A infusa


José Meireles Graça,

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Cheia é pesada e portanto à medida que a água fresca (fresca porque assim a mantém o isolamento térmico) que contém vai sendo bebida fica mais leve. Na verdade é levíssima quando vazia.

Mas – estranho fenómeno: Se, a meio da noite, uma sede súbita assaltar algum dos membros do casal, e a infusa parecer vazia porque antes de dormir houve abundantes libações devido ao presunto da entrada ao jantar, que estava salgadíssimo, desentranha-se generosamente em copos de água supranumerários.

Isto de coisas que parece que estão esgotadas mas nem por isso tem um significado profundo. E logo que saiba qual é venho aqui comunicar.

5 comentários em “A infusa”

  1. Em casa de meus paus a infusa, só assim nomeada por minha avó, era a bilha de barro que se levava à fonte para encher de água.

      1. Nunca ouvi esse termo, nem vi a bilha de dois gargalos a que penso corresponder (sabedoria do doutor google). Registei:)
        Bom dia

  2. Na quinta das férias da minha meninice já não havia electricidade. Houvera, tempos atrás, em vida do meu avô que já não conheci. Mas o meu avô era banqueiro, o meu pai engenheiro e eu bancário. Um paradigma de decadência.
    Antes do meu cunhado casado com a minha irmã mais velha – e rico graças ao pai e ao avô materno – nos ter obsequiado com um frigorífico a petróleo, a água era conservada em bilhas de barro, enchidas numa fonte carregada de história perdida. Situava-se a nascente no topo do Vale das Águas Tintas, assim chamado porque o ferro era tanto que deixava marcas amarelas onde quer que se prolongasse o contacto e mesmo na loiça sanitária. Água leve, belíssima de beber, com um PH próximo de 5, que destruía em tempo qualquer canalização ou acessório de metal. Só tive sossego depois de tudo poder ser obtido em plástico. Mas era excelente e eu e as minhas irmãs mais velhas nunca tivemos problemas de intestinos. As mais novas, bem como a minha mulher e filhos, já são fidalgos ou, pelo menos, citadinos e só querem água engarrafada. Mais decadência, digo eu.
    Foi sem surpresa que encontrei relatos do início do séc. XVIII que pareciam remeter para o séc. XVI, e que descreviam a côrte, quando no perdido palácio de Salvaterra de Magos, a deslocar-se pouco mais de uma légua, a um vale de águas tintas recomendadas para males interiores. Provas não há mas fiquei convencido de que era o meu vale.
    No Verão a manteiga era colocada em alguidares e coberta com água para não derreter. Mas essa água vinha de um dos dois poços, que antes foram noras. A água era de facto mais fria do que a da fonte, que já o era. O já idoso senhor Graciano, antigo cocheiro, depois semi-reformado como faz-tudo, sentenciava gravemente que essa era a água mais fria que as pessoas deviam beber pois mais fria do que isso fazia mal à garganta. Teria alguma razão.

    1. Deliciosa história. Essa água ferrosa bem que a provava. E que se dane o meu médico, que deu em preocupar-se com a minha ferritina, coisa da qual nem ele nem eu nos teríamos dado conta se não aparecesse nas análises que requisitou.

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