
(Amílcar Cabral e Nino Vieira, entre outros combatentes. Desconheço a autoria da imagem)
1. Em primeira análise devemos o 25 de Abril, a paz e a democracia, o desenvolvimento do país inscrito no assim não tão polimorfo modelo social europeu, as liberdades individuais e colectivas, ao arreganho e quantas vezes até heroísmo dos combatentes do PAIGC, da FRELIMO, e (em moldes mais complexos e até ambivalentes) da FNLA, do MPLA e da UNITA. Foi a sua corajosa acção que então tornou Portugal um país pária e o Estado Novo (fascista, colonial-fascista, ditatorial, autoritário, é-me agora indiferente como o querem catalogar) uma decrepitude anacrónica.
2. Os oficiais subalternos que desde 1973 se organizaram por causas corporativas e que – acima de tudo cansados da desvairada guerra – vieram a fazer os golpes de Março e Abril de 1974 foram nisso, e evidentemente, corajosos. Mas uma coragem menor em grau do que aquela que, tantos deles, haviam demonstrado nas estuporadas e injustas guerras africanas. Não se trata apenas de lembrar que os operacionais desses golpes estavam calejados em bem mais complexos e violentos contextos de guerra. Mas também lembrar que o estado do Estado Novo era já patente (veja-se o percurso de Spínola e, também, de Costa Gomes nesse estertor do marcelismo).
Não nego homenagem a quem arriscou muito nesse início de 1974. Mas trata-se de não sobrevalorizar, mitificar, esses riscos. Enfim, resumo-me: fosse eu um pouco mais ingénuo e surpreender-me-ia com este actual universo ideológico e propagandístico atarefado em decapitar os mitos glorificadores de Diogo Cão, Bartolomeu Perestrelo e afins, enquanto se afadiga em glorificar os oficiais que vieram a Lisboa em 1974 enterrar o já defunto regime, enfrentando para isso alguns dos seus desanimados camaradas de armas, em tantos casos também camaradas de geração de Academia Militar.
3. Figuras relevantes do início da democracia morreram neste XXI. Militares como Rosa Coutinho, Costa Gomes, Eurico Corvacho, Vasco Gonçalves, Dinis de Almeida, Alpoim Calvão, civis como Mário Soares, Almeida Santos, Álvaro Cunhal, Freitas do Amaral, etc. Aquando dessas mortes sempre se levantaram algumas discussões públicas sobre as suas personalidades políticas. E os laivos de acinte que então surgiram vieram, fundamentalmente, de núcleos de gente regressada (ou oriunda, em alguns casos) das ex-colónias, um universo (até geracional) que continuou a personalizar/culpabilizar alguns indivíduos pelo inevitável desenlace da história. Ou seja, para a esmagadora maioria da população as diferenças ideológicas não implicaram desajustados ajustes de contas com os falecidos. Num, de facto, canónico “descanse em paz” dedicado a cada um desses. O sentimento geral é o de que houve desmandos no PREC, houve violência (encetada pelos assassinatos perpretados pelos agentes da PIDE em 25 de Abril), mas que se constituiu um posterior consenso de que “o que aconteceu no PREC ficou no PREC”. E nisso decorre uma avaliação diferenciada mas democrática do processo posterior e das suas personagens.
Mas agora na morte deste Carvalho as coisas são diferentes. A repugnância pelo indivíduo é patente em muitos de nós. Pois Carvalho em democracia comandou um grupelho terrorista assassino. Agora, e mais uma vez como em todos os meses de Abril foi habitual, moles de gentes que por aqui andam invectivam o nojo pelo terrorista como característica da “extrema-direita”. Tal advém de uma mera táctica, executada por consabidos avençados desta era geringoncica, na qual que convém aos poderes fácticos namorar os resquícios afectivo-ideológicos dos velhos grupelhos m-l. Ou, pura e simplesmente, daqueles que exsudam um efectivo desprezo pela democracia. Ora os crimes que exigem um total repúdio por Carvalho não “ficaram no PREC”, são muito posteriores. Os democratas podem ter diferentes visões dos anteriores falecidos, é isso normal. Mas apenas os biltres podem saudar a memória de um assassino.
