
Um dos mais conceituados jornais à escala global, o espanhol El País, saiu hoje para as bancas com esta “capa”: um anúncio de página inteira. Mas não é um anúncio qualquer: trata-se de um investimento publicitário com a chancela do milionário grupo empresarial chinês Huawei, em óbvia estratégia de contenção de danos no âmbito da guerra fria que se desenrola entre Pequim e Washington na disputa da hegemonia do mercado mundial das telecomunicações.
«Nenhum computador deixou de funcionar em 2000. Nenhum Huawei vai deixar de funcionar. Calma, todos os produtos Huawei poderão continuar a ser usados com total normalidade. Tanto os já vendidos como os que estão por vender. E também todas as suas aplicações.» Assim reza o texto que substitui a habitual manchete do jornal de maior tiragem em Espanha.
Vejo isto e recordo outros tempos, com directores de jornais onde trabalhei, que faziam prevalecer a sua autoridade perante os publicitários que pretendiam condicionar a linha editorial desses periódicos. Havia espaços interditos aos anúncios – e a venda da primeira página era um deles – e nem todos eram publicados: aqueles que colidiam com o estatuto editorial ou os grandes princípios orientadores desses títulos jornalísticos, colocando eventualmente em risco a isenção na cobertura dos temas mais controversos, eram devolvidos à procedência. E havia uma claríssima linha divisória entre o que era conteúdo jornalístico e conteúdo publicitário.
Tudo isso acabou. Inclusive nos diários ou semanários que conservam um número apreciável de leitores e algum prestígio granjeado em dias de glória ainda capazes de despertar recordações nostálgicas. Mas o que esta primeira página simboliza, com toda a sua força expressiva, é a morte do jornalismo tal como o conhecemos no Ocidente nestes últimos dois séculos. O que resta é a publi-reportagem, a estória “fofinha”, o evento “giro”, a narrativa feel good muito amiga dos anunciantes. Informar passou de moda: o que está a dar é entreter. Com a chancela – implícita ou explícita – de marcas, empresas, clubes ou seitas. Os departamentos de publicidade, marketing e relações públicas são hoje os que têm maior capacidade efectiva de decisão editorial na generalidade dos títulos jornalísticos. Incluindo os mais prestigiados, como se vê.
A partir de agora, aguardarei por notícias no El País que possam colidir com os desígnios comerciais da Huawei. Mas confesso desde já que vou esperar sentado.

É capitalismo pós qualquer coisa. Tudo é vendável, incluindo o corpo e o corpo da noticia.
Não só no capitalismo. Como a China – governada há 70 anos pelo partido comunista – bem demonstra.
Não pode existir comunismo sem capital ou sem capitalistas. Até Marx assumiu isto como premissa 😉
E é uma primeira página real? Ou uma primeira página em cima da primeira página real? Lembro-me de o Público o ter feito algumas vezes na altura em que ainda vivia em Portugal (algumas vezes era uma “primeira página” com metade do tamanho para tonrar claro que a verdadeira primeira páina estava por baixo). Não torna o conceito muito melhor, mas ao menos não seria tão mau.
Compreendo o que quer dizer…mas, João André, a 1ª página é a 1ª página! as outras, pela lógica, as seguintes…
É o que temos, Pedro Correia. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades…e, contra factos não há argumentos.
Já desabafei, Té. Como leitor de muitos anos do ‘El País’, senti necessidade de escrever o que escrevi.
A propósito, recomendo muito esta série da BBC: jr
https://www.bbc.co.uk/programmes/b0bjps
Pedro, estou inteiramente de acordo com o seu “desabafo”!…não critiquei o que escreveu, antes pelo contrário.
[obrigada. irei ver/ler.]
Sim, Té, eu percebi.
(Se puder, veja a série: é excelente.)
Quatro páginas de revestimento exterior, João. Com o logótipo do ‘El País’. Escondendo a primeira página editorial. E também a última.
A publicidade a fazer submergir o conteúdo informativo.
A propósito, recomendo muito esta série – passou há pouco na RTP 2 com o título ‘Imprensa’: jr
https://www.bbc.co.uk/programmes/b0bjps
A partir de agora, aguardarei por notícias no El País que possam colidir com os desígnios comerciais da Huawei.
Este sempre foi um problema do jornalismo, isto é, não é de agora: um jornal dificilmente pode dar notícias que colidam com os interesses dos seus principais anunciantes.
Está tudo nos clássicos estudos de Edward Herman sobre o tema. Herman
https://en.wikipedia.org/wiki/Edward_S._
“[…] the concentration of media ownership to a few corporations, the need to please advertisers and funding sources, the reliance on government-provided sources […]”
Você é incansável nessas pesquisas. Nem ao fim de semana deixa de guglar.
Significa isto que um dos pasquins mais representativos da defunta I.S. está falido …e que o seu (dele, pasquim, e nosso, pascácios…) novo amo é o Celeste Império.
E pode Holywwod distribuír a propaganda que quiser – os factos desmentirão sempre o “fake business”, sórdida e reles actividade substituta do saudoso “show business”.
JSP
Não esquecer que o grupo Prisa, que detém o ‘El País’, é também o principal accionista da TVI em Portugal.
É o capitalismo liberal que o Pedro Correia louva amiúde mas que não aceita que se aplique à sua corporação!
WW
Você louva o quê? O capitalismo de Estado chinês? A teocracia saudita ou iraniana? O socialismo de miséria venezuelano?
