A improbabilidade de uma escola feliz


cronicasnofeminino,

No meu tempo de escola, a vida era muito tranquila. Os professores faltavam e alguns faltavam muito, outros bastante e outros nunca. Como agora. Esperávamos todas as santas aulas pelo abençoado segundo toque que nos aliviaria de aulas de modorra e tédio, sem visualização, powerpoint, projectores ou quadro interactivos. O professor falava, os alunos ouviam. Esqueçam motivação e interesse. Ir à escola era aprender e ninguém disse que aprender era divertido e engraçado ou fácil. Naquele tempo não era. Quando os professores faltavam era-nos dada toda a liberdade. Lembro-me de ficar no pátio a apanhar sol, na conversa com os colegas, maldizendo a adolescência, os chatos dos professores, provavelmente a incompreensão dos pais, a soltar gargalhadas sonoras e estridentes salpicadas com a inconsequência da condição púbere ou ainda a catrapiscar os rapazes, meu deus quantas paixões secretas e contidas, ou ir ali ao café do lado fazer isso mesmo, ir ao café do lado: esticar as pernas, dizer disparates, respirar o ar húmido que se nos agarrava ao corpo e soltar os cabelos à sombra do convento. Tudo sem culpas ou recriminações. Livres, portanto.

Nesse meu tempo de escola, faltar à escola era apenas isso: faltar à escola e eu no meu tempo de escola também faltei às aulas sem que mal algum viesse ao mundo. Acontece que nessa altura quem ultrapassasse o limite de faltas chumbava. Ponto. Sem avisos nem colinhos. Sem cartas para cá e para lá, sem comunicações aos encarregados de educação porque o menino prevaricou, avisos de recepção, convocatórias, telefonemas. O povo estava avisado e sabia das consequências. Se faltasse de mais, estaria modernamente excluído por faltas e podia seguir uma vida livre de aulas e professores. Acarretávamos pois com a consequência dos nossos actos sem mais conversa. Não me parece que alguém se tenha dado mal.

Nesse meu tempo de escola os pais também não vinham à escola porque o professor deu cabo dos meninos, não está a cumprir o programa como eles, pais, entendem ou não cumpriu os critérios de avaliação. Pergunto-me como terei sido classificada então, nesse tempo de caos absoluto, tudo tão livre e solto. Que era isso de ‘critérios de classificação’ a propósito? Não me consta que tenham ficado mazelas.

Nesse meu tempo eu era incrivelmente feliz sem o saber. E livre. Livre para gozar os tempos que os professores nos deixavam livres, livre para faltar a uma aula porque algumas aulas me maçavam de morte, quem aguentou aquilo, aguenta tudo, livre sem pressão das notas e de desempenhos. Na medida inversa dos meus alunos. Não havia substituições, não havia planos individuais de trabalho, planos de recuperação, não havia as torrentes de palavreado bacoco, balofo e inútil, tão inútil como os seus significantes. E éramos felizes então.  Saltitando entre contrariedades, com os tostões contados e pontos altos tão ridículos como uma simples excursão a Sintra. Sobrevivemos aos  ABBA, aos Bee Gees e ao Stevie Wonder dando os parabéns a toda a gente e acalentado a esperança de um dia sermos proprietários de umas calças Levi’s.  E sobrevivemos. A tudo. A inveja que me tenho.

Também aqui.

36 comentários em “A improbabilidade de uma escola feliz”

  1. Excelente.
    A sobrecivilização mata a civilização. Estamos na fase barroca ou rocócó, o desejo de apuro é tanto que destrói qualquer prazer.

    1. É isso mesmo que sinto. Não que o ‘meu tempo’ fosse perfeito, longe disso, mas perdeu-se o Norte e vivemos num novelo de inutilidades que nos matam o prazer. Não tenho qualquer dúvida.

  2. E somos duas. Que felizes, meu Deus, sempre a queixar-nos das nossas pequenas misérias, mas agora, à luz amarga da idade adulta, tão absolutamente felizes…

    Mas não estou assim tão convicta de que hoje as coisas sejam realmente diferentes. Às vezes chego mesmo a rever-me nos meus filhos…

    1. Este texto foi-me surgindo à medida que falava com e ouvia os alunos da minha Direcção de Turma. Que vidas tão complicadas, Zélia!
      Uma coisa é certa, apesar de tudo eles também se sabem contentar com pouco, por muito estranho que isto possa parecer, ou então somos nós que lhes conseguimos incutir o prazer das coisas simples.

