A liberdade não existe sem esforço


Pedro Correia,

Albert Camus, uma das maiores referências morais do mundo do pós-guerra, deixou bem claro que a questão dos meios é fundamental na definição de qualquer objectivo político. Por esse motivo, entrou em ruptura com o marxismo clássico e com os seus expoentes da época, remando contra a maré dominante que glorificava o estalinismo. Para ele, a libertação do homem jamais poderia servir de pretexto para justificar um acto criminoso. As bombas lançadas sobre Hiroxima e Nagasáqui eram tão imorais, sob este ponto de vista, como os campos de extermínio nazis.

Esta defesa intransigente do argumento moral, contra os pragmatismos de todos os matizes, contribui para a grande actualidade do pensamento de Camus – romancista, ensaísta, dramaturgo, polemista, repórter, colunista do jornal Combat, que iniciou a publicação clandestinamente na França ocupada pela tropa nazi e onde pela sua pena se publicaram editoriais inesquecíveis que constituem não só uma lição de jornalismo mas também uma lição de cidadania.

 

“Hoje, 21 de Agosto [de 1944], no momento em que surgimos, dá-se a libertação de Paris. Após 50 meses de ocupação, de lutos e de sacrifícios, Paris renasce com o sentimento de liberdade, apesar dos disparos que subitamente soam na esquina de uma rua. Mas seria perigoso recomeçar a viver com a ilusão de que a liberdade devida a um indivíduo lhe é concedida sem esforço nem dor. A liberdade merece-se e conquista-se”, escreveu Camus no primeiro editorial já com a França livre, como recorda Jean Daniel, o mítico fundador da revista Le Nouvel Observateur, no seu livro Com Camus – Como Aprender a Resistir (Temas e Debates, 2009).

Daniel – um francês nascido na Argélia, como Camus – fala-nos nesta obra sobretudo do Camus jornalista: um homem de uma intransigência moral impressionante, que celebrava o jornalismo como “a mais bela profissão do mundo” mas se insurgia contra a “subserviência ao poder do dinheiro, a obsessão de agradar a qualquer preço, a mutilação da verdade sob um pretexto comercial ou ideológico, a lisonja dos piores instintos, o ‘furo’ sensacionalista e a vulgaridade tipográfica”. Um homem que não hesitava em enaltecer o jornalismo como “literatura comprometida” recomendando aos jornalistas mais jovens que com ele trabalhavam que “tudo o que degrada na realidade a cultura encurta o caminho para a servidão”. E prevenia: “É melhor sermos os segundos a dar uma informação verdadeira do que os primeiros a publicar uma falsa.”

Como há dias assinalava José María Ridao nas páginas do El País, Camus é, sem dúvida, um dos nomes grandes da cultura do seu século: “Teve razão ao condenar o abjecto papel que a esquerda intelectual reservava à violência revolucionária.” Por isso o rasto das suas ideias permanece vivo meio século depois da sua morte.

 

Com Camus – Como Aprender a Resistir, de Jean Daniel (Temas e Debates, 2009). 206 páginas.

Classificação: * * *

14 comentários em “A liberdade não existe sem esforço”

  1. Vale a pena lembrar que…

    A argumentação moral
    contra matizes delidas
    é um valor intemporal
    de éticas tão polidas.

    A cidadania brilhante
    de fundamento e postura
    torna a razão borbulhante
    alçando a nossa cultura.

    (com o respectivo “link” no meu blogue)

  2. Um dos meus melhores amigos está a fazer uma tese de doutoramento sobre Camus, em Filosofia. Vou reencaminhá-lo para este teu texto, Pedro, que sem dúvida assinala várias coisas importantes sobre este notável pensador – nomeadamente o seu humanismo irredutível e o seu peculiar (mas intransigente) elogio do valor de cada indivíduo. Abraço!

  3. Mais de 70000 franceses morreram sobre as bombas aliadas na Libertação da França -população civil aliada- e mais umas dezenas de milhar nos combates terrestres que incluiam De Gaulle e as tropas da França Livre. O que Camus pensava disso?

    1. É sempre arriscado responder a isso em nome de Camus, mas cheira-me que ele nunca admitiria que 70 mil franceses tivessem morrido «sobre as bombas». Quem é que andaria a pôr bombas sob tantos franceses?

    2. É fácil responder-lhe a isso: segundo Camus, os fins não justificam os meios e nenhuma “revolução” se materializa sobre uma pilha de cadáveres. Nenhuma guerra é justa: todas nos chegam com o rosto da barbárie. Mas, excepcionalmente, temos de entrar em guerra. Por isso ele foi um participante activo da Resistência enquanto outros contemporizavam como invasor nazi em Paris ou em Vichy.
      Os bombardeamentos aliados que por vezes atingiam tropas amigas, e até membros da Resistência, foram um dramático ‘dano lateral’ de uma guerra que confirmou uma evidência: a natureza humana é hoje tão propensa para o Mal (escrevo propositadamente com maiúscula) como era nos primórdios da História. O que mudou foi a panóplia tecnológica, quase nada mais.

  4. “E melhor sermos os segundos a publicar uma noticia verdadeira do que sermos os primeiros a publicar uma falsa”. Quantos jornalistas conhecem (e aplicam) este conceito em Portugal? Seria interessante conhecer esses dados.

    1. A resposta à sua pergunta é muito simples: todos quantos aplicam a deontologia da profissão. Ou seja, todos quantos possuem carteira profissional. Se algum não aplicasse a deontologia, certamente a douta e atentíssima Comissão da Carteira Profissional já tinha exercido a respectiva acção disciplinar.
      Pudessem outras profissões ser escrutinadas com a transparência com que o jornalismo é escrutinado…

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