Tinha-me cruzado com o Professor João Lobo Antunes por duas ou três ocasiões, por motivos profissionais, mas nunca tinha falado (e nunca falei pessoalmente) com ele. Desses breves momentos, nunca fiquei com a ideia de que seria uma pessoa simpática, pelo contrário, daquilo que ia vendo e conhecendo do Professor João Lobo Antunes, enquanto personalidade pública, sempre o considerei algo elitista e pouco acessível (nada que me incomodasse), mas nunca tive dúvidas quanto à sua rara envergadura intelectual e, sobretudo, quanto à sua firmeza nas convicções ideológicas que tinha.
Em Maio último, por razões que um dia poderei contar, tive o privilégio de trocar alguns e-mails com João Lobo Antunes. Fiquei esmagado com a sua dureza de argumentos intelectuais e ideológicos. O professor foi impiedoso comigo, mas ao mesmo tempo concedeu-me o privilégio de poder rebater e contra-argumentar, tendo eu as devidas réplicas da sua parte.
Divergimos naquilo que era o âmago da questão, com João Lobo Antunes a expor os seus argumentos de uma forma duríssima, como nunca ninguém me tinha confrontado. Ao projectar a sua intelectualidade e ao exprimir as suas convicções, acabei por perceber que João Lobo Antunes me tinha concedido um estatuto merecedor do seu tempo e atenção.
No final, e depois de ter literalmente arrasado os meus pontos de vista, embora eu me tenha mantido firme em relação àquilo que defendia, o Professor João Lobo Antunes despediu-se de uma forma que nunca irei esquecer e que tanto me orgulha. Só um homem de tal inteligência, sofisticação e elegância responderia o que ele respondeu. Mas isso, fica só para mim.

Devo confessar-lhe que nunca sei onde e como devo colocar as mãos e os braços perante uma morte e diante de um morto. Porém sei onde devo colocar os pensamentos.
Estou em crer que o angustiado metafísico é aquele que se interroga quase ininterruptamente sobre o que falta cumprir, sobre a forma como se cumpriu o realizado e também sobre o que se não cumpriu por desperdício.
Não vou reflectir sobre estas questões nem tampouco dar-lhes resposta; e não respondo porque sei que um angustiado metafísico é um crente. E para um crente, também como eu, a ciência não é vida, simplesmente adia a morte.
Vida, para um crente como eu, é saber que os homens não são deuses. E uma vez que a matéria abrange a crença e a angústia metafísica interrogo-me sobre a afirmação de Cipriano (bispo) que consta em “Os homens não são deuses”: “O que o Homem é Cristo quis ser, para que o homem pudesse ser o que Cristo é.”.
Diz-me a ciência, a do conhecimento, que esta afirmação está relacionada com a sentença de Jesus no Sermão da Montanha: “Vós sois sal da terra e luz do mundo” (Mt 5,13-14).
Porém acredito, por agora, que a angústia metafísica reside no facto de, para se cumprir tal sentença, ser necessário que o Homem se apague e deixe salgar. Sei à priori que matematicamente poder-se-á estar perante um conflito, um conflito para aqueles que acreditam que “o reino dos céus é dos violentos” (Mt 11,12), isto é, daqueles que verdadeiramente se contrariam.
Sobre Lobo Antunes pouco tenho para dizer. Mas posso reflectir sobre o que Lobo Antunes afirmou. Ele disse ser um angustiado metafísico.
Como o Wells para Joyce!? O mundo é suficientemente grande para que ambos possamos estar errados.