Nunca vi, em tão pouco tempo, estrearem na televisão tantas séries sobre os bastidores da política. Dos EUA veio a viciante House of Cards, da Dinamarca, a Borgen e agora passa na RTP2 a primeira temporada da série francesa Os Influentes (no original, Les Hommes de L’Ombre).
Todas excelentes, e de sucesso internacional, reflectem uma tendência ditada pelo impacto público das primeiras produções do género. Ignoro se foi House of Cards a acender o rastilho, mas o que me interessa é perceber porque só recentemente os jogos de poder, tão velhos como o mundo, passaram a receber este tratamento laboratorial. Filmes documentais ou ficcionais sobre política e políticos existem desde os primórdios do cinema. Da propaganda aos filmes de causas, pensávamos já ter visto tudo, mas afinal faltava a versão hard-core.
“- Daqui a uma semana acaba tudo.
– Não tem planos?
– Nada. Fico na reserva da República. Sabe o que é um reservista? É o tipo que chamam à últma hora quando não há pessoas suficientes para agitar as águas.
– Proponho-lhe algo mais gratificante.
– E melhor pago? Isso também conta. O meu nível de vida vai ser reduzido.
– O que lhe proponho é legal e simples. Quando deixar de ser Primeiro-Ministro contrato-o como advogado para defnder os interesses da empresa.
– Adorava aceitar a proposta, mas não sou advogado.
– Todos os parlamentares podem ser. Demora exactamente três semanas, basta-lhe prestar juramento.
– E defendo quem? O quê?
– As emendas que lhe sugerir para levar à Assembleia.
– Não é clientela.
– Explico de outra maneira. Como advogado parlamentar não pode apresentar emendas em nome dos seus clientes. Mas pode fazê-lo a favor dos meus. Intervém por conta da empresa que age em nome dos clientes. É muito simples.
– É legal?
– Evidentemente. É por agirem com absoluta legalidade que muitos parlamentares são também advogados. Quando explicam as escusas para intervir em comissões às quais pertencem, provam a sua honestidade.
– A menos que peçam a colegas para agirem em seu nome.
– Ou apresentem conselhos de agências como a minha. Tudo isso permite apagar as ligações entre um projecto-lei e o deputado que o defende. Não existe nenhum conflito de interesses aparente entre as partes.
– Conhecia a prática mas nunca pensei nessas subtilezas.
– Se aceitar a minha proposta contrato-o como advogado com o salário de um Primeiro Ministro.” – este é um exemplo (retirado do episódio 6) de um dos excelentes diálogos que podemos seguir em Os Influentes.
A novidade nestas produções é a exposição total. Nenhum detalhe é esquecido. Quem nunca passou pelos bastidores da política pode agora fazê-lo em casa, sentado no sofá. O papel decisivo dos spin doctors na intriga política, a extraordinária importância que se dá, quando se trabalha a um nível muito profissional, a pormenores como a largura do tampo da mesa que vai estar em estúdio para um debate televisivo, a promiscuidade entre assessores e jornalistas e consequente instrumentalização da Comunicação Social, a apropriação da mensagem política pelo marketing, a transformação de candidatos em produtos, os golpes da baixa política, tráfico de influências, conflitos de interesses, corrupção, tudo se desvenda.
A House of Cards falta-lhe a contenção europeia. A luta pelo poder do protagonista, Frank Underwood (Kevin Spacey interpreta-o tão bem que se arrisca a ficar para sempre com este personagem colado à pele), embora fortemente inspirada na realidade cede a exigências comerciais e até morais. Exagerando na amoralidade da política – Frank já teve que semear alguns cadáveres na sua ascensão ao Nirvana – a série, ao mesmo tempo que atrai nos EUA audiências que gostam de acção, não fere as susceptibilidades de um público mainstream que apesar de tudo prefere uma barreira protectora de ficção à volta das suas instituições. Não por acaso, Obama já disse publicamente que é fã desta série. Prova maior de que é confortável para o meio que pretende retratar.
