A (in)utilidade do protesto pacífico


eventhorizon,

A propósito do texto desta tarde da Maria Dulce Fernandes. Muito poderia ser dito sobre descrever-se motins violentos como terrorismo, mas deixarei de lado essa divagação. Do texto ficou-me sobretudo uma das últimas frases; julgo que não terá sido exactamente isto que a Maria Dulce queria dizer, mas acabou por ser isto que disse:

Não é possível apagar um crime hediondo praticando milhares de outros que tais, igualmente injustificáveis e desprezíveis. 

Não é, de facto. Mas motins violentos e homicídio – George Floyd não foi vítima de outra coisa – não são igualmente injustificáveis e desprezíveis. Nunca serão. 

Protestos pacíficos são muito bonitos e dão fotos catitas para as redes sociais, mas o mundo não muda com toda a gente a dar as mãos e a cantar a Imagine. Protestos pacíficos são, na verdade, uma forma muito eficaz de aparentar movimento sem sair do mesmo sítio, de mostrar apoio a uma causa sem grande convicção e, sobretudo, sem grande compromisso. Sem grande sacrifício. Marcha-se um bocadinho, sorri-se para as câmaras, proferem-se palavras de ordem estridentes e vazias, manifestam-se as melhores intenções do mundo – e, no final, vai cada manifestante à sua vidinha, e o mundo continua a rodar no mesmo sentido. Quem estava bem, continua bem; quem estava assim-assim continuará assim-assim; e quem estava mal, continuará mal.

Toda a gente sabe, afinal, que lugar está cheio de boas intenções.

(Por cá orgulhamo-nos de ter feito uma revolução sem derramar sangue. Esquecemo-nos – fingimos esquecer-nos, não dá muito jeito – é dos quase cinquenta anos de ditadura que aguentámos enquanto povo, mansamente, encolhendo os ombros, incapazes de partir a loiça. Bem vistas as coisas, não foi grande coisa a nossa revolta contra a tirania; salvo raríssimas excepções, limitámo-nos a esperar que o regime caísse de podre. Como teria de cair, inevitavelmente. Calhou terem sido quase cinco décadas; podiam ter sido seis ou sete.)

Mas divago. Colin Kaepernick protestou pacificamente contra a discriminação racial e a brutalidade policial nos EUA. Serviu de muito.

As imagens de violência que chegam das cidades norte-americanas são chocantes, de facto, e a sua fúria esconderá imensas injustiças e inúmeros aproveitamentos de uma indignação mais do que legítima. Mas de todas as imagens que vi até agora dos motins e da destruição causada impressiona sequer uma fracção do que choca o vídeo da morte de George Floyd, esmagado pelo joelho de um polícia e pela indiferença de outros dois ou três. Não houve ali a mais remota tentativa de “proteger e servir”, como não houve qualquer esforço de praticar algo que se aproximasse de qualquer ideal de Justiça, por mais imperfeito que esse ideal pudesse ser. Houve, sim, um homicídio. Mais um.

Talvez os protextos violentos não mudem nada, mas desta vez ninguém poderá dizer que não ouviu.

Sobre este tema, e fazendo a ligação a um outro caso muito recente que, apesar de chocante e sintomático, felizmente não acabou com ninguém morto, recomendo as palavras de Trevor Noah.

 

 

38 comentários em “A (in)utilidade do protesto pacífico”

  1. “de ter feito uma revolução sem derramar sangue.” Toda a gente sabe que isto não é verdade. Gostam é de esquecer os mortos …. o que não aconteceu com George Foyd

  2. Um bocado demagógico decidir que um homem com um joelho no pescoço é uma imagem mais impressionante do que outro indivíduo a ser espancado até à morte pela multidão. “Protestos violentos” não é só roubar televisores e ténis das lojas — também já morreram 3 ou 4 pessoas baleadas e espancadas pelos manifestantes.

    Ou seja, a coisa já está para lá dos argumentos, das defesas e das justificações.

    1. Felizmente, ainda sou livre de decidir (passe a expressão, pois é duvidoso que possamos falar de decisão aqui) aquilo que me impressiona mais de entre as coisas que vejo.