      1. Que prazer me deu ler o teu texto, Leonor. Era mesmo assim. Mas neste teu último comentário dizes que eles agora também sabem contentar-se com pouco. Achas? Aqui é que divergimos, porque a meu ver, o mal destes miúdos é, ao contrário de nós quando tínhamos a idade deles, não saberem viver com pouco. Muito menos andar de cara alegre.

        1. Fico feliz, Teresa. Às vezes acho que se podem contentar com pouco, mas não sei bem. Ontem fiz uma visita de estudo com os meus alunos, uma coisa simples, e adoraram, talvez esteja a ser influenciada por isso, mas não é a primeira vez que me acontece. E é muito engraçado ver o contentamento deles. A grande diferença é que têm de estar sempre ocupados e a ser estimulados. É claro que a um outro nível são mais exigentes. Com os professores, com a escola, não sei se com os pais.

          1. “Têm de estar sempre ocupados e a ser estimulados”, aí está. Exigem mais atenção, mais colo. Parecem-me por isso mais infantis e menos autónomos do que nós quando tínhamos a sua idade. Mas claro que a culpa não é deles.

          2. Não tenho a menor dúvida. E queriam saber muito menos de nós. Era incapaz de partilhar com os meus professores o que os meus alunos partilham comigo. Nem de perto nem de longe. Outros tempos.

  3. Eu tive um professor tipo Stevie Wonder. Professor de História. Era cego. Meu Deus, que bagunçada reinava naquela sala de aulas enquanto ele discorria sobre a matéria…
    Sobrevivemos a isso, sobrevivemos a tudo. Nessa altura com um Estado muito menos paternal, com uma sociedade muito menos maternal, com muito menos correcção política a ditar regras omnipresentes, mas com muito mais saídas profissionais. A escola estava muito mais próxima da vida.
    Isto dava pano para mangas. Fico-me por aqui. Afinal o que eu apenas queria dizer era isto: gostei muito da tua crónica, Leonor.

    1. Por isso acho que éramos menos stressados e mais felizes, Pedro. Quase como num estado providência em que as saídas eram quase garantidas. Hoje em dia, os jovens debatem-se com esse problema gravíssimo da falta de saídas profissionais extremada por esta crise que nos assolou. Quando desabam os discursos catastrofistas sobre a qualidade do ensino penso sempre em como era na minha altura. Despreocupados como éramos corria quase sempre bem, se não corresse o problema era nossa e não dos outros e essa é uma diferença abismal.

    1. Obrigada, Levy. É tão engraçado ver como afinal somos tantos e como afinal sem grandes preocupações e com uma enorme liberdade nos fizemos os homens e mulheres de hoje.

  4. Impossível não me rever também no teu texto, Leonor. E tens razão: éramos mais felizes porque nos contentávamos com muito menos, embora sonhando com tudo. E talvez porque éramos mais inconscientes, mas ainda bem… há muito tempo para o choque com a realidade, e essa idade é para acreditar que se muda o mundo. Faz-me a maior impressão ver miúdos já desiludidos e conformados com a sua impotência.

    Pedro, também eu tive um professor cego. E de música, o que o fazia parecer-se ainda mais com o Stevie Wonder. Aliás, era assim que lhe chamávamos: Lúcio Wonder. Abanava a cabeça a tocar e tudo. 🙂

    1. Também éramos mais felizes porque nos pressionavam muito menos e tínhamos muito menos solicitações: não havia internet, facebook, blogues. Uma pasmaceira 🙂 Às vezes digo isso aos meus alunos.

      Terá sido o mesmo professor?

  5. Também estou muito de acordo com o luckyluke (deve ser a primeira vez). Quando olho para os meus sobrinhos (que dão muito boa conta do recado, devo dizer) e vejo como são tão mais formatados pelos pais do que nós (os meus irmãos e eu, que também demos boa conta do recado) fomos pelos nossos, penso na enorme liberdade que nós tínhamos e eles não. Liberdade interior, liberdade de não ser perfeito.

