A moda da política sem filtros na TV


Teresa Ribeiro,

 

 

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Nunca vi, em tão pouco tempo, estrearem na televisão tantas séries sobre os bastidores da política. Dos EUA veio a viciante House of Cards, da Dinamarca, a Borgen e agora passa na RTP2 a primeira temporada da série francesa Os Influentes (no original, Les Hommes de L’Ombre).

Todas excelentes, e de sucesso internacional, reflectem uma tendência ditada pelo impacto público das primeiras produções do género. Ignoro se foi House of Cards a acender o rastilho, mas o que me interessa é perceber porque só recentemente os jogos de poder, tão velhos como o mundo, passaram a receber este tratamento laboratorial. Filmes documentais ou ficcionais sobre política e políticos existem desde os primórdios do cinema. Da propaganda aos filmes de causas, pensávamos já ter visto tudo, mas afinal faltava a versão hard-core.

“- Daqui a uma semana acaba tudo.

 – Não tem planos?

 – Nada. Fico na reserva da República. Sabe o que é um reservista? É o tipo que chamam à últma hora quando não há pessoas suficientes para agitar as águas.

 – Proponho-lhe algo mais gratificante.

 – E melhor pago? Isso também conta. O meu nível de vida vai ser reduzido.

 – O que lhe proponho é legal e simples. Quando deixar de ser Primeiro-Ministro contrato-o como advogado para defnder os interesses da empresa.

 – Adorava aceitar a proposta, mas não sou advogado.

 – Todos os parlamentares podem ser. Demora exactamente três semanas, basta-lhe prestar juramento.

 – E defendo quem? O quê?

 – As emendas que lhe sugerir para levar à Assembleia.

 – Não é clientela.

 – Explico de outra maneira. Como advogado parlamentar não pode apresentar emendas em nome dos seus clientes. Mas pode fazê-lo a favor dos meus. Intervém por conta da empresa que age em nome dos clientes. É muito simples.

 – É legal?

 – Evidentemente. É por agirem com absoluta legalidade que muitos parlamentares são também advogados. Quando explicam as escusas para intervir em comissões às quais pertencem, provam a sua honestidade.

 – A menos que peçam a colegas para agirem em seu nome.

 – Ou apresentem conselhos de agências como a minha. Tudo isso permite apagar as ligações entre um projecto-lei e o deputado que o defende. Não existe nenhum conflito de interesses aparente entre as partes.

 – Conhecia a prática mas nunca pensei nessas subtilezas.

 – Se aceitar a minha proposta contrato-o como advogado com o salário de um Primeiro Ministro.” – este é um exemplo (retirado do episódio 6) de um dos excelentes diálogos que podemos seguir em Os Influentes.

A novidade nestas produções é a exposição total. Nenhum detalhe é esquecido. Quem nunca passou pelos bastidores da política pode agora fazê-lo em casa, sentado no sofá. O papel decisivo dos spin doctors na intriga política, a extraordinária importância que se dá, quando se trabalha a um nível muito profissional, a pormenores como a largura do tampo da mesa que vai estar em estúdio para um debate televisivo, a promiscuidade entre assessores e jornalistas e consequente instrumentalização da Comunicação Social, a apropriação da mensagem política pelo marketing, a transformação de candidatos em produtos, os golpes da baixa política, tráfico de influências, conflitos de interesses, corrupção, tudo se desvenda.

A House of Cards falta-lhe a contenção europeia. A luta pelo poder do protagonista, Frank Underwood (Kevin Spacey interpreta-o tão bem que se arrisca a ficar para sempre com este personagem colado à pele), embora fortemente inspirada na realidade cede a exigências comerciais e até morais. Exagerando na amoralidade da política – Frank já teve que semear alguns cadáveres na sua ascensão ao Nirvana – a série, ao mesmo tempo que atrai nos EUA audiências que gostam de acção, não fere as susceptibilidades de um público mainstream que apesar de tudo prefere uma barreira protectora de ficção à volta das suas instituições. Não por acaso, Obama já disse publicamente que é fã desta série. Prova maior de que é confortável para o meio que pretende retratar.

Mas desviei-me do ponto. Porquê isto agora? Penso que se trata de uma questão de percepção de maturidades. A crise das democracias revelou eleitorados cada vez mais difíceis de conquistar, porque tal como nos casamentos gastos, já não têm mais nada a aprender com o outro. Sabem tudo, não vão em conversas. Sabem demais. Daí os níveis crescentes de abstenção, o desinteresse.

Já não há nada a esconder, nem os podres, que escândalo a escândalo, se foram derramando nos jornais, por isso por que não desocultar segredos de polichinelo e partilhá-los na praça pública? Alguém ligado aos media um dia pensou nisto. Pensou que podia fazer da fonte das nossas frustrações cívicas um sucesso mediático. E acertou em cheio. Seguir estas séries é catárctico. Estávamos mesmo a pedi-las.

 

Foto de: Os Influentes

0 comentários em “A moda da política sem filtros na TV”

  1. ” Ignoro se foi House of Cards a acender o rastilho, mas o que me interessa é perceber porque só recentemente os jogos de poder, tão velhos como o mundo, passaram a receber este tratamento laboratorial. “

    House of Cards é mais recente do que Borgen e trata-se de um remake de uma série inglesa com mais de 20 anos:
    http://www.imdb.com/title/tt0098825/?ref_=nv_sr_2

    De qualquer modo, creio que há hoje mais canais de televisão – alguns online, como a Netflix, produtora de House of Cards -, o que leva à necessidade de aumentar a quantidade de programas. Provavelmente também nunca houve tantas séries policiais – e hospitalares e de tribunal – ao mesmo tempo. E como o universo político estava subrepresentado na televisão…

    (Esqueceste-te de Veep, aparentemente menos profunda mas, na sua acumulação de interesses pessoais, gaffes e show-off para consumo dos media, provavelmente mais realista do que House of Cards.)