      Terá talvez havido um tempo em que uma opinião não tivesse de ser acompanhada da expressão “na minha opinião” para se entender que, enfim, era uma opinião meramente pessoal, e não um decreto vinculativo a todos os seres humanos. A internet, porém, não é dada a esse tipo de subtilezas.

  3. Tivesse este texto sido mais cedo publicado e teria – me poupado à minha cega indignação. Mas ainda bem que pelo DO ainda se vão lendo escrita de bom senso.

    Porventura serão os comentários de lixo lidos abaixo que justificam o comentário recente de jpt sobre o nauseabundo bloguismo. Assim espero. E nestas tretas do racismo perco mesmo o raciocínio.

    1. Os comentários em blogues têm que se lhe diga. Admito que já gostei mais deles. E menos também. A dada altura percebi que 1) não tenho de os ler todos, 2) lendo-os, não tenho de os aprovar a todos, e 3) lendo-os e aprovando-os, não tenho obrigação de dar resposta a cada um deles.

      Não recomendo que perca o raciocínio, mas muito menos recomendo que deixe de se indignar. O que aconteceu ali é mesmo de indignar.

  4. Texto mais repugnante. Ou seja você quer ataques a pessoas que não tiveram nada com o assunto.

    Pior,
    Censura e esconde que protestos violentos não acontecem devido às dezenas de mortos por violência só na Cidade de Chicago num só dia por exemplo.

    Isto não são protestos, são narrativas políticas. Criadas pelo jornalismo.
    Imagino que quando vir violência de brancos por um preto ter morto um branco já venha com outra cantiga. Ou outra vendetta qualquer.

    Nos EUA ou cá ou noutro lado.

    “Por cá orgulhamo-nos de ter feito uma revolução sem derramar sangue.”

    Completamente falso, e nem falemos no mais de 1 milhão de mortos em África.

    lucklucky

    1. lucklucky, não se algum dia interagi consigo numa caixa de comentários de um blogue, mas sei que esta será a última vez. E será apenas para lhe recomendar isto: aprenda a ler.

      Até pode discordar do que lê – é perfeitamente legítimo. Mas aprenda a ler.

      1. Eu li muito bem o seu texto e a sua aceitação da violência da multidão.

        E a cereja no cimo do bolo. o elogio a Kaepernick precisamente alguém que se está nas tintas para a violência.

        lucklucky

  5. “A retired St. Louis City police captain was shot and killed overnight trying to stop looters outside a North City pawn shop”.

    02.06.2020

    6ª morte em resultado dos motins violentos “não-inúteis”.

    Este era negro. Como alguns dos anteriores 5.

    “Motins violentos e homicídio […] não são igualmente injustificáveis e desprezíveis”.

    1. Pois, mas isto são pessoas que se estão nas tintas para a morte dos outros quando não estas não podem ser embrulhadas nas características políticas desejáveis. Ou então manipuláveis pela parcialidade das notícias.

      O facto de uma importante parte da violência nos EUA ser entre pretos não é notícia.
      Só se vê pretos a chorar e escrever livros sobre o assunto.
      Para isso eles já não têm voz.
      Ao invés nos jornais esse tipo de notícias só aparece para dizer que a culpa é das armas seguindo a narrativa que interessa ao Partido Democrata…
      Falham sempre de referir que os Asiáticos na América não se andam a matar uns aos outros com armas. Porque será?
      O facto das famílias estarem destruídas não conta nas notícias, com jovens a matarem-se uns aos outros.

      As reacções ás reacções ao crime da morte do George Floyd dos jornais e políticos só ajudarão ainda mais a essa violência que não é notícia. Excepto se for para falar das armas.

      lucklucky

    2. A primeira vítima conhecida dos motins foi um oficial federal, negro, em Portland, morto quando uma carrinha antifa os metralhou em andamento – há imagens – e um segundo colega também ficou ferido…
      É tempo de desmascarar esta falsidade “antifa”. É uma afronta aos verdadeiros antifascistas que lutaram contra regimes totalitários.
      Julgo que foi Churchill que disse que “os fascistas do futuro virão disfarçados de anti-fascistas”.
      Os factos parecem dar-lhe razão.
      Sem desculpa para o excesso de brutalidade policial no caso de George Floyd. O estado de direito tem mecanismos para tratar destes abusos, e foram activados. O resto, é aproveitamento político, e oportunismo de radicais e elementos criminosos, sejam de direita ou de esquerda.

