A montanha mágica


Maria Dulce Fernandes,

O peso dos anos e o peso das ancas, quando unidos, conseguem seguramente desmoralizar um monge tibetano. Nada que não pudesse ter sido evitado, portanto, mas tirando um bom livro ou uma viagem sonhada, que outros prazeres mundanos e reconfortantes nos restam?
As festas deixaram de ser as festas como as conhecíamos, à medida que os presentes à mesa se foram fazendo representar por uma ausência doída. É verdade que a alegria das crianças é contagiante e balsâmica, mas também sublima a saudade e agiganta o apartamento.

 

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Encontrar o caminho para o lenitivo espiritual através do estômago é a fórmula milenar mais básica e mais cliché que existe, mas também a mais praticada. E já que a carne é fraca, coma-se em dobro.
Janeiro é o mês da montanha mágica, aquele excesso acumulado na cintura de muitos hidratos de carbono, açúcares, lípidos e imoderações proteicas. O nosso Castorp interior transforma num ápice três semanas em sete anos ou numa eternidade, porque a nossa montanha desafia o tempo e a vontade.
O peso da corpulência está em proporção directa ao peso da consciência e inversamente ao da tendência feita carência, derrotando em toda a linha a paciência.
A solução é simples acrescida de um tremendo grau de dificuldade, e é aí que nos agarramos ao tempo, porque o tempo das pessoas não interessa para nada e é bem quantificado ao mês.
Em assim sendo, respiramos fundo e assentamos todos os meses voltar à montanha mágica no mês seguinte, subindo e descendo as assomadas em frequentes oscilações alimentares.

17 comentários em “A montanha mágica”

  1. O monge tibetano sabe que o ‘peso das ancas’ nas mulheres é ancestral.
    Assim se foi desenvolvendo ao longo dos milhares de anos para a mulher acumular gorduras suficientes pra alimentar (leite) os filhos nas grandes fomes cíclicas.
    Também é genético, as mulheres criarem mais ou menos gordura nas ancas, bem localizado nos vários locais do globo, sendo as mais prominentes numa etnia da África do Sul, que, depois, se foi transformando em ‘interesse/chamamento” sexual.
    A magreza das mulheres que vemos em imagens do séc. XIX e até aos anos 30 de séc. XX foi devido à fominha ou a má alimentação nos grandes centros urbanos. Lembremo-nos do grande número de mulheres que morreram com tuberculose.
    Desculpem qualquer coisinha.

    1. Não estou a ver o monge ser versado em anatomia feminina nem ser prerrogativa da mulher gorda, cheia ou anafada, a fartura e qualidade do leite que possa produzir, etc. etc, por isso desculpe qualquer coisinha a falta de lógica do comentário, que de qualquer modo passo a agradecer.

      1. Então como é que ‘conseguem seguramente desmoralizar um monge tibetano’?
        Então é ‘versado em anatomia feminina’?

        É ao contrário, a fartura é que dá leite.

        1. Em não sendo monge tibetano, não tenho a paciência, a placidez ou o desprendimento necessários a rectóricas explanativas pormenorizadas, ou mesmo pictóricas. Releia, feche os olhos, respire fundo… pode ser que lhe desça a pomba branca.

      1. Tuberculosa mas vistosa! hã?Cara Bea.
        Até ia dizer apetitosa considerando os “malefícios” da “tuberculose” feminina contemporânea, mas deixo essa apreciação para quem tenha a “desgraça” de lhe “suportar” a presença doentinha. 🙂
        Votos que a “doença” persista.

        1. ah, ah, ah…eu disse que não tinha gordura nas ancas; não disse que não tinha gordura :). O português pode ser uma língua traiçoeira.

          1. A jeito de corolário.
            A boa nutrição do rebentinho provém da gordura das ancas da mãe

            Se bom leitinho queres dar,
            as ancas tens de engordar.

            Se com a maminha queres nutrir,
            Não deixes as ancas sumir.

            Ancas bem abonadas,
            crias bem alimentadas.

            E por aí adiante 🙂

          2. Ok, ok, está explicada a razão de não ter amamentado. Pobres, pobres filhos. Pronto, agora fiquei complexada. Poças, pá. Ora bolas.

          3. Eheheheh.
            Tenho uma amiga que é magérrima, mas bem proporcionada que , ao contrário das anafadinhas da trupe, com peito e ancas pronunciadas, amamentou até quase aos 2 anos os filhos e curiosamente nunca deixou de ter leite.
            Esses mitos adiposos não passam disso mesmo. Pela parte que me toca, só tive bolas de basquete durante um mês, menos coisa, talvez. Do resto , ainda tenho para a troca.

  2. Já disse que, para mim, Montanha Mágica é a de Thomas Mann. Isso é que é um livro de um tamanhão a condizer.
    Há gordas formosas e magras felosas; e o bom é cada um aceitar o peso que tem excepto se a saúde reclama. E, reclamando, se a própria decidir que morra marta morra farta…que podemos acrescentar.

    1. É isso Bea, cada um deve apenas sentir-se confortável consigo próprio.
      Pela minha parte, gostava mais de ser menos espaçosa e de poder vestir números mais pequenos e por isso fáceis de encontrar. Gosto mais da minha cara de bolacha do que das olheiras da dieta. Os meus tornozelos contradizem-me em toda a linha, mas enfim…
      Bom 2020!

      1. acho que nunca pensei nos meus tornozelos, até me estou a sentir mal. Espero que eles não me contradigam vingando-se de abandono extremo:).

        1. Não sendo fetichista, é perfeitamente normal não dar grande importância aos tornozelos, parte particularmente desengonçada da anatomia. Eu só ligo aos meus porque são uns rabugentos após 8 horas a carregar-me

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