Em todos os funerais e velórios em que estive presente, nunca vi uma criança, facto que registei sem surpresa. Eu própria fui poupada a esses rituais durante toda a minha infância e até às notícias sobre o falecimento de pessoas a que me uniam laços de sangue. O assunto da morte era tabu, muito mais que o sexo, pois se o sexo embaraçava, a morte pertencia a outro patamar, inominável.
Não sei o que aconteceu com as pessoas a quem foi escondida a morte durante a infância. Este proteccionismo em mim resultou numa relação complicada com a senhora da foice. Primeiro virei-lhe as costas, recusando-me durante a adolescência a pôr os pés num cemitério ou numa casa mortuária. Depois, já adulta, quando a passagem do tempo começou a deixar marcas indisfarçáveis nas pessoas que mais amava, decidi que era tempo de me preparar para uma doença que sabia ser incurável e que um dia, se não morresse primeiro, me iria matar de desgosto, uma e outra vez, com a cadência dos grandes ritos.
À medida que fui perdendo as pessoas de que sou feita, percebi que esta relação complicada que na nossa cultura temos com os velhos é consequência directa da deficiente assimilação do fenómeno da morte nas nossas vidas. Apartar as crianças dos rituais fúnebres é ensiná-las a erguer uma barreira entre o mundo delas e o mundo em que se morre. O desespero que a velhice nos inspira – a nossa e a dos que amamos – tem a ver com a desconstrução desse modelo de conforto em que nos instalaram em pequenos e de onde, por mais maduros que nos achemos, não queremos sair.


Inteiramente de acordo. Para evitar isso é que as minhas filhas foram habituadas a ir a funerais desde sempre. Claro que muitas pessoas nos criticavam por isso, incluindo aquelas que para lá iam contar anedotas…
Fez bem, Mário. Passamos a vida a dizer que “a morte faz parte da vida”, mas na hora da verdade escondemo-la e escondemo-nos dela.
As anedotas começaram por me chocar, depois acabei por percebe-las. São, na maioria dos casos, um escape. O humor e a tragédia, como se sabe, acompanham-se desde sempre.
Prezada Teresa Ribeiro,
Gostei do seu post e acho que tem toda a razao. A morte – ou pelo menos a forma como nos a vimos – e essencialmente um problema cultural/social de sociedades como a portuguesa. Efectivamente os nossos cemiterios sao contruidos quase sempre afastados das zonas urbanas, fechados a 7 chaves e com historias de terror pelo meio. Muito raramento velamos os nossos em casa, preferindo as sempre frias casas mortuarias. E para cumulo ja nem conseguimos suportar o silencio de um minuto quando queremos homenagear um defunto.
Muito raramento velamos os nossos em casa
Na aldeia de onde o meu pai era originário essa era a tradição: velar o morto em sua casa. E eu ainda me recordo de, não há muito tempo, ter lá ido a um velório assim, no qual o cadáver de um primo do meu pai estava a ser velado na sala de estar da sua casa. Não foi há muitos anos.
Há que ver que, nas aldeias de antanho, pura e simplesmente não havia capelas mortuárias.
Nos países católicos infelizmente é assim. Cultiva-se esse temor, para induzir nos fiéis um comportamento exemplar durante a sua vida na Terra. Para os bem comportados a passagem será doce, para os que vivem em pecado na melhor das hipóteses seguem direitinhos para o purgatório…
A resposta saiu fora do sítio, sei lá porquê. Era para o Jose F.
A si Lavoura coube-lhe uma experiência que está fora de causa em ambiente citadino. Creio que so mesmo nalgumas aldeias perdidas é que se velam parentes em casa.
Creio que a nossa consciencia é ainda muito pequena para lidar com a morte – negamo-la a todo o instante, durante toda a vida. Por issso lutamos para não a encarrar, lutamos para viver e para tal, se for necessário, até matamos (salvo seja). Como seres vivos, sentimo-nos especiais, tão especiais que nos queremos imortais.
Daí o envelhecimento ser um embaraço e os velhos seram tratados cada vez mais como párias da sociedade.
Muito bem, Teresa.
Olhe, tome lá:
https://www.youtube.com/watch?v=w8EXDtoG frs
Esta rapariga do riverdance vi-a ao vivo. É uma corça. Dá cá uns pulinhos!
Bué fixe
É preciso construir algo senão só vamos perdendo.
https://www.youtube.com/watch?v=1BRqA3DS mpc
Não ouvia esta canção há muitos anos. Sempre bonita e com texto apropriado à nossa reflexão. Obrigada, Lucky
Post muito oportuno e com o qual estou totalmente de acordo. Apesar de também eu proceder do mesmo jeito e poupar as minhas crianças, e as já não tão crianças assim, protegendo-as do contacto directo com esse momento de corte brutal com a vida o qual é, sim, algo muito triste e irremediável. E, apesar de toda a argumentação de que deveríamos ser preparados para a morte, a verdade é que, eu acho, nunca estaremos preparados, não enquanto mantivermos a capacidade de nos empolgarmos com a vida. É, então, uma defesa, mas também sabemos que nunca estaremos defendidos. Na verdade, não tenho certezas … mas é um bom tema de reflexão.
