Shirley Temple (1928-2014)
“O tempo prevalece sobre o espaço”, ensina o Papa Francisco. Costumo pensar que temos uma relação muito mais equívoca com o tempo do que com o espaço: à medida que os anos fluem, sentimos que os ponteiros do relógio e as folhas do calendário aceleram a sua marcha inexorável.
Mas nem sempre foi assim. Recordo com frequência as longas tardes de meninice, que ainda chegam até mim com o cunho do infindável. Era tudo mais vagaroso então. E sempre soalheiro: não me lembro de um só dia dessa época que não me traga memórias inundadas de sol.
Um dos meus prazeres de infância era ver as Tardes de Cinema exibidas ao domingo, na RTP ainda a preto e branco. Nada que se pareça com a de hoje: a estação pública de televisão assumia as funções de cinemateca, proporcionando aos espectadores três ou quatro sessões semanais de clássicos da Sétima Arte.
Quando eu era miúdo, durante o período escolar, só estava autorizado a ver os filmes de domingo. Sempre tive o hábito de fazer listas — e conservo ainda o inventário de muitas fitas que ia vendo, semana após semana. Mas das primeiras que vi em televisão, na mais remota infância, guardo apenas memórias fugidias. Não tanto das cenas dos filmes, mas da atmosfera que se respirava lá em casa.
A minha mãe, fervorosa cinéfila pertencente à geração que via matinés duplas ao fim de semana e cultivava o cineclubismo, ia-me falando das actrizes e dos actores de que mais gostava, heroínas e galãs do tempo em que ela era menina e moça. Situando-os na época em que se estrearam, narrava-me episódios relacionados com esse período. Episódios do cinema feito vida, episódios da vida feita cinema.
E, para mim, esse acabava por ser um filme dentro do filme.
“Este vi-o em Angola, num cinema ao ar livre… Ainda me lembro do que senti ao ver esta cena pela primeira vez… Os meus actores preferidos eram o Henry Fonda e o James Stewart: olhava-se para eles e percebia-se que eram pessoas em quem podíamos confiar.”
A menina dos caracóis dourados salvou a Fox e deslumbrou o mundo
O que seria da nossa vida sem tempo — e sem tempo para contar histórias?
Eu ia absorvendo o que ela me contava enquanto absorvia também as imagens e as falas que me chegavam do ecrã. Vários desses filmes, nunca mais os vi: já então me pareciam muito antigos, pertencentes a uma era em que a Mãe tinha a minha idade e a Avó, mãe dela, estava grávida das minhas tias mais novas.
Shirley Temple era da geração da minha mãe: tinham apenas dois anos de diferença e criaram-se naquela década de 30 em que a menina dos caracóis alourados salvou a 20th Century Fox da ruína e deslumbrou o mundo. Quem era criança nessa década guardou para sempre a sua imagem risonha, incorporando-a naquele panteão íntimo a que remetemos todas as relíquias do passado cristalizadas num presente perpétuo.
O verdadeiro espectáculo, para mim, era ver a Mãe novamente criança revisitando aquelas fitas da Shirley Temple de que nem sequer o nome guardo. Lembro-me dela a sapatear com um mordomo negro, a descer uma enorme escadaria de mansão sulista, abraçada em lágrimas a um avô de ar bondoso. E pouco mais.
Com Henry Fonda e John Wayne em Forte Apache (1948)
Certas estrelas de Hollywood tornam-se mitos muito cedo e perduram durante décadas de vida verdadeira sempre ocultas na ilusão desse mito. Aconteceu isso com Shirley Temple, que encontrei pela última vez — adolescente eu, adolescente ela também, com trinta e tantos anos de intervalo entre nós — em filmes como Desde que Tu Partiste, de John Cromwell (1944) e Forte Apache, de John Ford (1948). Absurdamente jovem ainda, mas excessivamente velha para se manter fiel à imagem infantil que a indústria cinematográfica lhe reservou.
Não podia haver fugas ao guião: Shirley disse adeus ao cinema e ficou eternamente jovem no celulóide, espécie de retrato de Dorian Gray às avessas, num toque mágico de que só o cinema é capaz.
Oito décadas depois da sua fulgurante estreia em Hollywood, quando muitos de nós já a supúnhamos transformada num pedaço de eternidade, chega-nos a notícia de que a sua morte física só agora se consumou. Ela que foi contemporânea do presidente Roosevelt e conheceu o último grande sucesso de bilheteira no ano em que começou a II Guerra Mundial.
O tempo prevalece sobre o espaço. Quando soube da notícia regressei por momentos àquela sala, àquele pesado televisor Blaupunkt de válvulas, àquelas imagens a preto e branco, à companhia da minha mãe outra vez muito jovem ensinando-me a gostar de cinema enquanto me explicava sem explicar que um filme é sempre mais que um filme.
Ao ver a Shirley-menina, também ela voltava à meninice. E neste momento em que escrevo o miúdo sou eu só por disso me lembrar também.
Reedito este texto, passando a dedicatória a título. A Mãe já cá não está, mas alegra-me saber que ainda o leu.




Também tivemos isso em comum. Como te compreendo! Abraço renovado.
É isso, Fernando. Várias das nossas memórias privadas funcionam afinal como traço de união com as memórias de muita gente. Agradeço-te, de novo, a presença. E o abraço. E esta amizade já tão longa.
Gostei muito de reler este teu texto. Beijinho
Obrigado, Teresa. E obrigado também por teres comparecido naquele momento tão doloroso.
Um beijo muito grande.