Esqueceu-se da monarquia comunista da Coreia do Norte.
A propósito e segundo o CM o Observador deu 600 mil € de prejuízo no ano passado , resta saber quem bancado a propaganda e esse farol do xuxalismo progressita que é a Global média ainda não pagou os ordenados de Junho, além de ter na forja mais “reestruturação”….
WW
Oh…Oh… Parece que o António lhe pisou o pirilau e o menino não gostou…
Já há muitos anos se podia equilibrar uma balança com os cadernos de notícias num prato e os da publicidade no outro prato, isto sabendo que os das notícias entremeavam uma página de publicidade por entre cada duas de jornalismo. Refiro-me a uma das mais “sólidas” referências entre as (eminentes) referências – o NY Times. Digamos que é … o mercado . Bom proveito.
É o mercado a funcionar. Tudo se compra, tudo se vende.
Quanto mais estes títulos jornalísticos conspurcam a sua história, mais leitores vão afugentando.
A agressividade chinesa, por esse mundo fora, é evidente. Só não vê quem anda muito distraído. Na China Partido, Estado, Empresas de este calibre, tudo tem a mesma chefia.
Hoje em dia dominar as comunicações de um território, ou de um País, ou de uma União Europeia, é dominar. Militarmente.
A Huawei, após a decisão dos EUA, poderia estar preocupada só com o seu mercado interno.
Só que não se trata de uma situação de … mercados.
Capitalismo de Estado amancebado com o totalitarismo comunista.
Com muitos basbaques, do lado de cá, a baterem palminhas.
Segundo o jornalismo de 1930 atingiu-se 50ºC em França
https://trove.nla.gov.au/newspaper/artic le/197630905?searchTerm=extraordinary%20 heat%20in%20france&searchLimits=
https://trove.nla.gov.au/newspaper/artic le/115683578?searchTerm=%22france%20swel ters%22&searchLimits=
No entanto o jornalismo de hoje disse-nos que 45.9°C foi a maior temperatura atingida em França…
https://www.publico.pt/2019/06/28/mundo/n oticia/franca-bate-recorde-temperatura-u ltrapassa-primeira-45-graus-celsius-1878 065
“França bate recorde de temperatura e ultrapassa pela primeira vez os 45 graus Celsius”
As fake news continuam…
lucklucky
Feique niú?
A emissão do assento de óbito está bastante atrasada :-)))
Da mesma forma que andamos distraídos a pregar contra os emigrantes que nos roubam empregos, quando são as novas tecnologias, robótica, inteligência artificial que reduzem as necessidades de usar o homem para trabalhar, também convém sermos distraídos com publicidade paga ou encapotada, para não termos notícias sobre o que realmente vai ter impacto no nosso futuro
pois, é a vida …
Vou recordar um caso , caso esse que pesquisei depois, e vi :
O BES estava a ser má noticia na capa do jornal. A seguir o BES passou a anunciar na capa do jornal.
O PC nao toca no tema, mas o jornal, neste caso o el pais, pode estar convencido que vao se os aneis mas ficam os dedos.
Estou-me pouco borrifando (para não dizer outra palavra) para um jornal espanhol, eu quero é saber dos jornais portugueses!!!
Você ainda vive com fronteiras na sua cabeça. tura-acionista-do-grupo/
O ‘El País’ pertence ao Grupo Prisa, accionista maioritário da Media Capital, que detém a TVI.
https://www.mediacapital.pt/p/532/estru
Trata-se apenas de um anúncio. Bem pago, de certeza, mas um anúncio.
Em Portugal, acho que o Público e o correio da manha já recorreram a anúncios de página completa na 1ª página.
A morte do jornalismo passa por outros fenómenos: comentadores comprometidos com determinados projectos que se fazem passar por jornalistas, títulos enviesados para condicionar a interpretação dos factos, linhas editoriais monolíticas (olá Observador!), reprodução acrítica dos conteúdos das redes sociais, “investigações” que não passam de propaganda de uma das partes interessadas, o “jornalixo” português está cheio disso.
A morte do jornalismo passa, antes de mais nada, pela prostituição comercial. Linhas monolíticas sempre houve – e é lícito que existam. Basta ver o jornal ‘A Bola’, desde sempre fervososamente pró-Benfica. Na década pós-1974 havia o jornal dos comunistas, o jornal dos socialistas, o jornal dos sociais-democratas, o jornal do conservador, até o jornal da extrema-direita e o jornal da extrema-esquerda.
A morte do jornalismo, objectivamente, ocorre quando o espaço comercial mais nobre de um jornal – quatro páginas: a capa, a contracapa, o verso de capa e o verso de contracapa – é levado a leilão. No caso, a uma milionária multinacional de telecomunicações, na edição do passado sábado do ‘El País’. E logo no dia seguinte o mesmo jornal destaca este título na primeira página: «EE UU levanta el veto a Huawei y vuelve a negociar con China.»
Não há coincidências.
A campanha publicitária de véspera a dar frutos “informativos”. Comércio travestido de jornalismo. Matando-o.
Lembro-me, há muitos anos, o Expresso ter a contracapa dedicada a um só anúncio. Constava até da tabela de preços de publicidade. Não consta que o jornalismo estivesse a morrer.
Quanto ao El País e aos frutos “informativos”, é ou não verdade que a EU levantou o veto à Huavei? A empresa apenas aproveitou esse facto para potenciar o impacto publicitário.