Fátima, também protegi os meus filhos quando eram mais pequenos. É difícil resistir à tentação. Mas quando comecei a sofrer as perdas mais pesadas percebi que a dor é mais brutal quando não somos preparados para as inevitáveis perdas.
o pior pesadelo de um pai é sem dúvida perder um filho. Creio que o tábu, a não envolvência das crianças no ritual da passagem, a impreparação para explicar o fim sem empolgar medos e inseguranças, se deve ao facto do receio que todos os pais têm em associar os filhos com a inevitabilidade do caminho que todos percorremos . tretenimento/visitas-guiadas/visitas-ao-c emiterio-dos-prazeres
Reconheço a dificuldade que tive em fazer entender ás minhas filhas, quando do passamento inesperado e fulminante de meu pai, que a morte, aquele conceito assustador mas vago, é a única certeza que temos Desde que nascemos e que o avô nâo iria voltar para o nosso convívio. Foi uma desesperante tortura ter que encontrar respostas que desconheço, mas que naquele momento ajudaram a que nos encontrássemos todos no mesmo abraço de lágrimas.
Passados 20 anos, noto que cada vez mais se banaliza a morte, que continua aquele conceito assustador, mas cada vez mais vago e sobreposto pela ideia da indestrutibilidade que nos é oferecida pela (ir)realidade das consolas.
Mas há iniciativas louváveis , como esta,
http://www.cm-lisboa.pt/visitar/lazer-en
Chocante, a princípio, foi reconhecida como pedagogicamente bem estruturada e interessante. Cada pedra tumular, cada jazigo conta uma história de vida e de morte, o Aleph e o Tav, o princípio e o fim.
Excelente leitura, Teresa.
Obrigada pela partilha, Maria Dulce.
Também já estive nessa encruzilhada, Teresa. Decidi que os meus filhos não fossem. Creio que teria sido melhor que tivessem ido.
Pois, fiz o mesmo. Mas depois não faltam oportunidades para emendarmos a mão. Fatal como o destino.
O assunto é delicado porque acarta sofrimento. A mudança de mentalidades é difícil, parte dos adultos e eles não estão preparados… Confrontar uma criança com a morte implica vê-la ter consciência da perda e estar ao lado dela, mesmo quando não nos sentimos capazes de estar. Protegemos a criança, e protegemos o nosso eu, ao mesmo tempo… Sou a favor de que sejam envolvidas no processo, mas com cautela, muita cautela, jamais num funeral com desespero associado. Num momento mais intimo, mais pessoal, devidamente protegido, dentro do possível…
Este é um assunto que merece ser pensado, de facto…
Claro, Carla. Devemos introduzir o fenómeno da morte às crianças com pinças, mas nunca elidi-lo, como é nossa tentação.
Teresa que belo texto tu escreveste. Perder aqueles de que somos feitos dói, mas é a lei natural das coisas. Já perder quem fizemos é contranatura.
Ensinar a conviver com a morte deveria ser tão importante como ensinar qualquer outra matéria que respeite à vida.
É isso mesmo, Helena. Esta cultura pateta que nos infantiliza e fragiliza não nos ajuda em nada do que é essencial.
Tens toda a razão…
A nossa sociedade, sobretudo após a 2ª Guerra Mundial, tem atirado para baixo do tapete, o que desagrada aos sentidos, o happy end é rei.
A morte e a doença, na Sociedade do forever young e da plástica, deixaram de ser coisa normal e transformaram-se em coisa a evitar, desagradável e insalubre,foram expulsas das nossas casas, das nossas vidas e entregues a quem sabe, aos profissionais…
Entretanto, os velhos deixaram de ser a raridade prezada e valorizada do passado nas famílias alargadas e tornaram-se banais, um fator de despesa, uma chatice para as famílias sem tempo e sem espaço.
Relacionado com a morte, mas a outro nível, não deixa de ser curioso o desconhecimento por parte de muitas crianças, da ligação entre as carnes embaladas assepticamente no Supermercado e os animais alimentados e mortos para alimento.
Acabou a festa da matança do porco, o corta pescoço das galinhas.
Também aqui a morte foi entregue aos profissionais e retirada das nossas vidas.
Para os miúdos a comida cresce literalmente no Supermercado!
Já para não falar da Guerra moderna, cada vez mais parecida e confundida com um jogo de computador.
A sociedade dos filhos únicos, ou quase, que estamos a criar, concentra inevitavelmente o investimento financeiro e afetivo das famílias modernas nos filhos e portanto no futuro, no futuro melhor, no futuro feliz, onde a morte não mora.
A falta e a saudade que nos fazem os que já partiram e evitamos dar a conhecer aos nossos filhos, é apenas um adiamento que sabemos inevitável.
