Quando penso nos meus pais, imagino-os quase sempre nos quarentas. Ainda vigorosos, na pujança da sua vida adulta. Nessa idade consigo situá-los convenientemente longe da juventude – nenhum filho vê os pais como jovens – mas também da velhice.
Quis saber se com outras pessoas, que já perderam os pais, acontece o mesmo e após breve sondagem percebi que não sou um caso raro. Mesmo se os pais chegam a idade avançada, existe alguma tendência para os recordar mais novos, sempre a rondar aquela faixa etária que os situa longe dos verdes anos, mas também dos primeiros sinais de decadência física.
Sei bem porque os fixo nesse intervalo temporal. É sobretudo para elidir o que testemunhei quando as marcas do seu envelhecimento começaram a cobrir o futuro de sombras. Mas também para reconduzi-los ao lugar de onde nunca deveriam ter saído – o de guardiães da minha infância. Sem eles – ou sem a memória deles a exercer em pleno o seu papel – é como se a chave dos meus anos fundadores se perdesse e tivesse que passar a viver do lado de fora de mim.

O bom de imaginarmos os nossos pais nos “quarentas” é acharmos que ainda estamos nos “vintes”. Infelizmente, não é assim. Com o tempo, deixamos de ter os “guardiães” da nossa infância para sermos os “guardiães” da infância dos nossos filhos e da velhice dos nossos pais. É a lei da vida!
Foi só quando perdi os meus pais que me senti 100% adulta. Não sei se com os outros se passa o mesmo, acredito que sim. Tal como os nossos pais nos vêem sempre pequenos, também nós, nessa relação, nos acomodamos, ainda que inconscientemente, a esse papel. Condicionados pelas memórias mais antigas que mantemos em exclusivo e que formataram a nossa relação (e em larga medida a relação que temos com a vida).
Foi só quando perdi os meus pais que me senti 100% adulta
Eu foi quando perdi o meu pai (a mãe já morrera há muito) que me senti cheio de responsabilidades em cima. Foi (e é ainda) um stress imenso. Comecei nessa altura a engordar (não posso afirmar que haja uma relação de causa-efeito, mas suspeito que sim).
Esse é um “stress” que permanece, por muitos anos que passem. Não voltamos a ser os mesmos.
Uma bonita e enternecedora homenagem aos seus pais. Lindo.
Os bons pais bons filhos geram.
Do Céu, deles recebe um beijinho.
Obrigada pelas suas palavras
Eu serei, então, uma excepção, Teresa, provavelmente por já terem casado muito mais tarde, para as tradições/costumes da sua geração – ele, sempre embarcado, ela, pulando de aldeia em aldeia, ainda professora. Casaram, ela com 29 e ele com quase 35 anos, mas ainda geraram 4 filhos 🙂
Seja lá como for, eram lindos e, apesar das fotos da sua juventude, recordo-os como foram viajar (ele, teria 94 anos, ela, 89, agora).
____________
(sôdades)
Há factores que determinam estas nuances, como a idade em que foram pais e a própria forma como envelheceram. Se correu tudo bem até ao fim, provavelmente nós, filhos, não temos necessidade de fazer a tal elipse de que falei…
Sim
lucklucky
A velhice dos pais não quadra com o que a memória guarda, porque lhes muda o rosto e embota os sentimentos, porque, sendo avançada, leva consigo quase tudo daquilo que os caracterizava e a que ganhámos hábito.
Não recordo os meus pais nos quarenta. Aliás, cada um tem na minha memória uma idade diferente, acho que os desencontro:). A minha infância é uma teia de gente com minha mãe no cume das presenças.
“A velhice dos pais não quadra com o que a memória guarda, porque lhes muda o rosto e embota os sentimentos, porque, sendo avançada, leva consigo quase tudo daquilo que os caracterizava e a que ganhámos hábito” – é isso mesmo, Bea.
Resta a memória do tanto que amámos neles e o tempo levou. E também é verdade que a velhice que derrota, comparada com a totalidade temporal em que os tivemos, é a fase mais curta.
Excelente texto, Teresa. Revejo-me muito nas tuas palavras.
Obrigada, Pedro
Pois eu, quando penso nos meus pais (que já morreram há muito), penso sempre neles como eram em velhos, pouco antes de morrerem. Talvez porque já tenho muito pouca ideia de quando, em tempos muito mais distantes, eles eram de meia idade. E no caso do meu pai, que quando nasci já tinha 40 anos, quase nunca o conheci propriamente de meia idade.
Pois, no seu caso, imagino que é difícil lembrá-los mais jovens.
Muitos parabéns pela bela homenagem aos seus pais.
Ainda tenho mãe, o meu pai faleceu há 3 anos, mas a imagem que recordo já teria uns 87 anos, faço por nao vidualizar a fase final. Faleceu com 90 anos. Uma sombra do que era.
Obrigada, Maria. Por falar de sombras: e ver as sombras nos seus olhos? Quando acontece, e foi o caso dos meus, que têm consciência de que são uma sombra do que eram….
