A luta pela verdadeira jihad


Diogo Novo,

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Aparentemente, Gaza é o mais recente palco das antigas e recorrentes lutas fratricidas entre jihadistas. Num artigo publicado na New York Review of Books, Sarah Helm relata o conflito entre o Hamas e o auto-denominado Estado Islâmico – ou Daesh, preferência do nosso Pedro Correia –, uma disputa que pode empurrar a região para uma espiral de violência com consequências imprevisíveis.

O desafio não é novo para o Hamas. Em 2009 publiquei um artigo [download] onde, entre outros aspectos, analiso o conflito entre o Hamas e a organização jihadista Jund Ansar Allah (JAA). Numa primeira fase, não apenas por afinidade ideológica, mas também por convergência de interesses, o Hamas contemporizou com vários grupos jihadistas, entre os quais o JAA, um pequeno grupo próximo da al-Qaeda. Quando este último, para além de atacar Israel, pôs em causa a autoridade política e as credenciais islamistas do Hamas, o assunto acabou em banho de sangue. Naquela altura o Hamas saiu vitorioso. Fazendo fé no relato de Sarah Helm, a história repetiu-se na transigência e pode estar prestes a repetir-se no desfecho sangrento. Acontece que o Daesh, ao contrário do JAA, não é uma pequena organização e, por isso, está por saber quem sairá vencedor.

Há, contudo, uma curiosidade que creio valer a pena mencionar. Dá-se a ironia de que o Hamas esteja a ser vítima do seu próprio veneno. Durante anos, sempre que a Fatah/Autoridade Palestiniana iniciava negociações com Tel Aviv, terroristas do Hamas lançavam rockets contra Israel, dinamitando assim qualquer hipótese de diálogo. Agora que o Hamas tem responsabilidades de governo e parece estar disposto a dialogar com Israel, são os grupos pró-Daesh a recorrer à velha táctica bombista do Hamas. A vida na oposição é sempre mais inconsequente.

Ainda que o chamado “islamismo radical” seja frequentemente entendido de maneira indiferenciada, como um todo coerente e homogéneo, a verdade é que existem profundas diferenças entre as várias organizações e movimentos que se inscrevem no espaço do radicalismo de inspiração islâmica. É essa diversidade que explica o habitual arremesso de acusações de apostasia e de conduta herética entre radicais, especialmente entre aqueles que seguem a via terrorista. Deserções, conspirações e cisões são marca identitárias do jihadismo contemporâneo, o que nos deve obrigar a reflectir sobre a tão propalada ideia de uma frente jihadista comum contra o Ocidente. Aqui, como na maior parte das coisas, a realidade insiste em ser mais complexa.

0 comentários em “A luta pela verdadeira jihad”

  1. Numa primeira fase, não apenas por afinidade ideológica, mas também por convergência de interesses, o Hamas contemporizou com vários grupos jihadistas

    Numa primeira fase, não apenas por convergência de interesses, mas também por afinidade ideológica, os Estados Unidos da América contemporizaram com vários grupos jihadistas, entre os quais a Al Qaeda e o Estado Islâmico.

    1. Lamento decepcionar, mas o que escreve não é inteiramente verdade. Bom, não é verdade de todo. Mas enfim, a avaliar pelos seus comentários aqui no DO creio que isso também não interessa nada.

      1. Enquanto a Al Qaeda era uma rede de pessoas que se dedicavam a combater a ocupação soviética do Afeganistão, foi não somente tolerada mas, de facto, armada pela CIA e muito elogiada nos media ocidentais.

        Enquanto o Estado Islâmico era uma organização que se dedicava a combater Assad no vale do Eufrates, os EUA toleraram-no bem. Só se chatearam quando ele ultrapassou o seu objetivo útil e resolveu ocupar partes do Iraque.

