A honra


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Abaixo, no “Teletrauma” de Ana Vidal, uma série de comentadores insurge-se com a utilização de “honra” face a crianças da 4ª classe, pois consideram este conceito incompreensível pelos petizes (isto a propósito da absurda questão sobre a utilização dos telefones pelos alunos durante os exames) [Adenda: leio agora que também Rui Martins, dirigente da Confederação Nacional Independente de Pais e Encarregados de Educação (CNIPE)  assim o considera, o que dá peso à opinião, nem que seja pelo pomposo nome da “confederação” que dirige]. Surpreende-me, sempre, esta visão que os adultos têm da imbecilidade das crianças (seus filhos e netos, já agora). O conceito pode estar um pouco desactualizado, talvez porque os adultos (estes comentadores e outros, entre os quais os professores, e também os “confederados”) se poderão esquecer de o ir lembrando, mas daí a não ser compreendido?! …

Nos idos de 1975, quando estava no 1º ano do ciclo preparatório, aos dez anos, o colégio onde estudava organizou uma viagem a Vilamoura, um aldeamento então novo. Éramos algumas dezenas de alunos (do 1º e do 2º anos?), duas noites de estada. Foi uma aventura, coisa que nos engrandeceu. Ficávamos nos quartos, livres, 3 ou 4 em cada um. Na primeira noite, após o jantar, para eles regressámos. Escapuli-me para o quarto de uns outros amigos/colegas. Jogámos às cartas, nem me lembro o quê. De súbito apareceu o director-adjunto, numa ronda para ver como tudo estava. Assustámo-nos, surpreendidos, ainda que algo aliviados por não ser o temido director, o célebre Fifas (Valsassina). Olhou para mim, estranhando-me ali, único “forasteiro”. Depois autorizou o jogo, “até às dez horas.” (um luxo). “Depois vais para o teu quarto” e eu logo concordei. Fez menção de sair e nisso, com um ligeiro sorriso, parou e perguntou-me “dás-me a tua palavra de honra?”. Eu empertiguei-me, terei corado, e respondi que sim. Às dez horas interrompi o jogo e fui dormir.

Francamente, não percebo estes pais, mães e avós que acham que têm filhos e netos imbecis. Em especial esses tão preocupadinhos que até “confederados”.

42 comentários em “A honra”

  1. Tens toda a razão. Claro que um puto sabe bem o que é honra. Na nossa geração sabíamos, por exemplo, ao ler Dumas e Walter Scott – e ao ver coboiadas e muita BD. Esses conceitos estavam por todo o lado, na própria cultura popular. E eram assimilados muito mais facilmente do que os politólogos de Lisboa, os sociólogos de Coimbra, os psicólogos do Porto e os tudólogos do país inteiro hoje supõem.

  2. Depois de o voltar a ler hoje arrependi-me (é o termo) de ter andado para aqui a “discutir” consigo há uns tempos atrás .

    Como avô de três netos na casa dos 10/12 anos agradeço-lhe este post .
    É chocante a falta de respeito que estes pais , mães e avós têm pelos seus filhos ou netos , totalmente esquecidos do que eles próprios foram e sentiram naquelas mesmas idades (a menos que não tenham sido nada).

    Acho que os meus netos sabem já hoje muito bem ao que vão e fico feliz que os meus filhos (pais deles) pensem do mesmo modo que eu .
    O que me afligiría era estar a colaborar , por acção ou omissão , na educação de crianças condenadas a serem um dia outros “coitadinhos” , já me chega disso , estou rodeado todo o dia por eles .

    P.S. – Tanto eu como os meus filhos tivemos o “Fifas” como director e ainda hoje acho que , vendo bem , era mais fumo que fogo …

    1. Não se arrependa, as pelejas “comentatórias” são do mais estimulante que o bloguismo tem.

      Frederico Valsassina (o célebre “Fifas”) tinha algum fogo (particularmente destinado aos internados). Mas há gerações de seus antigos alunos e de alunos do seu colégio que lhe dedicam uma admiração profunda – como se comprovou aquando do seu falecimento, julgo que há 3 anos. Será um bom contributo para estas épocas em que pedagogia é tantas vezes confundida com moleza timorata.

      1. Rmg e Jpt (credo, detesto tratar alguém por uma sigla), também os meus filhos tiveram o temido Fifas como director e também eles o recordam com saudade. Era um pedagogo à antiga, mas não vejo em que é que os novos métodos formam melhores pessoas e melhores profissionais.

        Jpt, aproveito para agradecer aqui a tua intervenção (“musculada” como se diz agora, mas eu chamo-lhe viril e cavalheiresca) em minha defesa contra as patetices do Lavoura. Este blogue sempre teve isso de bom, mesmo que nada mais houvesse: somos solidários. E bem educados, já agora.

        1. Totalmente de acordo consigo .
          Os novos métodos só podem formar uns e outros se os formadores não se demitirem das suas responsabilidades e é aí “que a porca torce o rabo” .
          O facilitismo tão do agrado de muitos vai-lhes caír em cima (aliàs já está a caír) .
          O problema é que também cai e cairá em cima dos que não são facilitistas .

          P.S. – Também lhe dou razão na história das siglas .
          Mas eu tenho uma desculpa , manhosa decerto mas é a minha : na minha família chegada há 4 pessoas com o mesmo nome e eu não quero que me confundam com qualquer dos outros 3 (ou melhor dizendo , a eles comigo …).
          Como sou de longe o mais “idoso” , sou o único que já se pode dar ao luxo de andar a dizer todas as palermices que lhe passam pela cabeça aqui nos blogs .

          1. Eu detesto os acrónimos, estão vetados cá em casa. Mas quanto às siglas só posso dizer que tenho autorização editorial para assinar assim …

      2. Pois são estimulantes e já não é a 1ª vez que mo diz …
        Mas depois de ler o seu post tinha que o escrever .

        Vindo de um liceu onde era um aluno bastante mauzote e chegado ao Valsassina a meio do curso do liceu , acabei o 7º ano dispensando da oral a 4 das 6 cadeiras e entrando no IST “nas calmas” , de onde saí 6 anos depois também “nas calmas” .
        Terá sido dos bons ares lá da Quinta das Terezinhas (naqueles tempos , há mais de 50 anos , ainda era com “z”) ou porque de facto a pedagogia por lá era outra ?

        Não sei , os meus 4 irmãos andaram lá , os meus filhos também .
        Nenhum de nós tem essa admiração profunda de que fala e eu encontro em muitos colegas desse tempo – mas temos um respeito muito sério pela pessoa .
        De resto , e até ao seu falecimento com 80 anos , fui encontrando o senhor em causa numa livraria de que fui cliente desde 1960 , a “Livraria Barata” na Avenida de Roma , local também muito peculiar – e por vezes “perigoso” – até ao 25 de Abril e que se manteve quase como local “de culto” até à trágica morte do seu fundador (e mesmo mais uns tempos , enquanto esteve na família).
        E era sempre um prazer conversar com ele , 45 anos depois de eu saír do colégio ainda se lembrava , melhor que eu , de episódios passados comigo .

        Desculpe o desabafo “a latere” .

        P.S. – Coincidência ou não o seu post foi escrito no preciso dia em que fazia 3 anos sobre a morte do “Fifas” , 7 de Maio de 2010 .
        Fui googlar , por curiosidade …

      1. Peço então desculpa, mas eu vejo, por exemplo neste passo: “… em todos o mesmo espanto da forma como a nível universitário e nos locais de trabalho a postura era tão diferente daquela a que estavam habituados”. É que estes meninos do 10º ano amanhã estão no secundário e depois de amanhã na universidade, sítios onde o que hoje lhes é transmitido se refletirá obrigatoriamente.

        1. Hum .. talvez mas nem tanto. As pessoas assumem comportamentos profissionais de acordo com a sua formação profissional e ética, decerto. Mas, e fundamentalmente, de acordo com os enquadramentos institucionais em que laboram. Como tal não concordo em absoluto com a ligação que faz
          (e obrigado pelo seu esclarecimento)

  3. Lamento mas discordo profundamente. Basta ver o país que temos, onde toda a gente mente (uns mais, outros menos) com quantos dentes tem invocando a sua “palavra de honra” para saber que os tais conceitos não foram assimilados.

    Aquilo que foi assimilado foi a existência do conceito. O facto de ele existir. Uma criança dos seus 9/10 anos sabe que tal conceito existe. Como o Pedro escreve acima, as crianças lêem os seus livrinhos e percebem que esses cocneitos existem. Infelizmente a verdade é que a sua maturidade emocional e intelectual não é necessariamente suficiente para perceber do que se trata. Percebem que a honra é um conceito qualquer abstracto que deve ser defendido (porrada no outro garoto que a desafiar) mas não se percebe o porquê.

    No caso da história acima, dois reparos.
    1 – não quero estar a duvidar da palavra, mas 38 anos é muito tempo. O mais provável é a história não ser exactamente aquela. As 10 horas podem ter sido ultrapassadas, o sono pode ter ajudado, até pode ter-se dado o caso de nem se ter chegado às 10 horas, etc…
    2 – Qualquer criança compreende uma ordem quando bem dada. Eu posso invocar a Constituição da República do Burkina Faso e a Carta dos Direitos Humanos para dizer a um garoto de 6 anos que tem que se ir deitar. Se a ordem for dada com autoridade (não falo de autoridades físicas, note-se) a criança compreende que tem que obedecer. Caso contrário não serve de nada.

    Eu não critico em si o conceito de dar a palavra de honra. O que critico é que tenha qualquer peso. Usar o conceito simples de dizer que os telemóveis não são autorizados devem chegar. Alguém que os use fica sem telemóvel (e possivelmente tem o teste anulado). Usar a palavra de honra serve para quê? A criança fica desonrada? O que é que isso significa para essa criança? Eu explico: nada.

