A maldição endogâmica


Diogo Novo,

Há muitos anos, quando estudava os sistemas políticos dos países lusófonos, o docente da cadeira enquadrava os males de São Tomé e Príncipe numa moldura demográfica. Com cerca de 120 mil habitantes, dizia, a endogamia era inescapável. O problema reflectia-se na vida política, mas não só. Num tribunal, a elevada probabilidade de juiz e réu se conhecerem tanto podia jogar a favor como contra o acusado, mas nunca jogava em benefício da Justiça. A reduzida dimensão populacional era, portanto, uma maldição.

Mais tarde conheci um pequeno país, também insular, chamado Islândia. Não chega aos 350 mil habitantes. Por razões geográficas e climatéricas, o país é feito de concentrações demográficas, o que, em teoria, deveria acentuar a predisposição para os males que advêm da endogamia. Contudo, e independentemente das razões que o justificam, a realidade é outra: há lisura na condução da vida pública e cuidado com os potenciais conflitos de interesses. Quando uma linha vermelha é cruzada, os mecanismos legais e a vontade popular repõem a normalidade democrática.

O que separa estes dois Estados é a cultura política e a noção de cidadania plena. Qualquer outro argumento não passa de uma desculpa.

0 comentários em “A maldição endogâmica”

  1. Por cá até vão elegendo as redes sociais como principal, ou mesmo único bode expiatório das nossas tristes e mal disfarçadas misérias.
    Poupam-se cobardemente rádios e televisões, grandes potes de veneno em caca ao serviço dos grandes e poderosos, a quem descaradamente fazem fretes sem lhes chegar o mau cheiro às ventas.
    Por isso é que se arrogam o direito de tentar abater quem com defeitos e feitios lhes vai fazendo mossa, mas onde se mija tão à vontade que até se pode fazer fora do penico sem nos sacudirem o coiso, e não tendo que afocinhar de queixos na imunda gamela da porcaria.
    O pecado mortal da nossa cidadania ainda está acima e além, fora de avaliação estruturada e escrutínio validado do comum dos mortais.

  2. Mais ou menos a meio caminho entre São Tomé e a Islândia fica a Madeira, terra dos Jardins e dos Perestrelos.
    E logo a seguir ficam os Açores.
    São endogâmicos?

  3. Tal como este post torna claro, a endogamia não é uma maldição; o que é preciso é “lisura na condução da vida pública e cuidado com os potenciais conflitos de interesses”.
    Ou seja, o facto de ser toda a gente das mesmas famílias não implica que não haja “lisura na condução da vida pública e cuidado com os potenciais conflitos de interesses”.
    Não se pode propriamente falar de endogamia antes de se provar que não há “lisura na condução da vida pública e cuidado com os potenciais conflitos de interesses”.

    1. Tenho um conhecido que foi apanhado com 2 kg de coca no porta luvas do carro. Perante o facto esse meu conhecido disse, às autoridades, que alguém o tinha posto ali, porque não tinha trancado o carro, quando foi ao Pingo Doce comprar umas costeletas de porco…ouvi dizer que as não comeu, mesmo com toda a lisura da sua explicação

  4. Na sociedade islandesa está muito presente o problema da endogamia, pelo que está disponível a qualquer cidadão a possibilidade de averiguar os seus antepassados e saber se numa dada relação existem laços de consanguinidade com a(o) parceira(o). Par além de uma sociedade civil muito forte e reinvindicativa, a democracia directa é praticada a muitos níveis e os recursos naturais (embora) escassos e sobretudo geotérmicos proporcionam um nível de vida bastante alto, num país onde os impostos servem efectivamente para proporcionar serviços de alta qualidade à população.

    1. Os recursos naturais da Islândia são escassos?!
      Eu diria que são relativamente abundantes. Grande quantidade de energia (não somente geotérmica mas também hídrica), o que faz com que grandes produtores de alumínio se instalem na ilha, uma vez que a eletricidade é muito barata, e também muito peixe.
      Em termos de recursos naturais, a Islândia está bem fornecida. Foi aliás o que lhe valeu a seguir à crise financeira – voltaram-se para o peixe, em que são imbatíveis.

  5. Na Islândia é tudo óptimo, não é como Portugal. Lá não há vigaristas, nem ladrões nem banqueiros aldrabões. É tudo certinho.

  6. Tiro respeitosamente o chapéu : dão-se várias voltas ” ao problema” sem mencionar , uma única vez, ” a fauna”, para o dizer de alguma maneira…
    Viva o pulhiticamente correctíssimo…

    JSP

  7. A minha mana esteve por lá e disse-me, no regresso, que as mulheres são basicamente todas aparentadas da Björk, que a(s) via partout.

    Tratando-se de um território, de facto, pequeno – zonas habitadas – pareceu-me normal, a ela causou-lhe uma certa confusão a incrível semelhança entre as mulheres.

    _________
    O pior foi a parte – viagem de trabalho – onde tentaram oferecer aos palradeiros (uma conferência, colocando em contexto) as “melhores iguarias” e, após o tubarão podre, lhe terem dado pela goela abaixo um copo de uma aguardente capaz de alevantar naves espaciais 😀

    _________
    (ainda hoje não sei se recuperou… :)))

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *