"Escucho con mis ojos a los muertos
Y vivo en conversación con los difuntos."
Quevedo
O Chico cantautor, sem dimensão de prosador, sem estatura para abraçar a chamada ‘grande literatura’, é um lugar-comum que se vai desfazendo de livro para livro. Que começou a desfazer-se logo na obra literária em que se estreou como romancista – Estorvo (1990). Francisco Buarque de Holanda, o Chico que nos seduziu com tantas canções inesquecíveis desde os anos 60, é hoje um escritor de primeiro plano no Brasil. E é mais que isso: tornou-se um dos autores imprescindíveis da literatura contemporânea de expressão portuguesa. As suas qualidades literárias, patentes em títulos como Benjamim (1995) e Budapeste (2003), são ainda mais evidentes no seu último romance: Leite Derramado. Uma obra em que Chico Buarque utiliza toda a requintada técnica de escrita que desenvolveu em décadas de autor de canções, aperfeiçoando-a ao máximo. Cada parágrafo, cada frase, cada jogo de palavras têm uma musicalidade perfeita. O autor de Ópera do Malandro domina o idioma como poucos: com ele, a língua portuguesa atinge uma plasticidade única.
Leite Derramado fala-nos do drama de uma sociedade de gente surda, em que ninguém tem tempo ou paciência para escutar a voz de um velho cheio de histórias para contar. Esse velho, já centenário, chama-se Eulálio Montenegro d’ Assumpção e cultiva memórias de um Rio de Janeiro que há muito deixou de existir. Descendente de portugueses, é um vulto da aristocracia carioca de outros tempos cuja biografia só confirma uma frase que costumava ouvir em criança na defunta mansão familiar de Copacabana: “Pai rico, filho nobre, neto pobre.”
É um livro que nos transporta ao Rio de Machado de Assis, com quem Chico Buarque estabelece um curioso diálogo literário, como sublinhou o crítico brasileiro Heitor Ferraz: tal como em Memórias Póstumas de Brás Cubas, também aqui “aparentemente não acontece nada” nem “nenhuma narrativa se estabelece como determinante”. Chico Buarque encadeia as frases como se fossem um fluxo contínuo de pensamentos desordenados. Mas resistindo sempre às armadilhas da literatice e dos efeitos retóricos: raros romancistas têm um ouvido para a escrita como o autor de Leite Derramado. A voz do velho Eulálio, com uma patine secular, é totalmente credível na sua elegância ultrapassada, com um requinte antigo e fora de moda: já ninguém fala hoje assim num Brasil obcecado pela ‘modernidade’.
Caramba! Um texto de 5 estrelas, compadre.
Faço minhas aspalavras anteriores
E digo mais: caramba!
:)))
E eu derramo aqui as minhas felicitações. Está excelente o teu texto.
Excelente, Pedro.
Junto os meus parabéns, Pedro. O texto está um primor e o livro vai ser uma das minhas leituras de férias (se já estava na calha, agora passou para primeiro lugar!). Concordo com a tua análise da musicalidade das palavras do Chico Buarque, fruto dos muitos anos de letrista. Dos romances anteriores só li Budapeste, e já era notória essa influência e essa escola de melodia nas palavras.
Derramado fico eu com as vossas palavras. A quem ainda não leu, reitero a recomendação: este livro é uma excelente companhia, em férias ou fora delas. Quanto a quem já leu, aposto que não ficou com uma opinião muito diferente da minha.