        Portanto, houve convergência de interesses

        Quanto à afinidade ideológica, é claro que os EUA não são fundamentalistas islâmicos sunitas. Mas têm bons aliados que o são – a Arábia Saudita, de longa data, e, mais recentemente, a Turquia (e o Qatar, e os EAU).

    2. Pois Luís Lavoura… os biliões de dólares em material e armamento que os Estados Unidos da América deram à União Soviética não só demonstram afinidade ideológica como uma amizade ideológica entre Capitalismo e Comunismo…

  2. existem profundas diferenças entre as várias organizações e movimentos que se inscrevem no espaço do radicalismo de inspiração islâmica

    Basta ver que algumas dessas organizações são xiitas (caso do Hizbullah) e outras são sunitas. E algumas são financiadas pelo Irão (caso do Hamas, ao que se diz) e outras pela Arábia Saudita ou por cidadãos seus (caso do Estado Islâmico).

  3. Obrigada pelo primeiro comentario do Luis que colocou a questão nos devidos termos. De facto comparar o Hamas com o Daesh, apesar de tudo parece-me um bocado forte; e, por omissão, tentar lavar a atuação dos EU e suas cumplicidades mais do que discutíveis também não me parece correto.

    1. Cara Fernanda, e a sua omissão quanto ao Irão? Aliás, já que falamos de Daesh, não acha que lhe falta qualquer coisa a respeito da Rússia?

      Vê? Quando nos afastamos do assunto em discussão, as omissões são infindáveis.

    2. Um Palestiniano vivo/morto a ser puxado por motas do Hamas porque cometeu qualquer crime é para si perto ou longe do Estado Islâmico Fernanda?
      Ou ser exposto num poste a sangrar?

      Os conflitos Islamistas só surpreendem quem parece se esquecer os conflitos dos Marxistas.
      Movimentos que se arrogam do poder totalitário as discordâncias acabam em morte muitas vezes. Quando não pior.

      Ao invés se alguém sai do Partido Socialista em Portugal o mais que lhe pode acontecer é nunca mais ser convidado para uma entrevista por um jornalista.

      “deve obrigar a reflectir sobre a tão propalada ideia de uma frente jihadista comum contra o Ocidente.”
      Não é preciso a frente ser comum para ter resultados comuns contra o Ocidente.

    1. Tens toda a razão. Coincidência imperdoável! Mas todos sabem que JAA há só um e escreve no Delito de Opinião. (Aliás, há só mesmo um já que o JAA-jihadista foi aniquilado pelo Hamas).

  4. Torna-se indecifravel e irrelevante distinguir estas agremiações de lunaticos, infelizmente muito perigosos.
    O que me salta a vista é que o resultado final, é uma consonancia estranha com os interesses de Israel (pelo Hamas). Como não acredito em bruxas fico-me pela consonancia estranha, essa sim existe e é real

  5. Caro Diogo
    Eu achei forte, o que quer dizer, mal colocada, a comparação entre o Hamas e o Daesh, de facto o Hamas é considerado uma organização terrorista por Israel, o que faz alguma diferença.
    Quanto à Russia, estou longe de nutrir qualquer simpatia pelo srº Putin, como não nutri pelo srº Bush filho e seus acólitos que, se pensarmos bem, têm muitas culpas no cartório quanto ao que se está a passar. Em relação a Putin, americanos e europeus estão constantemente a provocá-lo e a dar-lhe força para se consolidar no poder a nível interno; veja-se o caso da Ucrania e da sua integração na Nato, se isto não é uma provocação, não sei o que é.

    Resumindo, o que penso é que a política externa americana e europeia tem sido muito estúpida e orientada por interesses inconfessáveis que nada tem a ver com os interesses e a proteção do bem público.

  6. ” … de uma frente jihadista comum contra o Ocidente.”
    Aparentemente com a prestimosa colaboração da D. Merkel e dos seus conselheiros.
    A Sra. DDT agora mete os pés pelas mãos. Tarde de mais ?.
    Esta UE made in germany tinha que, mais uma vez !, ficar perigosa.

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