A morte do jornalismo


Pedro Correia,

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Um dos mais conceituados jornais à escala global, o espanhol El País, saiu hoje para as bancas com esta “capa”: um anúncio de página inteira. Mas não é um anúncio qualquer: trata-se de um investimento publicitário com a chancela do milionário grupo empresarial chinês Huawei, em óbvia estratégia de contenção de danos no âmbito da guerra fria que se desenrola entre Pequim e Washington na disputa da hegemonia do mercado mundial das telecomunicações.

«Nenhum computador deixou de funcionar em 2000. Nenhum Huawei vai deixar de funcionar. Calma, todos os produtos Huawei poderão continuar a ser usados com total normalidade. Tanto os já vendidos como os que estão por vender. E também todas as suas aplicações.» Assim reza o texto que substitui a habitual manchete do jornal de maior tiragem em Espanha.

Vejo isto e recordo outros tempos, com directores de jornais onde trabalhei, que faziam prevalecer a sua autoridade perante os publicitários que pretendiam condicionar a linha editorial desses periódicos. Havia espaços interditos aos anúncios – e a venda da primeira página era um deles – e nem todos eram publicados: aqueles que colidiam com o estatuto editorial ou os grandes princípios orientadores desses títulos jornalísticos, colocando eventualmente em risco a isenção na cobertura dos temas mais controversos, eram devolvidos à procedência. E havia uma claríssima linha divisória entre o que era conteúdo jornalístico e conteúdo publicitário.

Tudo isso acabou. Inclusive nos diários ou semanários que conservam um número apreciável de leitores e algum prestígio granjeado em dias de glória ainda capazes de despertar recordações nostálgicas. Mas o que esta primeira página simboliza, com toda a sua força expressiva, é a morte do jornalismo tal como o conhecemos no Ocidente nestes últimos dois séculos. O que resta é a publi-reportagem, a estória “fofinha”, o evento “giro”, a narrativa feel good muito amiga dos anunciantes. Informar passou de moda: o que está a dar é entreter. Com a chancela – implícita ou explícita – de marcas, empresas, clubes ou seitas. Os departamentos de publicidade, marketing e relações públicas são hoje os que têm maior capacidade efectiva de decisão editorial na generalidade dos títulos jornalísticos. Incluindo os mais prestigiados, como se vê.

A partir de agora, aguardarei por notícias no El País que possam colidir com os desígnios comerciais da Huawei. Mas confesso desde já que vou esperar sentado. 

0 comentários em “A morte do jornalismo”

  1. E é uma primeira página real? Ou uma primeira página em cima da primeira página real? Lembro-me de o Público o ter feito algumas vezes na altura em que ainda vivia em Portugal (algumas vezes era uma “primeira página” com metade do tamanho para tonrar claro que a verdadeira primeira páina estava por baixo). Não torna o conceito muito melhor, mas ao menos não seria tão mau.

    1. Compreendo o que quer dizer…mas, João André, a 1ª página é a 1ª página! as outras, pela lógica, as seguintes…

      É o que temos, Pedro Correia. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades…e, contra factos não há argumentos.

        1. Pedro, estou inteiramente de acordo com o seu “desabafo”!…não critiquei o que escreveu, antes pelo contrário.

          [obrigada. irei ver/ler.]

  2. A partir de agora, aguardarei por notícias no El País que possam colidir com os desígnios comerciais da Huawei.

    Este sempre foi um problema do jornalismo, isto é, não é de agora: um jornal dificilmente pode dar notícias que colidam com os interesses dos seus principais anunciantes.

    Está tudo nos clássicos estudos de Edward Herman sobre o tema.
    https://en.wikipedia.org/wiki/Edward_S._Herman
    “[…] the concentration of media ownership to a few corporations, the need to please advertisers and funding sources, the reliance on government-provided sources […]”

  3. Significa isto que um dos pasquins mais representativos da defunta I.S. está falido …e que o seu (dele, pasquim, e nosso, pascácios…) novo amo é o Celeste Império.
    E pode Holywwod distribuír a propaganda que quiser – os factos desmentirão sempre o “fake business”, sórdida e reles actividade substituta do saudoso “show business”.

    JSP

  4. É o capitalismo liberal que o Pedro Correia louva amiúde mas que não aceita que se aplique à sua corporação!

    WW

      1. Esqueceu-se da monarquia comunista da Coreia do Norte.
        A propósito e segundo o CM o Observador deu 600 mil € de prejuízo no ano passado , resta saber quem bancado a propaganda e esse farol do xuxalismo progressita que é a Global média ainda não pagou os ordenados de Junho, além de ter na forja mais “reestruturação”….