    1. Falei preguiçosamente das séries que vejo, sem trabalho prévio de pesquisa, como o teu esclarecimento, que agradeço, deixou bem claro. Não sou grande consumidora de televisão. A Veep, que referes, não conheço. Mas o aumento da oferta de séries sobre política não me passou despercebido pelo elevado impacto público que algumas tiveram. Claro que com o tempo também elas se vão banalizar e outros temas serão explorados com o mesmo sucesso.
      As exigências do mercado mediático explicam a constante renovação da oferta, mas não necessariamente a forma como novos temas são tratados e o momento escolhido para se lançarem. Isso reflecte l’air du temps, algo que aproveita ao negócio mas o condiciona inexoravelmente.

  2. “e consequente instrumentalização da Comunicação Social”

    Não há instrumentalização alguma de uma cultura jornalistica que é mais política que jornalistica. Ninguém vai para jornalismo para ser jornalista, vai para influenciar a política.

    Obama por exemplo foi uma criação jornalista.

  3. Um pouco no campo da satira, ha tambem o In the thick of it do Armando Iannucci e com o actual Dr. Who, Peter Capaldi.
    Uma especie de update ao Yes Minister, mas bastante bom tambem.

  4. Sendo eu partidário da teoria da conspiração, diria que os políticos são uma cambada e que os eleitores se sentem cada vez mais desinteressadas da política. No entanto gostaria de falar NO SISTEMA FINANCEIRO.

    Voltando á teoria da conspiração, grande parte do século XIX e XX, foi rico em grandes figuras que devido á sua capacidade inventiva, produtiva ou empresarial, criaram por todo o Mundo e Portugal não foi exceção, Empresas que trouxeram a prosperidade a largas camadas da população e criaram a classe média tal com hoje a conhecemos e definimos.

    Com a classe média chegou a Democracia e a Liberdade.

    Esta combinação de Capitalismo, Democracia e Liberdade, mostrou ser imbatível, a criar e distribuir riqueza, no entanto a queda da cortina de ferro, levou a uma mudança geral onde o dinheiro rapidamente se tornou mais importante que democracia e direitos sociais.

    Uma fábrica de camisas em Portugal, que apesar dos baixos salários, tinha salário mínimo, sindicato e descontos para a segurança social, foi transferida para a Republica Popular da China, onde se conseguia multiplicar o lucro por quatro ou cinco, sem problemas de poluição, exigências horárias ou salariais e em especial, sem sindicatos.

    Nunca um Partido Comunista foi tão amigo do Capital, vivam o dinheiro rápido e os amanhãs que cantam.

    Analisemos ainda o modo como percorremos, sob a batuta da Alemanha, o SME I, SME II (sistema monetário europeu), o MTC (mecanismo de taxas de câmbio) e como o Bank of England, foi papado pelo George Soros e saltou fora do € ao qual queria aderir, como chegámos ao € e ao projeto de criação politico dos Estados Unidos da Europa (EUE) e quando qualquer referendo chumbado, era repetido até ser aceite pela populaça, os taralhoucos.

    E finalmente, a importância crescente do € versus a perda de importância relativa do $, a dificuldade crescente dos EUA com a manipulação do preço do ouro, o surgimento de uma crise que apesar de originada nos EUA pelos Banksters, atirou o € para o seu devido lugar e o $ de volta ao seu; devolvendo aos EUA o seu poder Económico e Financeiro, já dos EUE nada, black out total, e ao € a tremideira, se não estoirar de vez, um puro acaso certamente era falta de competitividade…

    Falamos muito pouco dos Banksters, dos EUA e da Europa. Mas esquecemos totalmente a Islândia, que acusou, julgou e prendeu os seus Banksters e de que ninguém fala, ou adota como exemplo, curioso não?

    Eu sei que os jornalistas e os argumentistas das séries de televisão não têm o dever de educar e esclarecer as massas (que saudades do velho Expresso que comprava e lia para aprender qualquer coisinha), trata-se hoje em dia de dar á fruta do chão, aquilo que ela gosta, paga e merece, e portanto mostrar á sociedade o que são e como se comportam verdadeiramente a corga dos políticos.

    A conclusão é óbvia, mais vale acabarmos com a Democracia e as eleições, somos uns incompetentes, só elegemos malandros que nos enganam, nem para nós somos bons, é preferível entregar isto a quem percebe da poda.

    A teoria da conspiração que entrelaça o Capitalismo do seculo XXI e o Comunismo do seculo XXI, que fala dos amanhãs que cantam e do caminho único para o atingir, que protege os Banksters e que obriga a antiga classe média, agora definida como os que viveram acima das suas possibilidades, quer-nos convencer que não há outra solução.

    E até a mim que sou teórico da conspiração, me custa a entender e aceitar, certas contradições óbvias.

    No entanto e apesar dos defeitos, eu prefiro os poderes que são eleitos pelo voto popular, deviam é ser mais, chamem-me parvo…

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