Sempre desconfiei que fosse assim. Aquele bico improvável, o corpo desengonçado, o olhar quase triste, a indiferença com que aparentemente escolhem a torre de uma igreja ou um poste de distribuição de energia para nidificarem não permitiam grandes dúvidas. Agora, em todo o caso, confirma-se. As cegonhas assistem ao mundo com um profundo sentido de ironia. O jornalista esmiuça a questão. Traz análises e variáveis. O facto aí está: os ninhos de cegonha-branca aumentaram em Portugal mais de 50% nos últimos dez anos. O jornalista explora as razões que estão na origem do fenómeno. Será o esforço legislativo de protecção das aves, a actividade das associações ambientalistas, a eventual existência de um visto gold para plumíferos, quem sabe, o carinho das populações, que justifica esta evolução? Afinal não. A realidade é um bocadinho mais prosaica. Há mais ninhos porque as chegonhas-brancas já não fazem a migração sazonal para outras paragens. Já não morrem na viagem. E ficam porque há mais lixo. Em lixeiras ou em aterros. E porque há uma praga de lagostins vermelhos. Porque entre umas coisas e outras há mais alimento. Isto é o que nos diz o jornalista. E com isto já teríamos, na verdade, ironia bastante. E ironia teríamos também no facto de as cegonhas ficarem agora que tantos portugueses acabam por partir. Mas creio que a coisa pia ainda mais fino. Ao jornalista escapou o essencial. Faltou ao trabalho jornalístico o cruzamento dos números da proliferação de ninhos de cegonha com os da natalidade humana destas paragens. A ironia suprema está nisso. As cegonhas brancas deixaram de migrar porque já não encontram trabalho na carreira Portugal-Paris onde iam, periodicamente, buscar os nossos bebés.
A ironia das cegonhas
Rui Rocha,

O Rui Rocha sabe porque há mais lixeiras e aterros?
Seria bom que soubesse.
Mas até pode ser que não lhe conviesse, os que vivem das paranóias “verdes” não lhe íam perdoar, na sua (deles) imensa hipocrisia.
E isso estragava-lhe a si o parágrafo com que queria acabar o post.
Toda a gente fala do que não sabe quando bastava estudar um pouco ou perguntar a quem soubesse.
E mesmo as pessoas inteligentes acreditam no primeiro “jornalista” que lhes aparece à esquina.
Que continue sempre a existir quem escreva posts com sentido de humor.
Consta que a ultima viagem que fizeram foi para ir buscar o Sócrates.
E não é que é verdade ?