A inconsistência problemática deste Governo.


Luís Menezes Leitão,

 

Já ontem tinha escrito aqui que estes recentes episódios ameaçam transformar esta numa silly season muito divertida. Ontem, no entanto, acho que a brincadeira ultrapassou todos os limites. O Secretário de Estado Adjunto do Ministro Adjunto, em mais um dos seus célebres briefings resolveu demitir em directo o seu colega do Tesouro admitindo que tinham sido detectadas “inconsistências problemáticas” nas suas declarações, e prometendo novidades até ao fim do dia. O país ansiou em suspense pela saída do referido Secretário de Estado, que se julgava óbvia. À meia-noite, no entanto, qual gata borralheira ao contrário, o Secretário de Estado afinal continua no Tesouro, uma vez que o Governo, após aturada investigação de quase doze horas, descobriu que havia uma manipulação num papel de meia dúzia de folhas que uma estação de televisão descobriu. O papel manipulado transforma-se assim na varinha mágica que apaga o fabuloso currículo do Secretário de Estado do Tesouro para exercer o cargo: ter trabalhado para um banco que queria vender ao Governo anterior swaps para maquilhar as contas públicas. Só falta saber quem foi a fada madrinha que, quando soaram as doze badaladas da meia-noite, nos apresentou o feitiço de transformar a gata borralheira em princesa.

 

Entretanto, também pela calada da noite, enquanto o país olhava estupefacto para o milagre da transformação do Secretário de Estado do Tesouro, o Estado decreta um default parcial na sua dívida, só que um default selectivo, dirigido a uma categoria específica dos seus cidadãos. Enquanto os especuladores que emprestaram dinheiro ao Estado irão receber até ao último cêntimo, os pensionistas da função pública que descontaram durante décadas para as suas reformas irão sofrer um hair-cut de 10% nas suas pensões. Enquanto os que brincaram aos swaps, causando prejuízos colossais aos contribuintes, continuam como se nada fosse, aqueles que trabalharam para o Estado durante décadas vêem agora quebrado pelo Estado o compromisso que com eles celebrou. Ora aí está um verdadeiro caso de inconsistência problemática, mas não é do Secretário de Estado de Tesouro, é de todo este Governo. Pais Jorge, amigo, o Governo está contigo.

9 comentários em “A inconsistência problemática deste Governo.”

  1. Caro Luís, creio que foi o único a pensar que o secretário de estado foi demitido em directo pelo seu colega do tesouro.
    Seja às nove da manhã ou à meia-noite, o importante é saber que na política da oposição e da imprensa amiga vale tudo.
    De facto o essencial é saber quem negociou swaps especulativos e segundo parece nenhum deles foi negociado por Pais Jorge.
    Ah. É verdade! Este governo já demitiu pessoas por estarem ligados a contratos swaps este governo não fez nenhum contrato swaps e já renegociou alguns com diminuição de prejuízos elevados para o Estado.
    Luís deixe de malhar no governo com esses argumentos, a oposição tem a imprensa, eles tratam disso.

    1. Crê mal pois eu tb pensei a mesmíssima coisa.
      O importante mesmo é saber que o vale tudo, por mais imbecil que seja e independentemente da hora, tem sido a marca deste governo. Quantos exemplos quer e garanto que nem falo do dótor Relvas?
      O essencial é, de facto, termos tomado conhecimento que é possível que um dos maiores promotores de venda de banha da cobra a um governo de Portugal, possa vir a impunemente tomar posse como governante.
      A verdade é que, este governo, em vez de resolver um assunto complicado e muito lesivo de todos nós, tentou com ele fazer política baixa apesar dos danos colaterais de algumas demissões para tuga ver, sendo que ainda há muito por saber e explicar.
      Campus, já que estamos numa de aconselhamento, nada devemos deixar ao acaso e muito menos por mãos alheias, tratemos todos nós de tentar estar bem informados e lúcidos para desapaixonadamente criarmos as nossa convicções e, apaixonadamente, as defendermos.

