A noite não vem sem sinais


Pedro Correia,

Protestar contra o Governo cantando a Grândola é uma originalíssima forma de manifestação política que tem merecido até admiração internacional. Como admitiu o primeiro-ministro na Assembleia da República, “de todas as formas que uma sessão possa ser interrompida, esta parece-me a de mais bom gosto”. Passos Coelho, que é barítono, reagia com fair play à versão mais afinada da senha da Revolução dos Cravos que temos escutado ao longo destes dias – mérito de Carlos Mendes e do cantigueiro Samuel, entre outros cantores que compareceram naquele dia na galeria do Parlamento.

Sei de cor a letra da Grândola e de muitas outras canções de José Afonso – e garanto que sou capaz de cantá-las sem desafinar. Até por isso, tenho-me espantado de ver tanta gente eleger como forma de protesto este tema enquanto ignora os versos e desfigura a música até ao limiar da caricatura, como os telediários têm registado.

Mais surpreendido ainda fiquei ao tomar conhecimento, pela reportagem do Público, da fraca adesão que teve ontem – dia do 26º aniversário da morte do autor de Menino do Bairro Negro – a romagem ao cemitério de Setúbal, onde o cantor está sepultado numa campa humilde. Sem pedra tumular, como era seu desejo.

A obra de José Afonso, cujo talento ultrapassava fronteiras partidárias, trincheiras ideológicas e barreiras geracionais, merece ser assinalada como inestimável património musical português. Aqui fica a minha singela homenagem ao talento de um músico prematuramente desaparecido, com um dos seus temas de que mais gosto.

“No lago do Breu, / Sem luzes no céu nem bom Deus / Que venha abrasar os ateus, / No lago do Breu. // No lago do Breu, / A noite não vem sem sinais / Que fazem tremer os mortais, / No lago do Breu.”

 

12 comentários em “A noite não vem sem sinais”

  1. Excelente post .

    Mas alguém dali quer saber de José Afonso ?
    Será que alguém dali sabe sequer mais do que o nome dele e uma vaga noção da letra e música ?

    É porque , se soubessem , não andariam a abastardar “Grândola , vila morena” .
    Teriam no cancioneiro dele canções muito mais apropriadas para os objectivos que dizem (dizem…) perseguir .

  2. Que antes de Grândola houve Oh Vila de Olhão.E pareceu-me ouvir “glândula bila morena”.Durante o preque(este som…) houve gente que descia a avenida,integrada nas gloriosas marchas anti-tudo, cantando a celebration of the lizard dos doors.Como dizia o irmão:o importante é entrar numa.E debaixo do soalho está a praia.

  3. Queremos sempre ser herdeiros, quando nos convém, das fortunas que nos calharam em sorte.
    Mas usamos alarvemente o distinto descaramento de passear no esquecimento quem nos deixou o legado.

  4. Como tu, sei de cor muitas das canções de Zeca Afonso. São intemporais de tão boas. E o que mais me custa nesta epidemia de Grândola por tudo e por nada não é ouvi-la mal cantada, é vê-la vulgarizada ao ponto de já se ter tornado quase uma anedota.

    1. Coincidência. Respondo ao teu comentário, Ana, e ainda há pouco trauteava “Vejam bem / que não há só gaivotas em terra / quando um homem se põe a pensar. / Quem lá vem / dorme à noite ao relento da areia / dorme à noite ao relento do mar.”

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