A minha história devida


Paulo Sousa,

Julgo que tudo começou pela experiência lançada por Paul Auster numa rede de rádios norte-americanas. A ideia baseava-se na leitura de histórias enviadas pelo público, que poderiam ter desde dois parágrafos a duas páginas, e teriam de ser verdadeiras. O sucesso traduziu-se em mais de 4.000 histórias envidas pelo público, que após uma rigorosa seleção alimentaram um programa de rádio durante alguns anos, assim como o livro True Tales of American Life editado pelo escritor.

A Antena1 criou há uns anos uma rubrica inspirada nesta ideia. A História Devida, de seu nome, esteve no ar durante algum tempo e ainda andou pelo Canal Q. Julgo que já tenha terminado.

As histórias que ouvi nesta rúbrica eram na generalidade bastante interessantes. E porque todos temos uma história para contar, que era o mote do programa, um dia também quis participar e enviei a minha história. Foi para o ar em dezembro de 2006, e partilho-a aqui convosco.

12 comentários em “A minha história devida”

  1. Também fui dos que enviaram estórias para o programa “histórias devidas” da Antena 1, mas, infelizmente, nunca consegui ouvir a minha história lida aos microfones pela boca do Miguel Guilherme. Todavia tive o gosto de a ver publicada na coletânea de histórias, então editada pela ASA, editores, L.da.
    Ouvi agora a sua, de que gostei.

      1. A minha estória levou o título “um significado peculiar”, mas talvez fizesse melhor dar-lhe o nome “Ó Pinto não faças ondas”. Se me ler, dirá.

  2. Que bonito, Paulo, gostei imenso de ouvir a sua história.
    Lembro-me de ouvir esse programa da Antena1, quem sabe se não terei também ouvido a sua História Devida.
    Do Paul Auster tenho 15 livros (fui espreitar à estante) e esse que refere também lá está :))

    Bom fim-de-semana!
    🌼
    Maria

    1. Quinze livros de um autor só é obra!! O máximo que tenho são apenas catorze!!
      Há alguém cá em casa sempre a repetir que são demasiados mas a lista do que quero ler nunca mais acaba… e não tenho nenhum do Paul Auster
      Obrigado pelo comentário

      1. E não tenho todos, mas já agora também tenho 3 filmes, 2 livros da wife (Siri Hustvedt) e 1 da ex-wife (Lydia Davis)
        Ia comprando um por ano à medida que iam saíndo…
        Não diga a ninguém, mas tenho muito mais do que 14 do Saramago e do Fernando Pessoa, por exemplo.
        Enfim, sou uma desgraça.

        Obrigada eu :))
        🌼
        Maria

  3. É na verdade uma boa história e gosto de as ler. Parabéns se bem que a sua qualidade já foi reconhecida por quem de direito. De Paul Auster tenho um único livro, não me lembro o título mas sei que não gostei. Foi-me oferecido e fiquei por ali.

    1. Nos dias de hoje poderia ser um breaking news na CMTV, mas tendo acontecido nos anos 70 ficou apenas pela “História devida”.
      A maior dimensão pessoal da história resumem-se de facto às memórias daquela época, à forma como se vivia, à simplicidade com que enfrentava os obstáculos da vida e … aos meus avós, que se iriam rir às lágrimas por saberem que o que para eles foi um dia normal chegou à rádio nacional.

  4. Bom dia, Paulo Sousa.
    Não consegui ouvir a sua história de vida devido a um áudio deficiente, mas vou esperar que a minha neta acorde para lhe pedir emprestado uns auscultadores de alta potência dos quais é proprietária para a ouvir a sua história de vida, que se mereceu a distinção para ser publicada, certamente mais merecedora é de ser conhecida.
    Fiquei na dúvida se os 14 livros que tem em casa são de um só autor ou se são a totalidade. De livros de um só autor, por cá só de Alexandre Dumas tenho 59 volumes. Volumes porque há obras que são compostas de dois a seis volumes.
    Ninguém se queixa do espaço ocupado, porque infelizmente o espaço é todo meu, mas mesmo quando não era ela queixava-se de muita coisa menos da ocupação livreira.
    Esse programa da Antena 1 ouvi falar, mas não participei. Contudo, e se o Paulo Sousa não vir inconveniente ou considerar abusiva a minha pretensão, gostaria de partilhar aqui uma história de vida, a minha, talvez a mais importante e que influenciaria toda a minha estrutura cerebral, – nunca saberei se para melhor ou pior, – ocorrida aos seis anos de idade.
    Votos de um excelente fim-de-semana.