Sabemos que mais tarde ou mais cedo a nossa morte e o sofrimento deles chegará, mas até lá que sejam felizes e prósperos…
A morte e a doença e a fraqueza e as más notícias e os pequenos azares, tudo isso está banido do blá-blá social. Conveniente é mesmo viver com um sorriso as 24 horas do dia, mas atenção, prevenindo as rugas que se formam ao canto da boca.
Importante evitar o efeito da força da gravidade nalgumas zonas do corpo e da alma. A felicidade, a felicidade, a felicidade, é que é.
Dizes uma coisa sobre os velhos muito interessante: antes eram valorizados, por serem uma raridade, hoje são banais. Vai-se a ver e também a nossa relação com os velhos está condicionada pelas leis do mercado.
Olá cara Teresa,
Foi de longe a melhor explicação que alguém me deu para o meu próprio problema. Andei muitos anos à volta da questão e acabei sempre por atribuí-lo (ao meu problema) a uma ou a outra perda específica.
Agora percebo que estive sempre enganada.
Muito obrigada.
Vou ‘roubar’.
Obrigada eu, Uva. Roube à vontade.
Tens razão, temos uma relação muito pouco saudável com a morte. Não sei se é herana católica ou se será ainda mais afastada. Em países cristãos ortodoxos (do que conheço) há uma relação que me parece mais saudável. Os mortos são honrados com frequência mas são referidos de certa forma como se fossem vivos: deixa-se comida e bebida nas campas, os cemitérios são frequentemente mais parques que depósitos de sepulturas (embora isso se veja por vezes também em cemitérios católicos) e até é comum aquele hábito curioso de deitar um pouco da bebida para o chão quando se evoca determinada pessoa. Será talvez uma herança dos tempos pagãos quando os mortos nunca nos deixavam verdadeiramente.
Fiquei chocada quando a primeira vez que viajei para um país de religião predominantemente protestante percebi que se não todos, pelo menos alguns cemitérios eram jardins, sem muro à volta e onde as famílias iam piquenicar aos fins-de-semana.
Agora percebo e até me parece um hábito saudável. É importante fazer a inclusão da morte nas nossas vidas, porque é essa a realidade, quer queiramos quer não.
Na região onde nasci e vivo, existe uma relação forte e próxima com a morte.
Os funerais são actos de grande respeito, muito bem coreografados, com as bandeiras das irmandades e o pároco a abrir o cortejo, duas filas direitinhas de acompanhantes que seguem a pé, silenciosos, transportando os seus ramos, precedendo o carro funerário, após o qual caminha a família, normalmente enlaçada.
Todas as sextas à tarde ou sábados de manhã há grande movimento para o cemitério, onde os familiares (normalmente as mulheres, mas já tenho visto homens e até rapazotes adolescentes) vão compor as campas e os jazigos. Atravessam a vila com baldes cheios de flores e de verdes, colhidos nos quintais e nas sebes, cumprindo a tarefa com carinho, respeito e, claro, uma pontinha de vaidade.
Desde pequena acompanhei a minha avó ou as criadas nesse preceito. Ajudava a limpar e a arranjar as jarras, sentava-me na campa, aproveitava todos os ensejos de um enterro de criança para ir espreitar os “anjinhos”, que dormiam tão suavemente nas suas sedas brancas.
Mais tarde, já adulta, e à medida que as responsabilidades de manter as campas decentes e mimosas me chegavam, sempre que podia levava os meus filhos comigo; hoje levo as netas, que muito compenetradas transportam as flores percebendo que transportam saudades, mesmo para pessoas que não conheceram mas que sabem terem sido elos da cadeia que as fez ser o que são.
Talvez por ter sido criada nesta “tradição” local, quando visito terras perdidas por esse Portugal fora gosto de ir ver os seus cemitérios e de ler as inscrições, datas e nomes: ver como a pneumónica sorveu famílias, como a guerra colonial fez os seus mortos jovens (tal como hoje os acidentes da estrada), estudar um pouco a estratificação social do lugar.
É certo que muitas vezes não são espaços bonitos, pesados nos seus mármores e pormenores rebuscados, mas são silenciosos e recatados; neles se recorda a verdade tão certa que mais cedo ou mais tarde nos espera a todos.
Antes de começar a leccionar AEC’s de Inglês numa escola primária (este ano), eu pertencia ao grupo daqueles que se insurgem contra estrangeirismos como o dia das bruxas.
A verdade é que não imaginava até que ponto esta comemoração já está presente no imaginário das nossas crianças, pelo fui surpreendida pelo entusiasmo com que a abraçam.
E rendi-me.
Rendi-me ao modo como a morte é, muito naturalmente, exposta aos olhos dos miúdos – quase celebrada – encarada e assimilada. Sem pudores, sem medos, sem tabus.
E quando numa turma de 25 alunos vestidos de esqueletos, um aluno me perguntou, cheio de entusiasmo, como se dizia morte em Inglês, eu não pude deixar de pronunciar a morte com um sorriso.
Death.
As simple as that.
E concordo com o título deste texto – a morte é, definitivamente, para se ver. Ninguém cresce sem verdade.