  2. Demitiu-se!
    Presumo que terá mentido, e por isso só isso lhe compete fazer.

    As minhas perplexidades são as seguintes:
    Qual o demérito de alguém que, ao serviço de uma instituição que lhe paga para isso, propor serviços a um governo que se interessa por disfarçar o défice das contas públicas?

    O que leva os políticos a evitar afirmar que quem serve com lealdade quem lhe paga um serviço legal é merecedor de confiança?

  3. Uma situação está resolvida:
    http://rr.sapo.pt/informacao_detalhe.aspx?fid=27&did=117484
    mas a situação governativa não fica resolvida com isto.

    Enquanto país consguimos atingir o mais elevado estágio de degradação:
    1 – Degradação de governantes e das formas (fórmulas) de governação;
    2 – Degradação das Instituições, com a descredibilização total da figura do PR.

    Portugal não tem governantes, tem antes figurões que desfiguram por completo o caminho da identidade. Ninguém pense que a dita crise política compôs o xadrez governativo. Ela só o agravou na medida em que se buscaram pseudo-soluções para agradar os ditos mercados. Por isto mesmo estejamos conscientes que o que temos é uma classe de mercadores com um objectivo muito específico: navegar de empurrão à boleia dos ventos que sopram de outras esferas ou estratosferas.

    Séneca afirmava: Quando o Homem não sabe a que porto se dirige nenhum vento lhe é favorável.
    Esta é a realidade que temos, isto é, aceitam-se os ventos que sopram mas não se dirige a barca, porque ninguém tem um rumo específico definido. E não me venham com a conversa de merda de que o objectivo é a independência, porque esta não tem data nem hora marcada, ela acontece sempre que se queira.
    Por um acaso o Tribunal Constitucional, com a decisão de contrariar os cortes de subsídios, ajudou a que esse dinheiro entrasse para a economia real. Hoje vemos, comparativamente ao verão passado, as cidades mais vazias, o emprego temporário a subir (contratação para as áreas de serviço e restauração) e uma maior disponibilidade para enfrentar o dia-a-dia (confiança). Isto não só benefícia o comércio, indústria e famílias como também aumenta exponencialmente as receitas do estado. O estado não só recupera uma boa parte do que cada trabalhador recomeçou a receber, inclusive em sede de IRS, como ainda vai buscar uma generosa parte a outras entidades, a saber: novos empregados (ainda que temporários), em IRS, em IRC das empresas, em IVA sobre os bens trasaccionados etc…

    Por isto mesmo a medida que contempla neste momento a baixa de IRC é sem dúvida uma arte de agravar a recessão, porque é necessário compensar através de receitas de outra natureza. As pensões são efectivamente um montante apreciavel de revitalização da economia, mas a baixa do IRC é entregar dinheiro que se torna parasita só para fingir que se tomou uma medida de alto teor de competitividade. A quidade das pensões nunca deve ser feita pla comparação miserável, mas sim nivelando por cima. O que temos não só é um discurso de miseráveis como também conversa fiada de quem navega sem saber para onde vai!

  4. Em Itália diz-se:

    ” SI tutti cabrone qui andásse per via cum lanterna nel corno … oh mama mia, na nche seria jorno!!

    Por cá diz-se:

    Si tutti cabrone que ái reunitti cum Sócatres, usáte conti off chory… oh mama mia… Isaltino teria mucha companhia…

    OBS – Italiano fonético.

  5. Pá! Estou tão comovido com a carta de demissão do fulano.
    Ainda mal refeito da inenarrável declaração de demissão do dótor Relvas…
    Ainda tonto com a diabólica carta de demissão do santíssimo Gaspar…
    Ainda baralhado com a sentida e irrevogável carta de demissão do Portas, seja lá o que isso quer dizer…
    Eis que este fulano me põe KO ao demitir-se de prestar os inestimáveis e elevados serviços à Pátria em que se especializou e tanto empenhou.
    É caso para dizer: Que mais me irá acontecer?
    Nãããooooooo Srª. Ministra das Finanças…
    Nããããooooo Srº. Primeiro-ministro…
    Livrem-se de escreverem cartas e/ou fazer declarações. Demitam-se à vontadinha, mas sff não escrevinhem nem balbuciem nada que já estou completamente derreado!

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