4. Posso compreender que um militar, camarada de armas, venha agora falar da “bondade” e “generosidade” de Carvalho. Mas a resposta ao nosso respeitável General Eanes só pode ser uma: onde está a generosidade e bondade de quem manda matar 16 vulgares cidadãos em nome de um desvairado e ultra-minoritário ideário?
5. O estado da cultura portuguesa é uma vergonha. O antigo ministro da Cultura João Soares vem dizer que “desculpa as asneiras” de Carvalho. Ou seja, fundar e capitanear um movimento terrorista assassino em democracia são meras “asneiras”. É esta a densidade semântica de um gajo que chegou a ministro da cultura. Estamos, é óbvio, no “grau zero”.

Só me faltava esta reverente invocação de gente que levou a miséria e a guerra aos seus povos!!!!
Uma só coerência pode invocar-se: o defunto e o disparate tinham uma relação íntima.
Eu estou habituado a que o disparate habite (ainda que não monopolize) o comentário bloguístico anónimo. Por isso não direi “só me faltava” esta… Mas seria interessante, e até sublinharia a relevância do comentário, se aduzisse a referência à tal reverência que clama.
O anonimato é incidente e para referência sugiro o arreganho de nova leitura.
Jgmenos não percebi o sentido do seu comentário
Muito bom! AL
agradeço consóror
Personalidade complexa, pessoa de excessos, coração ao pé da boca, defensor da democracia popular.
Todo o tipo de eufemismos.
Compreendo que é difícil falar mal dos mortos, ainda mais quando nos eram (pessoal ou ideologicamente) próximos.
Mas fica sempre a sensação de que aos nossos, e isto é transversal, tudo se perdoa.
O Otelo, esse, nunca se arrependeu nem deu procuração para que pedissem perdão em seu nome. Convicções. Concordar com elas ou não depende dd cada um.
Em relação a esta morte tenho lido vários defendendo que não se devem criticar os mortos. Mas ainda nenhum referiu o período de nojo requerido, jurídica ou moralmente.
” Em primeira análise devemos o 25 de Abril, a paz e a democracia, o desenvolvimento do país inscrito no assim não tão polimorfo modelo social europeu, as liberdades individuais e colectivas, ao arreganho e quantas vezes até heroísmo dos combatentes do PAIGC, da FRELIMO, e (em moldes mais complexos e até ambivalentes) da FNLA, do MPLA e da UNITA. Foi a sua corajosa acção que então tornou Portugal um país pária e o Estado Novo (fascista, colonial-fascista, ditatorial, autoritário, é-me agora indiferente como o querem catalogar) uma decrepitude anacrónica”
Nem pensar. Nenhum deles lutou por qualquer coisa que se assemelhe a liberdade o que implica o direito a ter uma ideia diferente. Eram todos movimentos “ditatoriais”.
No fim todos esses movimentos provocaram mais de 1 milhão de mortos pela sua intolerancia.
Nunca ninguém fez as contas a quantos, pois os mortos das guerras civis e ditaduras na antiga Africa Portuguesa não fazem parte das vitimas que têm direito a História, muitos milhares dessas pessoas tinham sido portugueses.
V. não percebeu o texto. Mas ele é bem explícito.
Talvez devesse ter dito que concordo com a opinião sobre o Carvalho em Democracia. Mas nada com a do período anterior, fatalista.
Somos um alforge de vitimas, carrascos, padroeiros e heróis à deriva ao sabor das ondas.
E nem sempre constatando que há mais marés do que marinheiros.
Excelente.
A verdade, sempre a verdade. Também foi para isso que o 25A se fez, e não para com meias verdades alterar a história para o que der mais jeito.
Obrigado
“E os laivos de acinte que então surgiram vieram, fundamentalmente, de núcleos de gente regressada (ou oriunda, em alguns casos) das ex-colónias, um universo (até geracional) que continuou a personalizar/culpabilizar alguns indivíduos pelo inevitável desenlace da história.”
O meu caro jpt confunde o “inevitável desenlace histórico” com um todo evitável programa criminoso de Abril que se disseminou pelas ex-colónias onde por todo o desenlace histórico Portugal tinha responsabilidades. A inépcia dos ditos operacionais militares associada aos bandarilheiros ditos progressistas ditou a criminosa actuação africana.