  5. Bom dia de novo, Paulo Sousa.
    A história é esta, ressalvando porém o que disse no meu comentário: se achar abusivo ou inconveniente ocupar o seu espaço com ela, simplesmente não a publique que eu compreenderei perfeitamente.

    Dois anos depois do meu pai nos ter deixado naquela pequenina casa daquela ainda mais pequenina aldeia incrustada no sopé da grande serra; à minha mãe, a mim com quatro anos e às minhas irmãs, uma com cinco e outra em ventre materno e ter abalado em demanda de terras africanas onde se constava que era só abanar a árvore, embarcávamos no “Mouzinho de Albuquerque” numa viagem que juntaria a família em Angola, onde, tudo o indiciava, o meu pai soubera com arte e proveito abanar devidamente a árvore.
    O navio era velho e pequeno, navegava devagar e às vezes até parava. Essa seria mesmo a sua última viagem.
    A minha mãe enjoou logo ao início e a minha irmã mais nova, essa embarcou já doente mercê de uma malga de azeitonas galegas que a tia Rosa lhe dera, pitéu a que a miúda não resistia. Esteve mesmo em risco de vida, mas escapou.
    De modo que com essas duas de cama, foi a minha irmãzinha mais velha com os seus responsáveis sete aninhos a ter de assumir a responsabilidade por todos, mais concretamente por aquelas duas inúteis, que eu sabia bem tomar conta de mim e não dava trabalho a ninguém. Tinha liberdade, por mim estava tudo bem e não carecia de mais nada.
    Assim, corria o barco de popa à proa, à minha maneira sem ser minimamente molestado com parvas recomendações disto e daquilo, e ao contrário da minha mãe e irmãs que se lamentavam que aquilo nunca mais acabava, só pedia que tivessem razão porque não me incomodava nada viver o resto da minha vida lá dentro.

    (segue)

  6. Ia também nessa viagem um contingente militar, desses que o Governo mantinha nas colónias, com quem no primeiro minuto travei conhecimento e por quem ainda mais rapidamente fui adoptado como mascote. Andava com eles para todo o lado, comia com eles, via-os beber vinho pelos garrafões, jogarem às cartas e cultivar-me-ia a preceito na sublime retórica do palavrão.
    Enfim, a minha felicidade era plena e só me queria ver grande depressa para envergar aquela bela farda de caqui amarelo e combater em todas as guerras deste mundo, porque guerra foi a palavra mais ouvida na minha infância. Nasci em 40 e estava-se agora em 47.
    Declinava um certo dia quando eu me passeava por ali, frustrado por não ver ninguém, quando reparo num militar que de costas para mim debruçado sobre a amurada contemplava o mar, perdendo-se sabe-se lá em que estranhas divagações.
    Era um homem grande, ainda o estou a ver.
    Corri para ele, contentíssimo pelo ocaso da minha solidão ter chegado ao fim, e ele quando me viu pareceu ficar muito surpreendido. Baixou-se ao meu nível e vi-o olhar receoso para todas as direcções. Ninguém nas imediações.
    Então soergueu-se, comigo segurado pelos braços, estendeu os dele comigo nas suas mãos, colocou-me fora o barco e disse-me numa voz rouca e segredada, que ainda hoje estremeço quando a recordo:
    – E se eu te deixasse cair?
    Não soube o que senti. Olhava para baixo, para o que me parecia um abismo interminável, e na medida em que a escuridão que já caíra me permitia, via água ondulante lá em baixo. Então algo explodiu na minha cabeça pedindo-me para não gritar.
    Depois ele jogou comigo. Largava-me e apanhava-me, largava-me e apanhava-me. Por vezes jogava-me mais acima, deixava-me cair e apanhava-me no último instante.
    Subitamente soube que me ia deixar cair. Vi-lhe nos olhos a decisão, até lhe senti o afrouxar das mãos.
    E exactamente nesse momento, um barulho fez-se ouvir mais acima, que se foi gradualmente tornando mais distinto à medida que se aproximava. Dois marinheiros vinham por ali conversando.
    Provavelmente com medo que eu gritasse ao ser largado, recolheu-me rapidamente, pousou-me atabalhoadamente sobre o tombadilho e fugiu a correr para a parte oposta.
    Nos quatro dias restantes para término da viagem nunca mais saí do nosso cubículo, pomposamente alcunhado de camarote.
    Tinha feito há pouco seis anos. Todas estranharam a minha súbita dedicação familiar, mas nunca souberam nada, nem nunca saberiam.
    Mas soube eu, e saberia tudo. A partir desse episódio nunca mais esqueceria nada e recordo todos os factos da minha vida até à data de hoje. Todos! até o mais insignificante.

    Muito obrigado e votos de excelente fim-de-semana.

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