    3. Não somos todos crescidinhos para conseguirmos achar que ambas as situações são trágicas?

      Parece que agora, fazendo juz a algumas das últimas postas aqui do Delito, se não houve uma palavra sobre, por exemplo, Ihor Homeniuk, também não nos podemos chocar com o que se passa nos EUA…

  6. Os últimos vídeos do Trevor Noah são, de facto, de visualização indispensável…

    Muito bom post, João.

  7. É assim mesmo! Há que aplaudir que tem a coragem de denunciar a hipocrisia e a mentira. O mundo e a vida são violentos por natureza. Excluindo a vil Lei Mosaica do Olho por Olho Dente por Dente que vigora nos catecismos da extrema-direita neonazi e dos supemacistas brancos tudo o resto são brandos costumes. A violência da barbárie e do caos não se combate com boas intenções e protestos pacifistas. E sim, o nosso exemplo de 50 anos de Fascismo que só caiu com um golpe militar, motivado pelas razões que todos sabemos, são a prova inequívoca que o povo manso e obediente é a prova de vida vitalícia para todos os fascinoras. A herança da escravatura que é a matriz identitária e cultural dos USA não muda, nunca mudou apesar das manifestações pacíficas individuais ou colectivas nem com o discurso da classe política. O que está em causa é o aprofundamento do supremacismo e esse só se combate com a insurreição e não com indignações!

      1. O seu comentário é a cabal demonstração da (in)utilidade de certos blogueiros que prestam um bom serviço à (des)informação. Passe a ambiguidade…

        1. Os “blogueiros” não são inúteis como pensa. Ou pelo menos nem todos. Aqueles que insistem em ter caixas de comentários abertas sempre servem para ir dando palco a todo o tipo de trolls anónimos.

          Há coisas mais úteis, mas também as há mais inúteis. É como tudo.

  8. E uma reflexão que eu também estou a fazer. Abomino qualquer forma de violência, mas a verdade é que, se durante a semana, tivesse havido marchas pacíficas por todo país, se estaria sequer a falar disto?
    Será que haveria a sensação de que realmente é preciso mudar alguma coisa?
    Tenho estado a ver a CNN em direto, desde a semana passada, e é nisto que tenho pensado mais…
    De qualquer modo, chocaram-me mais as pilhagens e a destruição em França, quando o protesto era basicamente por causa de impostos.
    É triste é que as sociedades não estejam atentas aos seus próprios problemas, e os tentem resolver, sem que as pessoas cheguem a este nível de raiva e desespero…

    1. No seu próprio comentário, tem a sua resposta.
      Não precisa deixar de ver a CNN, mas procure validar-se de outras fontes. Tenha sempre presente que interpretação com raiz política, sem contraditório, não passa de propaganda.
      A CNN, bem como MSNBC (e outras debaixo do monopólio noticioso) -NÃO É- uma fonte de informação fidedigna em tudo o que refira à política USA, mas é sim uma câmara de eco das facções mais radicais do Partido Democrata, o que até lhe dá jeito por vezes na procura de audiências.
      Nos tempos que correm, QUESTIONE TUDO.
      Acabo de ver que a revista Lancet retirou a cofiança ao artigo que dizia que a hidroxicloroquina era “perigosa para a saúde” – ou seja alguém mentiu.
      Será que a OMS e a nossa DGS vão reverter as decisões de não aplicar este medicamento, que decladarmente basearam no artigo da revista Lancet ?
      Eu, como muitos milhões, já tomei, preventivamente por ocasião de uma viagem a Africa. A HCQ é aprovada e usada com sucesso há decadas.
      Façam o favor de acordar.
      Quem beneficia ? Follow The Money.

      1. Não deixa de ser fascinante – triste, também, mas fascinante – ver como a metáfora das Wachowskis foi apropriada por tanta gente que claramente não percebeu o filme. Enfim.