        WW

  5. Já há muitos anos se podia equilibrar uma balança com os cadernos de notícias num prato e os da publicidade no outro prato, isto sabendo que os das notícias entremeavam uma página de publicidade por entre cada duas de jornalismo. Refiro-me a uma das mais “sólidas” referências entre as (eminentes) referências – o NY Times. Digamos que é … o mercado . Bom proveito.

  6. A agressividade chinesa, por esse mundo fora, é evidente. Só não vê quem anda muito distraído. Na China Partido, Estado, Empresas de este calibre, tudo tem a mesma chefia.
    Hoje em dia dominar as comunicações de um território, ou de um País, ou de uma União Europeia, é dominar. Militarmente.
    A Huawei, após a decisão dos EUA, poderia estar preocupada só com o seu mercado interno.
    Só que não se trata de uma situação de … mercados.

  7. Segundo o jornalismo de 1930 atingiu-se 50ºC em França

    https://trove.nla.gov.au/newspaper/article/197630905?searchTerm=extraordinary%20heat%20in%20france&searchLimits=

    https://trove.nla.gov.au/newspaper/article/115683578?searchTerm=%22france%20swelters%22&searchLimits=

    No entanto o jornalismo de hoje disse-nos que 45.9°C foi a maior temperatura atingida em França…

    https://www.publico.pt/2019/06/28/mundo/noticia/franca-bate-recorde-temperatura-ultrapassa-primeira-45-graus-celsius-1878065

    “França bate recorde de temperatura e ultrapassa pela primeira vez os 45 graus Celsius”

    As fake news continuam…

    lucklucky

  8. Da mesma forma que andamos distraídos a pregar contra os emigrantes que nos roubam empregos, quando são as novas tecnologias, robótica, inteligência artificial que reduzem as necessidades de usar o homem para trabalhar, também convém sermos distraídos com publicidade paga ou encapotada, para não termos notícias sobre o que realmente vai ter impacto no nosso futuro

  9. pois, é a vida …

    Vou recordar um caso , caso esse que pesquisei depois, e vi :
    O BES estava a ser má noticia na capa do jornal. A seguir o BES passou a anunciar na capa do jornal.

    O PC nao toca no tema, mas o jornal, neste caso o el pais, pode estar convencido que vao se os aneis mas ficam os dedos.

  10. Estou-me pouco borrifando (para não dizer outra palavra) para um jornal espanhol, eu quero é saber dos jornais portugueses!!!

  11. Trata-se apenas de um anúncio. Bem pago, de certeza, mas um anúncio.
    Em Portugal, acho que o Público e o correio da manha já recorreram a anúncios de página completa na 1ª página.

    A morte do jornalismo passa por outros fenómenos: comentadores comprometidos com determinados projectos que se fazem passar por jornalistas, títulos enviesados para condicionar a interpretação dos factos, linhas editoriais monolíticas (olá Observador!), reprodução acrítica dos conteúdos das redes sociais, “investigações” que não passam de propaganda de uma das partes interessadas, o “jornalixo” português está cheio disso.

    1. A morte do jornalismo passa, antes de mais nada, pela prostituição comercial. Linhas monolíticas sempre houve – e é lícito que existam. Basta ver o jornal ‘A Bola’, desde sempre fervososamente pró-Benfica. Na década pós-1974 havia o jornal dos comunistas, o jornal dos socialistas, o jornal dos sociais-democratas, o jornal do conservador, até o jornal da extrema-direita e o jornal da extrema-esquerda.
      A morte do jornalismo, objectivamente, ocorre quando o espaço comercial mais nobre de um jornal – quatro páginas: a capa, a contracapa, o verso de capa e o verso de contracapa – é levado a leilão. No caso, a uma milionária multinacional de telecomunicações, na edição do passado sábado do ‘El País’. E logo no dia seguinte o mesmo jornal destaca este título na primeira página: «EE UU levanta el veto a Huawei y vuelve a negociar con China.»
      Não há coincidências.
      A campanha publicitária de véspera a dar frutos “informativos”. Comércio travestido de jornalismo. Matando-o.

      1. Lembro-me, há muitos anos, o Expresso ter a contracapa dedicada a um só anúncio. Constava até da tabela de preços de publicidade. Não consta que o jornalismo estivesse a morrer.

        Quanto ao El País e aos frutos “informativos”, é ou não verdade que a EU levantou o veto à Huavei? A empresa apenas aproveitou esse facto para potenciar o impacto publicitário.

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