A mais eficaz comunicação política


Pedro Correia,

Três frases apenas: «Peço desculpa. Cometi um erro. Não voltará a acontecer.»

O reconhecimento de uma falha grave. E o consequente pedido de perdão aos espanhóis, de forma digna mas sem aura de majestade: foi assim que o Rei Juan Carlos, ainda no hospital onde foi sujeito a uma intervenção cirúrgica, reagiu às inúmeras críticas que recebeu pela insólita, inaceitável e acidentada caçada aos elefantes no Botsuana, já aqui dissecada pelo Rui Rocha com justificável acutilância.

Três frases que dizem muito. Claras, directas, incisivas. Sem sofismas nem subterfúgios. «O Rei entendeu a mensagem dos espanhóis», observou Lucía Méndez, no El Mundo. Cara a cara, olhos nos olhos. Com palavras que todos entendem.

A mais eficaz comunicação política é a que não contorna os problemas nem procura camuflar as dificuldades.

Pensar o contrário é um profundo equívoco.

16 comentários em “A mais eficaz comunicação política”

  1. Carissimo,

    Sim, mas para isso “Hay que tener-los”. Nunca esquecerei a noite do Golpe do Tejero Molina em que envergou o uniforme de General do Exercito e foi à TVE esclarecer inequivocamente – e entenda-se á cabeça o próprio Exército – de que era para se continuar a seguir a via democrática.

    Forte abraço,

    1. ‘Hay que tener-los, por supuesto’. A verdadeira data da entronização de D. Juan Carlos ocorreu precisamente nessa noite dramática de 23 de Fevereiro de 1981.
      Um abraço amigo, meu caro.

  2. De um Rei que pede desculpa ao seu povo a um Presidente que nunca tem dúvidas e raramente se engana, vai um abismo. Talvez isso ajude a explicar muitas das diferenças que há entre nós.

  3. Literalmente… “sinto muito” e não “peço desculpa”.

    “Embora Sua Alteza o Infante Alfonso não estivesse a efectuar a limpeza do revolver, estando esta com o seu irmão, um tiro foi despedido, acertando na sua testa e matando-o em minutos.”

    O irmão era Juan Carlos, e o ano 1956, Estoril…

    Sabe-se que sempre ficou muito grato aos portugueses, e talvez a Salazar, Balsemão, etc…

    Mas isso não o impediu de continuar na caca grossa com tiros no pé…
    Há palavras e há acções continuadas.

    1. A frase foi entendida essencialmente como um pedido de desculpa. É esse, aliás, o significado da expressão ‘sinto muito’.
      A propósito, lê-se na manchete do ‘El Mundo’ de hoje (aliás ontem, quinta): «Amplio respaldo de los partidos politicos a la petición de disculpas del Rey Juan Carlos.»

  4. É fácil reconhecer erros quando sabemos que estes não têm consequências. Não sei o que diria o rei se tivesse de disputar eleições.

    O rei errou e pediu desculpa. Para o ano vai caçar tigres para a Índia e se cair do elefante pede desculpa outra vez.

    1. Se o Rei tivesse de disputar eleições, deveria reconhecer um erro da mesma forma. Aliás, deveria reconhecê-lo por maioria de razão.
      Este caso foi notícia por ter sido a primeira vez que Juan Carlos admitiu publicamente ter errado em 37 anos de reinado.

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