Mas desviei-me do ponto. Porquê isto agora? Penso que se trata de uma questão de percepção de maturidades. A crise das democracias revelou eleitorados cada vez mais difíceis de conquistar, porque tal como nos casamentos gastos, já não têm mais nada a aprender com o outro. Sabem tudo, não vão em conversas. Sabem demais. Daí os níveis crescentes de abstenção, o desinteresse.
Já não há nada a esconder, nem os podres, que escândalo a escândalo, se foram derramando nos jornais, por isso por que não desocultar segredos de polichinelo e partilhá-los na praça pública? Alguém ligado aos media um dia pensou nisto. Pensou que podia fazer da fonte das nossas frustrações cívicas um sucesso mediático. E acertou em cheio. Seguir estas séries é catárctico. Estávamos mesmo a pedi-las.
Foto de: Os Influentes


” Ignoro se foi House of Cards a acender o rastilho, mas o que me interessa é perceber porque só recentemente os jogos de poder, tão velhos como o mundo, passaram a receber este tratamento laboratorial. “
House of Cards é mais recente do que Borgen e trata-se de um remake de uma série inglesa com mais de 20 anos: f_=nv_sr_2
http://www.imdb.com/title/tt0098825/?re
De qualquer modo, creio que há hoje mais canais de televisão – alguns online, como a Netflix, produtora de House of Cards -, o que leva à necessidade de aumentar a quantidade de programas. Provavelmente também nunca houve tantas séries policiais – e hospitalares e de tribunal – ao mesmo tempo. E como o universo político estava subrepresentado na televisão…
(Esqueceste-te de Veep, aparentemente menos profunda mas, na sua acumulação de interesses pessoais, gaffes e show-off para consumo dos media, provavelmente mais realista do que House of Cards.)
Falei preguiçosamente das séries que vejo, sem trabalho prévio de pesquisa, como o teu esclarecimento, que agradeço, deixou bem claro. Não sou grande consumidora de televisão. A Veep, que referes, não conheço. Mas o aumento da oferta de séries sobre política não me passou despercebido pelo elevado impacto público que algumas tiveram. Claro que com o tempo também elas se vão banalizar e outros temas serão explorados com o mesmo sucesso.
As exigências do mercado mediático explicam a constante renovação da oferta, mas não necessariamente a forma como novos temas são tratados e o momento escolhido para se lançarem. Isso reflecte l’air du temps, algo que aproveita ao negócio mas o condiciona inexoravelmente.
“Veep” é, obviamente, a designação para “vice-presidente” dos EUA. A pessoa com um cargo irrelevante, a uma batida cardíaca de poder ocupar o mais importante do mundo.
https://www.youtube.com/watch?v=ZUnAbwa DYr0
Após uma visita oficial mal sucedida à Finlândia: “A Europa costumava ser o meu continente preferido. Agora nem sequer está no Top 5.”
“e consequente instrumentalização da Comunicação Social”
Não há instrumentalização alguma de uma cultura jornalistica que é mais política que jornalistica. Ninguém vai para jornalismo para ser jornalista, vai para influenciar a política.
Obama por exemplo foi uma criação jornalista.
“Ninguém vai para jornalismo para ser jornalista” – se calhar são parvos, mas “eles andem aí”, acredite.
Exemplos a propósito, a Política não o Jornalismo explica isto:
http://blasfemias.net/2015/03/18/a-deten cao-de-jose-socrates-vistas-pelo-publico-o ntem-e-hoje/
http://blasfemias.net/2015/03/18/as-elei coes-em-israel-vistas-pelo-publico-ontem-e-h oje/
http://blasfemias.net/2015/03/18/iniciac ao-a-politica-com-patrocinio-do-pcp-lusa-e-o bservador/
Um pouco no campo da satira, ha tambem o In the thick of it do Armando Iannucci e com o actual Dr. Who, Peter Capaldi.