Gostaria que o Pedro só reeditasse este texto daqui a muitos anos…
Forte abraço da Antonieta.
Nunca pensei reeditá-lo tão cedo, Antonieta. Mas a vida é mesmo assim.
Grato pelo seu abraço, que retribuo com muito gosto.
Linda homenagem e belas memórias, Pedro. Parabéns.
Como é bom ter uma Mãezinha. Ainda a tenho agitando suas memórias, e que memórias; e sempre que as agita um peso desce sobre mim, porque parece-me que quer dizer tudo o que falta dizer.
Por vezes interrompo, não porque deseje interromper suas memórias mas a agitação que de mim se apodera em sentir que poderei perdê-la. Não, jamais a perderei. As Mãezinhas são eternas.
Isso mesmo, meu caro Vento. Isso mesmo.
Obrigado.
Grande abraço.
Eu é que agradeço, meu caro amigo.
Não são precisas mais palavras. Bastam essas.
Com o anterior comentário, Pedro, apresento minhas despedidas e, uma vez mais, agradeço o acolhimento.
Este blog é de excelência e as pessoas são de excelência, mesmo nos momentos mais quentes.
Partilham-se aqui projectos, visões e situações, sonhos e esperanças, frustrações, grandezas e fragilidades para a todos lembrar que muito há para caminhar.
Constrói-se um presente, fazendo-nos presente, desejando um futuro que, sabemos, nem todos viveremos.
Mas faz-se memória, que sendo digital é mais memória.
Pretendemos um novo Big Bang; e eu remeto sempre esta nova Criação para o prólogo de S. João:
“No princípio era o Verbo (Logos), e o Verbo estava Junto de Deus e o Verbo Era Deus. Ele estava no princípio Junto de Deus”.
O Logos é a Lógica interna de Deus, por isto mesmo se fe(a)z carne. Se alguém pensar que o alcança de forma carnal erra o alvo.
Este Logos também representa o Monólogo Divino, e, na Carne, o Diálogo com Ele: “procura-Me em ti e procura-te em Mim”. É este o caminho do regresso e a plenitude no Todo da Ex-eternidade até a Eternidade. É o Big Bang do Espírito.
Sim, à medida que caminhamos damo-nos conta de nossas imperfeições, restando-nos, e restando-me, pedir desculpas por qualquer incómodo afirmando sempre que estamos, e estou, em reconstrução. Prometendo sempre ser breve(s). Até breve.
Meu caro: só agora tive oportunidade de ler o que escreveu. Lamento que parta, respeitando no entanto a soberania do seu gesto.
Faço votos para que regresse num prazo curto. Porque este blogue também é dos leitores e nada seria sem eles.
Aproveito para citar estas suas sábias palavras nas quais tanto me revejo:
«Partilham-se aqui projectos, visões e situações, sonhos e esperanças, frustrações, grandezas e fragilidades para a todos lembrar que muito há para caminhar.
Constrói-se um presente, fazendo-nos presente, desejando um futuro que, sabemos, nem todos viveremos.
Mas faz-se memória, que sendo digital é mais memória.»
Um abraço.
🙂
Fizeste bem, Pedro.
Por ti, pela tua mãe. Também por nós que te lemos e agradecemos.
Um abraço.
Meu caro Sérgio: muitas memórias familiares são partilháveis. Porque dizem respeito a toda uma época, a toda uma geração. Não dizem respeito só a cada um de nós.
E é escrevendo textos como estes que, no fundo, ficamos a conhecer-nos melhor. Porque as palavras funcionam como uma catarse. É um dos muitos méritos que lhes reconheço.
Um abraço.
Gostei tanto deste pedaço de memória, Pedro!
Revejo a minha infância em tantas linhas e o amor pela minha mãe em tantas outras.
E a 7ª arte, essa paixão que muda de cor e tamanho, mas permanece intacta.
Beijinho 🙂
É pessoal mas transmissível, Dulce. Porque nenhum de nós é uma ilha: todos estamos inteligados por múltiplos fios de afectos de todo o género. Felizmente não somos apenas seres racionais. Isso é que nos perde, por vezes. Isso é que nos salva, quase sempre.
Grato pelas suas palavras. Uma vez mais.
Belo, e comovedor,texto.
Creia que me comovi ao reeditá-lo. Mais do que ao escrevê-lo.
Obrigado.
Belíssimo texto que, por algum motivo, ainda não tinha lido. Ainda bem que o republicou!
Beijinho.
Senti esse impulso, Cristina. Como um imperativo que estivesse muito para além de mim.
Um beijinho.
Um grande beijinho para ti, Pedro.
Palavras que são um pequeno raio de luz, Joana. Bem-hajas.
Belo e tocante retrato de um mundo que ainda foi meu.
Ser filho é quase tão difícil como ser mãe.
Um abraço maternal, meu querido Pedro.
Um abraço que ajuda a aquecer-me o coração. Muito grato por ele, Helena. E pelas tuas palavras amigas, que não esquecerei.
Pedro, só para lhe deixar um verso de Natália Correia: “creio que tudo é eterno num Segundo”. Um abraço.
É isso, meu caro Carlos. Até por isso nunca devemos perder a noção do que é essencial.
Um abraço amigo.
Tão bonito, Pedro. daqui te mando um beijo e abraço-te
Nestes momentos as palavras amigas são sempre um bálsamo, Patrícia. Como as tuas são. Obrigado.
Um abraço, Pedro.
Muito obrigado, meu caro Zé. Nunca estamos devidamente preparados para vermos partir a nossa mãe. Seja em que idade for.