Por outro lado, se existiram anjos da guarda para os militares nas ex-colónias esses foram a PIDE e muitos dos que lá viviam e nasceram. Os ditos movimentos de libertação não tinham qualquer expressão militar e/ou capacidade para contrariar o que foi feito no sentido de os neutralizar.
Começaram, sim, a ter depois que Abril aconteceu e com as consequentes intervenções das potencia interessadas (USA, URSS, CUBA, CHINA, FRANÇA, INGLATERA,ISRAEL) na desestabilização e mortandade que depois se operou.
Julgo que uma troca de opiniões sobre isto será totalmente inútil, 47 anos depois de 1974. Pois tanto tempo decorrido mostra que há convicções que não são comunicantes. Eu não reconheço qualquer “programa criminoso de Abril”. E nem sequer preciso de grande juízo moral sobre o Estado Novo tardio para além de um “anacrónico”, diagnóstico que me parece mais do que suficiente. E, honestamente e sem qualquer acinte, estarmos em 2021 a afirmar que os movimentos independentistas nas três colónias continentais africanas não tinham expressão militar é um total irrealismo, que nem sequer abre porta a que se possa discutir a sua real expressão, bem diversificada. Lamento, mas é uma mundivisão traumatizada, historicamente compreensível mas que é apenas um finca-pé.
A história escreve-se depois e não durante os acontecimentos. Pois neste último período ela é enviesada e serve para adormecer mentes. Como de facto adormeceu.
47 anos depois serve para demonstrar as consequências e sancionar as estórias.
O programa criminoso foi a inaptidão politica de demagogos civis e militares que nunca assumiram a sua responsabilidade e a responsabilidade de Portugal nessa circunstância.
O Estado Novo julga-se a ele mesmo na manifesta decisão de compreender que o “inevitável desenlace histórico” deveria ser acompanhado de uma inevitável percepção de que isso seria alcançado com consciência e equilíbrio; e não através de acções que os bandos metropolitanos conduziram em Abril e que culminou em um desfecho criminoso e oportunista.
Não havia movimentos independentistas com expressão militar nas ex-colónias, mas grupos financiados por interesses consumados em Abril que se delapidaram mutuamente, prevalecendo durante décadas sustentados por aqueloutros.
O jpt não conhece o quadro militar e social da época. Possui, sim, uma visão romântica de quem passou por África depois sem ver o contexto todo. E, desiludido, regressou à pátria.
Nã0 se deve misturar o derrube do Estado Novo com a implantação da democracia-
Primeiro uma, o derrube da democracia, aí sim imperou o papel de Otelo, como dizia Salgueiro Maia: acabar com o “Estado a que isto chegou”.
Depois…depois outros, muitos outros impuseram a democracia, contra a vontade de alguns, poucos, em que não sabemos de que lado ficou Otelo, o tempo dirá.
Sabemos perfeitamente de que lado esteve Otelo de Carvalho. E é por isso que na altura da sua morte – como nestas últimas décadas em cada momento celebratório da democracia portuguesa – é preciso invectivar aqueles que procuram higienizar a figura desse militar e apontar os seus opositores como avessos à democracia.
Apesar da língua de Camões, enquanto o Mercador de Veneza passa férias na Sardenha, aqui ficamos com Otelo, o Mouro de Veneza…
jpt (suficiente pra não ser anónimo), “A morte de Carvalho”, de Carvalho? de, de Saraiva de Carvalho? Na tropa tratam-se por o último apelido, neste caso Carvalho, mas você trata-o por de Carvalho. A que propósito? Está bem que ele chamava-se Carvalho, mas toda a gente o conhece por Otelo. Se quer dizer que morreu o de Carvalho (na Bélgica e nos Países Baixos o van é inseparável do apelido), mas o Otelo continua vivo?
Pois, o Otelo é que está ligado ao 25 de Abril e é por este nome que ficará sempre conhecido.
Mas, de Carvalho, por Otelo lhe fazer embaraço? Embaraço por causa do prec e das fp25?
Com o prec escusa de se embaraçar, basta desembaraçar-se com um simples período revolucionário em curso e estava explicado, com as fp25 também se desembaraça facilmente com os ataques bombistas, assassinatos, incêndios a sedes de partidos e respira.