Uma especie de update ao Yes Minister, mas bastante bom tambem.
Sendo eu partidário da teoria da conspiração, diria que os políticos são uma cambada e que os eleitores se sentem cada vez mais desinteressadas da política. No entanto gostaria de falar NO SISTEMA FINANCEIRO.
Voltando á teoria da conspiração, grande parte do século XIX e XX, foi rico em grandes figuras que devido á sua capacidade inventiva, produtiva ou empresarial, criaram por todo o Mundo e Portugal não foi exceção, Empresas que trouxeram a prosperidade a largas camadas da população e criaram a classe média tal com hoje a conhecemos e definimos.
Com a classe média chegou a Democracia e a Liberdade.
Esta combinação de Capitalismo, Democracia e Liberdade, mostrou ser imbatível, a criar e distribuir riqueza, no entanto a queda da cortina de ferro, levou a uma mudança geral onde o dinheiro rapidamente se tornou mais importante que democracia e direitos sociais.
Uma fábrica de camisas em Portugal, que apesar dos baixos salários, tinha salário mínimo, sindicato e descontos para a segurança social, foi transferida para a Republica Popular da China, onde se conseguia multiplicar o lucro por quatro ou cinco, sem problemas de poluição, exigências horárias ou salariais e em especial, sem sindicatos.
Nunca um Partido Comunista foi tão amigo do Capital, vivam o dinheiro rápido e os amanhãs que cantam.
Analisemos ainda o modo como percorremos, sob a batuta da Alemanha, o SME I, SME II (sistema monetário europeu), o MTC (mecanismo de taxas de câmbio) e como o Bank of England, foi papado pelo George Soros e saltou fora do € ao qual queria aderir, como chegámos ao € e ao projeto de criação politico dos Estados Unidos da Europa (EUE) e quando qualquer referendo chumbado, era repetido até ser aceite pela populaça, os taralhoucos.
E finalmente, a importância crescente do € versus a perda de importância relativa do $, a dificuldade crescente dos EUA com a manipulação do preço do ouro, o surgimento de uma crise que apesar de originada nos EUA pelos Banksters, atirou o € para o seu devido lugar e o $ de volta ao seu; devolvendo aos EUA o seu poder Económico e Financeiro, já dos EUE nada, black out total, e ao € a tremideira, se não estoirar de vez, um puro acaso certamente era falta de competitividade…
Falamos muito pouco dos Banksters, dos EUA e da Europa. Mas esquecemos totalmente a Islândia, que acusou, julgou e prendeu os seus Banksters e de que ninguém fala, ou adota como exemplo, curioso não?
Eu sei que os jornalistas e os argumentistas das séries de televisão não têm o dever de educar e esclarecer as massas (que saudades do velho Expresso que comprava e lia para aprender qualquer coisinha), trata-se hoje em dia de dar á fruta do chão, aquilo que ela gosta, paga e merece, e portanto mostrar á sociedade o que são e como se comportam verdadeiramente a corga dos políticos.
A conclusão é óbvia, mais vale acabarmos com a Democracia e as eleições, somos uns incompetentes, só elegemos malandros que nos enganam, nem para nós somos bons, é preferível entregar isto a quem percebe da poda.
A teoria da conspiração que entrelaça o Capitalismo do seculo XXI e o Comunismo do seculo XXI, que fala dos amanhãs que cantam e do caminho único para o atingir, que protege os Banksters e que obriga a antiga classe média, agora definida como os que viveram acima das suas possibilidades, quer-nos convencer que não há outra solução.
E até a mim que sou teórico da conspiração, me custa a entender e aceitar, certas contradições óbvias.
No entanto e apesar dos defeitos, eu prefiro os poderes que são eleitos pelo voto popular, deviam é ser mais, chamem-me parvo…