É o maior desafio para qualquer jornalista: como agarrar o leitor logo nas primeiras linhas? Há técnicas clássicas que se desenvolveram para focar a atenção das pessoas num texto, seduzindo-as com o estilo e o conteúdo. Um desafio estimulante, diga-se. E tanto mais estimulante quanto é certo que a capacidade de concentração da generalidade dos leitores contemporâneos está cada vez mais diluída.
A estética de videoclipe, o culto do zapping, as mil e umas artimanhas da linguagem publicitária, as centenas de canais televisivos ao dispor de cada um, as mensagens de telemóvel que a todo o momento nos assaltam e a magia da Internet tornam-nos seres dispersos e errantes. A ninguém sobra hoje tempo nem paciência para ler textos de jornal que se estendem por várias páginas. A comunicação moderna tem requisitos bem específicos neste domínio.
Mas não seria assim também noutras épocas?
Na sua memorável comédia A Primeira Página, escrita há oito décadas, os dramaturgos norte-americanos Ben Hetch e Charles MacArthur centraram toda a acção numa redacção de jornal – daquelas bem antigas, cheias de fumo e com garrafas de uísque em cima das secretárias. O director do Chicago Examiner, Walter Burns, pede ao mais conceituado dos seus repórteres para lhe ler o parágrafo de abertura da prosa que tem na máquina de escrever. Não gosta nada do que ouve, perguntando-lhe por determinado pormenor. «Isso vem no segundo parágrafo», esclarece o repórter. «E quem diabo vai ler o segundo parágrafo?», dispara o director.


Belissíma reflexão que vale a pena ler além do primeiro parágrafo. É verdade que os hábitos de leitura de jornais e de consumo de informação em geral se alteraram – o lema parece ser cada vez mais escrever uns sound bites curtos e provocantes que caibam num post do Facebook – mas como leitora compulsiva de segundos, terceiros e quartos parágrafos exijo mais de um artigo jornalístico do que aquilo que já li online ou no take de uma agência. A fórmula de sucesso de publicações como por exemplo a Der Spiegel é a conjugação de notícias breves com dossiers temáticos muito aprofundados ( chegam a mais de dez páginas) que dão ao leitor o necessário enquadramento. Outras publicações alemãs por exemplo diários como o Frankfurter Allgemeine Zeitung ou semanários como o Die Zeit também fazem felizmente a aposta numa informação aprofundada que se distinga claramente de meros tweets. E isso reflecte-se na qualidade da discussão pública. Um exemplo? A actual crise na Guiné-Bissau tem sido melhor explicada- isto é tem-se ido além da publicação dos comunicados do Comando Militar ou das declarações da União Africana e da CEDEAO – na imprensa alemã do que na portuguesa. Claro que para compreender a desagregação do estado guineense e as causas estruturais profundas da instabilidade é preciso recuar até Luís Cabral, cruzar tribalismo e etnicidade com tiques autoritários herdados do colonialismo português, e para isso são precisos muitos parágrafos ( e toda uma bagagem histórica e sociológica, mas isso é outro tema).
De acordo contigo, Helena. Mas receio que nós, os que vamos além do primeiro parágrafo, sejamos cada vez em menor número neste tempo dos tuites e dos essemésses. Tudo quanto ultrapassa os 180 ou os 120 caracteres fatiga bué.
Gostei da primeira parte. Quando tiver tempo leio o resto. Abraço.
Obri, Vas.
Lindo exercício de estilo, a realidade não é assim tão ameaçadora. Consegui ler o primeiro parágrafo, composto por numerosos períodos, até ao fim e consegui mesmo ler o texto até ao último período do segundo parágrafo.
Ehehe. You made my day.
Como as coisas estão, já é uma sorte que nos leiam a primeira linha…
Boa! Mas é pior, Ana, e olha que não sou do estilo pessimista: há quem não passe dos títulos… quando bem feitos, claro.
Mas eu gosto muito de títulos, Fernando, foi coisa que me ficou da publicidade. Talvez me leiam pelo menos isso… 🙂
Também gosto muito de títulos – de ler e de escrever títulos. Como gosto de legendas – também de as ler e de as escrever. Curiosamente, uma grande parte dos jornalistas detesta fazer títulos e legendas.
Um excelente resumo, Pedro. Que raspa entretanto por outro hábito perdido nas redacções: dar os textos a ler ao camarada do lado antes de seguirem para os editores e desks…
É verdade, Fernando. Um salutar hábito hoje totalmente em desuso.
Eu não tenho essa pretensão, porque nem sei escrever, aliás sei escrever, mas sem qualquer tipo de preciosismos.
E tenho cá para mim, que nos meus humildes textos, nem o primeiro parágrafo lêem, tão má é a coisa:)
Maria: confesso que acabo de ler sem qualquer problema os seus dois parágrafos.
Gostei da foto.
Compreendo. Ficaste favorecido.
Agora mais a sério. Em 2009 fiz o teste. Houve pelo menos três almas que leram até ao terceiro: tml
http://escafandro.blogs.sapo.pt/46508.h
Em 2009? Em três anos o mundo muda muito. E em três meses. E em três semanas. E em três dias. E em três horas…
A táctica é simples, começa com um caso particular para aproximar o leitor, depois generaliza-se sem razão e fala-se de tudo mesmo o que não tem nada que ver com o caso.
Gostei da ironia.
O problema é que as estéticas de outras disciplinas de comunicação invadiram os jornais e subverteram a técnica jornalística. O desafio de agarrar o leitor no primeiro parágrafo mantém-se, mas às vezes a preço de saldo. Enfim, mas essa é outra discussão.
É outra discussão mas vamos sempre a tempo de travá-la aqui, Teresa.