  9. Outra questão em que tenho pensado nestes dias…
    Como disse num comentário anterior, tenho visto muito a CNN nestes últimos dias. Uma coisa que salta à vista é a quantidade de negros a aparecer, não só como ativistas, mas em funções como analistas políticos, presidentes de câmara, governadores, procuradores, advogados, senadores, congressistas; e não esqueçamos o ex-presidente e outros membros de várias administrações.
    Em Portugal, além da ministra da Justiça e deputados que se contam pelos dedos da mão, não consigo lembrar-me de muitos negros, em posições de relevo, excetuando no desporto ou na música.
    Está bem, a nossa percentagem de população negra deve ser inferior; nos EUA, é de cerca de 12%; em Portugal, numa pesquisa rápida, não consegui descobrir qual é, o que só por si é significativo. Mas a questão é: será o nosso racismo mais dissimulado? Não tão agressivo, aparentemente, mas não haverá maior dificuldades, para os jovens negros, competir em pé de igualdade? É algo que me tem feito pensar…
    De qualquer modo, a existência de SNS e alguns benefícios sociais faz-me pensar que há maior preocupação com questões sociais do que nos EUA, que continua a ser a terra onde “dos fracos não reza a História”…

    1. Diga-me lá em Angola, Moçambique e outros países africanos, qual é a percentagem de brancos em cargos de poder? Pois é, o racismo vê-se e sente-se de muitas maneiras, não é só através dos nossos olhos…

    2. Este seu comentário daria para uma longa conversa. Deixo apenas esta ideia: a questão da diversidade tem sido muito mal tratada tanto pelos seus defensores mais acérrimos como pelos seus críticos mais ferozes, mas tem um mérito – o da normalização. E para quem por algum motivo se sente discriminado isto é extremamente importante.

  10. O polícia branco que matou o preto não tem perdão. Teve muitos minutos para pensar nas consequências da lesão que estava a infligir ao preto. Sabia bem que o estava a matar. E sem motivo. Façam-lhe o mesmo, até porque agora já nem a mulher o quer.
    Agora os distúrbios levados a cabo por essa turba, destruindo tudo de forma tão gratuita, também não tem perdão. Se a opinião publicada atribui todas as culpas ao Trump e seu séquito, porque não atacam e destroem o que é do Trump e quejandos? Isso, sim, é que eram pretos de tomates. Agora andar a dar cabo da vida a quem não tem culpa nenhuma…

  11. Aquilo que fizeram a George Floyd foi inumano, mas há aproveitamento desta situação!
    O racismo só será desmascarado quando negros matam um branco e nada acontece, nem sequer manifestações, e quando um branco mata um negro, fazem de tudo! Dois pesos e duas medidas em situações tristes que ceifaram vidas humanas sejam elas quais forem a cor da pele!

  12. Trayvon Martin, 26 de fevereiro de 2012,
    Eric Garner, 17 de julho de 2014,
    Michael Brown, 9 de agosto de 2014,
    Walter Scott, 4 de abril de 2015,
    Freddie Gray, 12 de abril de 2015,
    Sandra Bland, 13 de julho de 2015,
    Philando Castile, 6 de julho de 2016,
    Botham Jean, 6 de setembro de 2018,
    Atatiana Jefferson, 13 de outubro de 2019,
    Breonna Taylor, 13 de março de 2020,
    George Floyd, 25 de maio de 2020.

    Para a América segregacionista do Klan Trump, black lives don`t matter…

  13. elementarmente, todos desejamos que os animais (policias) sejam domesticados. Os militares invasores so saqueiam e violam , se essa for a politica dos seus comandos.
    E vou mais longe : ouço todos os dias na radio a destruiçao resultante dos protestios nos EUA, e a bem dizer, zero mortos. Mas em 1982, no Porto, Portugal, no 1º de maio a policia assassinou varios manifestantes. Quem quiser vá á imprensa da epoca, e nao encontra noticias de saques, pilhagens e que tais.

    elementarmente, todos desejamos viver sem violencia. Nenhuma. Muito menos a gratuita e racista policial .

    Mas a realidade é que se os protestos nao tivessem violencia, nem noticia eram. Assim, os comandos, os politicos vao rever a coisa, pois sabem que o povo está decidido. E que os prejuizos sao enormes.

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