    E tédio, muito tédio. Que bênção.

  6. Leonor, <

    quer saber uma coisa? O meu filho mais novo e que tem “só” 22 anos já diz: no meu tempo de escola é que era bom… Agora é uma miséria! Está a imaginar?

    Posto isto, creio que todos acabamos por dizer mais ou menos o mesmo passados uns anos. Os seus alunos, inclusivé…

    A diferença entre a nossa juventude e a de agora encontra-se, em parte, no facto de que muitos de nós termos nascido e vivido numa época em que não sabíamos o que era liberdade ou democracia. E acabámos por sentir aquilo que os nossos filhos só sabem pelos livros que estudaram.

    Também tenho saudades desse tempo de escola. Dos cafés, cigarros, Bee Gees, ABBA, Secos e Molhados, do Ian Dury (sex&drugs&rock&roll), dos UHF…

    1. Tem razão, José, não há dúvidas. No fundo, é a nostalgia do passado que todos, em maior ou menor grau, temos. O que queria salientar era mesmo a diferença dos tempos. Não tenho a menor dúvida de que hoje os professores estão mais conscientes, são mais pressionados e alguns se esforçam mais do que nesses tempos, porque a sociedade não ‘cobrava’ isso deles. No entanto, mesmo com esforço parece não ser suficiente. Os tempos mudaram e muito.
      Em relação ao ‘Sex, drugs, n’ rock’n’roll’ ainda um destes dias me surgiu a canão do Ian Dury em plena aula. Tive logo de justificar que era uma canção do meu tempo.

  7. Maravilha. Mas no meu tempo as faltas dos Professores, com P grande, eram raríssimas, esse “privilégio” só o tinham os alunos.
    Em termos de sobrevivência, consegui sair incólume da onda Woodstock.

  8. Eu também andei numa escola assim e cheguei a dar aulas numa escola assim. Entretanto aconteceu que:
    1) Os alunos passaram ser todos, e não os que podiam ou queriam. Ou seja, nessa escola de que falas tão bem, já eram trolhas os que agora ainda andam lá.
    2) O corpo docente encheu-se daquelas meninas que iam para Letras a fugir da matemática e nem aí tinham paciência para ler Os Maias. Não tiveram outra alternativa senão ir dar aulas.
    3) A escola passou a ser um encontro de amigos. Nesses belos tempos eram uns de um lado e outros de outro. Ninguém sabe quem é quem e o que cabe a cada um fazer.

    1. Em relação ao ponto dois, além desses, vieram também os que tinham outros cursos e que se usaram do Ensino para fazer outras coisas, nomeadamente acabar os cursos que estavam a tirar. Não tinham vocação nenhuma, eram engenheiros, advogados e sei lá mais o quê e estavam de passagem. Sempre achei que no ensino, como em tudo na vida, deviam ficar os que o escolheram como missão. Quem está no ensino apenas como profissão, desengane-se. Há mais muito mais do que entrar e sair aos toques.

  9. Leonor,

    As crianças são o espelho da sociedade. Existe mais pressão para o sucesso, mesmo para quem, como eu, não cultiva a competitividade. A minha experiência (e o individual vale o que vale) é chocante. A minha pirralha de seis anos compete com os colegas pelas melhores notas. Procuro desvalorizar, mas socialmente já estão “formatados” para a competição. É talvez por isso, nesta geração de filhos únicos, que o fracasso gera tanta angústia. Nos eramos despreocupados, eles competem para ser os melhores desde a 1ª classe. É estranho e assustador.

    1. Tem razão. Agora já me habituei, mas a princípio custou-me um bocado, até por causa desta minha matriz. Eu queria lá saber quem era o melhor quanto mais competir com ele. Hoje não é assim. Como muito bem diz, competem em tudo. Se eu lhe fizer um mero jogos de palavras na aula, como já aconteceu, esgadanham-se para vencer os outros, só mesmo pelo prazer de ganhar ao outro. É muito estranho mesmo.

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