A minha


Teresa Ribeiro,

Nunca lhe chamei mamã ou mãezinha. Dizia “mãe”, o nome essencial, a designação científica da árvore.  Tive-a toda ela pão com manteiga e rissóis, lençóis lavados e banhos à força. Pertenço à última geração que teve mães em casa, por isso naquele tempo ser mãe assim era tão banal como uma pedra.

Um dia descobri que quando tinha cólicas se dissesse “mãe”, aliviava. De modo que para me fazer entender explicava-lhe, se me sentia aflita, “é o dóidói que diz mãe” e então ela ficava a saber que as dores eram sérias e punha-me logo a mão na testa e dava-me massagens na barriga. O alívio se não imediato, estava garantido porque ela era a porta por onde saíam as coisas más.

Muitos anos depois censurei-a “foi um disparate teres deixado de trabalhar!” Mas isso foi quando a Beauvoir finalmente entrou na minha nomenclatura. Quando a lembro tem sempre aquela idade, que é a idade das mães e eu aquele tamanho, que é o tamanho das filhas e se a descrevo é de mim que falo. De me mim migo. Do meu umbigo.

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