Não sei se tem formação jurídica, mesmo que não tenha consulte o processo/acusação ao Otelo, sim, ao de Carvalho, e chegará ou melhor dizendo não chegará a uma conclusão limpinha como a água. Ah, aproveite e relembre-se dos assaltantes encapuzados das fp25 que fugiram com o dinheirinho para o Brasil e até regressaram, depois, para as privatizações.
Não tenha vergonha de chamar ao de Carvalho, Otelo, que das referências que depois faz no texto o de Carvalho só pode ser o Otelo Saraiva de Carvalho, que será com este nome que ficará conhecido como o militar estratega da revolta do 25 de Abril de 1974 que pôs fim à ditadura do chamado estado novo.(ou estado geriátrico, em 48 anos nunca foram novos)
S (para não ser anónimo)
não tenho qualquer paciência para a impertinência boçal. Sim, jpt chega e sobra para não ser anónimo, dado que está identificado no blog. Assim e dado que você não sabe interpretar o que tem à frente vá rodopiar com quem o ature
OK
Fique-se com o ‘de Carvalho’, que como sabe é um topónimo, alguém que é natural de Carvalho. Vou rodopiar à procura do local, sabendo que Carvalho provém da raiz Kar, que significa rochedo/pedras e há topónimos em Car por essa Europa fora, como Car rara do mármore em Itália.
Continuando a rodopiar com o de Carvalho, que também já se escreveu Carbalho, Carbalio, Karualio, Karuallo e Carualio.
Agora, se quiser, explique lá o tratamento ‘de Carvalho’ ao Otelo, julgo que não seria por haver possibilidade de ser confundido com o Otelo mouro de Veneza.
O Otelo era do Carvalho.
Pelo que percebi do comentário, o Eng 44 nao foi o primeiro mártir político da Justiça lusitana, é isso?
Era um santo rapaz.
Uma joia de moço.
Muitoooo inteligente !…
Um Líder !…
Portugaaaaaal – Pátria de Heróis, Santos e Mártires.
Algum maneta, diga onde o meta ?
——
Cremado em Alcabideche.
Já não mexe.
Muito bom. Tão bom que só consegui ler o primeiro parágrafo porque imediatamente tive que ir vomitar. Parabéns, já há muito tempo não lia nada que me provocasse vómitos. Uma incontestável qualidade.
“1. Em primeira análise devemos o 25 de Abril, a paz e a democracia, o desenvolvimento do país inscrito no assim não tão polimorfo modelo social europeu, as liberdades individuais e colectivas, ao arreganho e quantas vezes até heroísmo dos combatentes do PAIGC, da FRELIMO, e (em moldes mais complexos e até ambivalentes) da FNLA, do MPLA e da UNITA. Foi a sua corajosa acção que então tornou Portugal um país pária …”
E o vómito surge porque omite o heroísmo primordial da UPA, cujos bravos guerilheiros mutilaram, empalaram, esquartejaram à catanada e mataram, brancos e negros, homens mulheres e crianças nos idos de Março de 1961, lá para as bandas dos Dembos e do Negage em Angola. Algumas das fotos tenho-as aqui comigo.
Um verdadeiro nojo esse seu primeiro parágrafo. Parabéns.
cuide dessa úlcera, não vá degenerar
A doença das vacas loucas não tem cura. Lamento, mas não vale a pena cuidar-se.
https://onedrive.live.com/view.aspx?resi d=4BD79032236AF8C0!20631&ithint=file%2cdocx&authkey=!AOasZylvUYzGpYo
https://pt.wikipedia.org/wiki/For%C3%A7a s_Populares_25_de_Abril#1980
Como um dos mentores das F.P. 25/4 tem um belo curriculum.
Trata-se da velha teoria segundo a qual o bem que, ainda que sem intenção, fizemos antes apaga o mal que vem depois, mesmo antes de o fazermos. Procurei elaborar um pouco, fundamentando, em https://mosaicosemportugues.blogspot.com/2 021/07/otelo-o-espinho-que-nem-morte-arr ancou.html , que o convido a visitar caso tenha interesse.
Obrigado