Muitos parabéns pela homenagem que faz aos seus pais.
Ainda tenho mãe, mas o meu pai já faleceu há algum tempo, tinha eu 30 anos, recordo-o sempre muito ativo, com muita saudade.
Bem haja!
Estou com 54 anos, Felizmente tenho a minha mãe mas Desoladamente não tenho o meu pai e todos os dias choro alegremente por ele. Aos meus queridos e eternos pais.
Mario
Mais do que falar, ( com palavras bonitas de preferência) é sobretudo, termos em relação aos nossos Pais, um gesto de agrado e um “obrigado” na boca. Sermos “filhos”, para que depois, saibamos ser Pais. Ao vermos o mundo que nos rodeia, tanta coisa há para “afinar”. Eu já não tenho Pais, mas, no meu coração, eles vivem para sempre.
Também vejo os meus pais como “quarentões” apesar de já terem 90 e 89. São muito activos, autónomos e ajudam imenso as filhas e netos.

Não consigo pensar em perdê-los, até acho que são eternos!!!
Que se mantenham assim ainda durante muitos anos, Luísa. E se puder, não desperdice o tempo que pode estar com eles.
Permita-me que inverta os termos da narrativa.
Há uma Senhora que se chama Helena Sacadura Cabral.
É, na verdade, uma Senhora.
E foi/é mãe de dois outros Senhores: o Miguel e o Paulo Portas.
Estamos aqui a falar da falta que nos fazem os pais.
Mas doloroso mesmo, é quando perdemos um filho ou filhos.
E como sobreviver a essa perda?
Talvez interiorizando o que diz a Senhora D. Helena Sacadura Cabral: Deus empresta-nos os filhos e, quando bem o entende, vem busca-los.
Conclusão: é bom perder os pais por terem ficado velhos; dramático é perder os filhos.
Que Deus guarde os nossos filhos.
A dor pela perda dos filhos, por ser contra natura, é infinitamente maior, não tenho dúvidas.
Eu vejo-os (embora já os tenha perdido) sempre como se cá estivessem, continuam a influenciar e bem, ainda bem.
A nossa consciência, aquilo que fazemos, como envelhecemos, as parecenças físicas, as mesmas moléstias, os bons e os maus hábitos (apenas alguns alimentares não outros) fazem-me sentir orgulhoso.
Não acredito na vida para além da morte mas como ainda temos muito que aprender sobre a consciência, sobre a alma e sobre a fenómenos que não dominamos, acredito, no fundo, que há por aí algures uma ligação …………!
Também me acontece vê-los em gestos, expressões, manias e até defeitos que tenho. E gosto tanto. Porque é uma forma de tê-los 🙂
Eu perdi o único filho há bastantes anos. Há 10 anos perdi o meu pai com 90 anos e com uma cabeça de fazer inveja a muita gente nova. Sempre a ler e a consultar enciclopédias. Sabia tudo. Há 2 anos perdi a minha mãe com 93 anos. Parece-me que foi ontem. Era a minha âncora numa espécie de naufrágio a que sobrevivi. Hoje, ainda me questiono, para quê continuar quando à minha volta sinto tudo em ruínas?
É muito triste a sua situação, mas pense que, enquanto todos eles viverem no seu coração (e hão-de viver para sempre) eles estão vivos. Pense nas boas recordações, nos momentos felizes que tiveram juntos. E pense que são mais três estrelas a brilhar no céu. É o que faço com o meu pai, que perdi há quase 20 anos, com o meu irmão mais velho que perdi há 10 anos com 61 anos de idade, e com a minha mãe, que perdi há 6 anos. No entanto, estão sempre comigo.
Deixa-me sem palavras. Imagino como deve ser duro sobreviver a tantas perdas e tão importantes.
Simples mas conciso e muito bonito. Gostei
Obrigada
” é sobretudo para ilidir “, provavelmente ilidir estara correto, eu é que nao conheço a palavra.
Evidente que os sentimentos diversos que afectam os enlutados, nao sao casos especiais, raros. Para alem da dificuldade e nao a-vontade de verbalizar os sentimentos relativos á perda , se é que de perda fala o post, todavia os especialistas so podem confirmar e desenhar claramentre o que se passa , sente.
A propria perda ocorre de formas diversas, tambem a proximidade dos filhos é diversa, se calhar estou a desviar-me do tema, ao imaginar para os que nos sao proximos, no caso os pais, “partirem ” felizes, de bem com a vida.
Consulte o dicionário. Elidir é sinónimo de omitir, apagar. Escreve-se com “e”
Hoje estou me sentido uma pessoa sofrida por lembrar as pessoas que me fizeram crescer e me colocaram em um lugar que posso viver. Sei que mínguem vive eternamente mas, a saudade é tão grande que a lembrança fica para sempre. Para os meus colaboradores a minha eterna gratidão e fiquem com DEUS Gizeldina
Uma bela evocação. Parabéns!