu em exclusivo durante toda a sua vida adulta.
Foi, no entanto, uma estreia pouco auspiciosa. Neste artiguinho destinado a justificar a decisão governamental de exercer um veto político numa empresa privada, contra a opinião do Conselho de Administração e da esmagadora maioria dos representantes dos accionistas, o primeiro-ministro jamais demonstra convictamente que “interesse nacional” poderá justificar o veto governamental a uma decisão legítima da PT – um gesto que por momentos faz recuar Portugal ao período da economia estatizada e não tardará a ter efeitos contraproducentes assim que o Tribunal das Comunidades chumbar esta golden share.
Como o insuspeito Vital Moreira hoje assinala na Causa Nossa, “as instituições da UE não aceitam as golden shares e a decisão vai ser seguramente impugnada na justiça europeia”, podendo até suscitar uma OPA da Telefónica sobre a PT. Mais uma trapalhada à vista – a juntar a tantas outras.
Mas afinal que “interesse nacional” pode ter estado na origem deste veto? “A PT é uma empresa muito importante para o País. E a participação da PT na Vivo é um activo estratégico de sucesso no mercado brasileiro – é mesmo a empresa de telecomunicações nº 1 no Brasil. Sucede que a internacionalização da PT e a sua presença no Brasil é absolutamente fundamental para a economia portuguesa”, escreve Sócrates nesta sua nova pele de colunista do Público.
A participação da PT na Vivo é vital para os interesses nacionais? Nada que tenha convencido o Financial Times. “A estupidez colonial ainda não morreu [em Portugal]”, comenta o prestigiado jornal londrino, que a propaganda socrática tanto gosta de invocar nas raras vezes que ali surge uma boa notícia para a economia portuguesa.
É, em síntese, uma decisão mal fundamentada, atentatória da liberdade negocial e do princípio basilar da livre concorrência, possivelmente ferida de ilegalidade à luz do direito comunitário e provavelmente geradora de efeitos muito mais perversos do que aqueles que pretenderia atenuar. E quase tão incompreensível como o pesado silêncio que o Presidente da República tem mantido nesta matéria.

como escrevi no FB: Dia 8 é previsivel que Sócrates vá cozer com batatas as 500 acções que o Estado detém na PT.A acontecer será mais uma trapalhada que envergonha o país.
p.s. Caro Pedro tem página no FB?
abraço
Por enquanto ainda não, meu caro.
Abraço
Fala-se muito do P.I.B., sempre do P.I.B. e só do P.I.B.. Ora o valor da produção em território nacional muitas vezes some-se em P.N.B. doutros países. Os lucros da Qimonda foram sempre parar à sede na Alemanha e quando a casa-mãe faliu, o património duma unidade produtiva (plenamente operacional) em território português foi cobrir a falência. Dantes gerava P.I.B., mas não mandávamos nele. Isto importa, pois, quanto retorno de lucros do capital se haveria de subtrair ao P.I.B. gerado da Qimonda?
Ninguém faz a conta.
Tal como do P.N.B. português ninguém fala. Quanto lucro das Teixeira Duarte e das Mota-Engil em Angola – ou da Vivo nas mãos da Telecom – torna a Portugal? Não há quem no divulgue. Financia partidos? Pode ser…
Talvez afinal haja mais massa de que ninguém fala (e olhe que ela nota-se).
Mas nada disto é ponderado no ‘interesse nacional’ que o articulista do Público refere. No P.S. sempre se confunde o partido com o estado. Já vê, pois, o ‘interesse nacional’ do articulista?!…
Cumpts.
Excelente reflexão que aqui nos deixa.
Cavaco já perdeu o meu voto, mas aqui não sei o que poderia fazer.
Talvez dizer que a situação “é insustentável”…
Regime carunchoso – Parte II
Esses escritos admiráveis,
de tão doutos comportamentos,
são, sem dúvida, memoráveis
dos actuais deslumbramentos.
Estas acções tão douradas
são muito questionáveis,
em mãos deterioradas
ganham cores enfunáveis.
A verve continua em forma, meu caro.
Estranho… eles normalmente passam para administradores de grandes empresas privadas e não para colunistas… ou será que Sócrates está em estágio?
Um dia ainda o haveremos de ouvir comentar jogos de futebol na televisão.