    Ainda assim, tudo isto é espuma. Eu questiono antes para que servem os exames da 4ª classe…

    1. 1. Não faço a mínima ideia para que servem os exames da 4ª classe. A minha filha fez exames desse ano há dois anos e, segundo percebi então, serviam para classificar as escolas e, como tal, os professores da escola. Não sei se ainda assim é. Estou preocupado, em parte (ela é boa aluna), com os do 6º ano. Sou defensor da existência de exames, desde que a importância destes não seja exagerada (ou seja, que tenham uma ponderação bem menor do que a avaliação continuada). Como se diz na caixa de comentários do “Teletrauma” parece-ma algo salutar que existam momentos de alguma “convocatória” particular (stress) no processo de aprendizagem. Desde que não sejam excessivos. Mas sobre isto não faço grandes discursos, não sou especialista na matéria, e não me parece que as questões cruciais da educação passem por aí.

      Dito (tudo) isto, o postal não é sobre esse assunto.

      2. “Usar a palavra de honra para quê”? Não sei, não acompanhei o caso. Em princípio parece-me desnecessário no momento. Bastará informar os miúdos que não os devem ter no exame (não os levar neste dia; desligá-los; entregá-los aos serviços convocados neste dia para esse efeito) e informá-los da sanção para a desobediência. Talvez (talvez) tenha sido um momento para a disseminação do conceito, mas não sei, não estava lá.

      Dito isto, o postal não é sobre isso.

      3. Eu concordo que posso exercer a autoridade diante de uma criança e ela compreenderá que tem que obedecer. Posso adiantar que por vezes ela não compreenderá os fundamentos dessa ordem, mas obedecerá, claro.

      Dito isto, o postal não é sobre isso.

      4. A maturidade emocional e intelectual das crianças não é suficiente para entender o que é honra? Concordo. Na realidade, e sem qualquer exagero de deformação profissional, concordarei que a maturidade emocional e, fundamentalmente, intelectual da maioria dos circundantes das crianças (pais, confederados, professores, bloguistas, comentadores) não lhes permite entender o que é “honra”. A Gulbenkian editou há algum tempo o “Honra e Vergonha” que Peristiany organizou há décadas (saudoso livro que querido colega levou e perdeu nesta rede de transumância livresca). Um livro interessante que permitirá amadurecer muito “maduro” que julga perceber o que diz quando fala na sua honra e na desonra alheia.

      Dito isto, o postal não é sobre isso.

      5. A história que narro não foi exactamente assim? É possível. Terá sido em Vilamoura? Naquele ano? No meu 1º do ciclo? Estaria a jogar às cartas? Em quarto alheio? Seria o professor Renato? Terei eu ido à viagem? Terá esta existido? Terei frequentado o Valsassina? Na realidade, serei eu mesmo? Ou, por outra, quem sou eu, que faço (e fiz) aqui?

      Questões interessantes (umas mais do que outras). Mas, ainda assim, o postal não é sobre isso.

      Pois na realidade o que abordo é isto: os maduros (que não sabem o que é a honra, inentendem os contextos processuais, históricos e antropológicos, que produzem e distribuem desigualmente esse conceito-valor) acham que as crianças não conseguem compreender “honra”. E estão errados. As crianças percebem o que e “honra”. De uma forma difusa, não analítica, não completa. Exactamente como os seus pobres pais, tios, e avós. Confederados ou não.
      Têm ainda, as crianças, uma grande vantagem sobre os seus preocupados ascendentes: uma vida inteira pela frente, que poderão utilizar para aprender alguma coisa. Algo que nas respectivas ascendências não foi, manifestamente, o caso. Dedicadas a encastrar meia-dúzia de lugares comuns, preconceituosos. E balofos.

      Dito isto, é sobre isso que é o postal.

      1. Tudo lido, e indo ao fundo do post, estou inteiramente de acordo: as crianças entendem muito bem o que é a honra e o compromisso. Naturalmente, estamos a falar dos conceitos subjacentes à civilização em que nasceram e lhes é familiar. Mas absorvem, sobretudo – sem terem de analisar o assunto ou racionalizá-lo – aquilo que é essencial em conceitos tão abrangentes como estes: os fundamentos de um comportamento íntegro futuro. Se o praticarão mais tarde ou não já são outros quinhentos, mas isso tem mil outras causas que não a falta de entendimento do conceito. Aliás, qualquer série de desenhos animados de qualidade, sobretudo as épicas, gira em torno destas temáticas.

  4. Surpreende-me, sempre, esta visão que os adultos têm da imbecilidade das crianças (seus filhos e netos, já agora). O conceito pode estar um pouco desactualizado, talvez porque os adultos (este comentadores e outros, entre os quais os professores, e também os “confederados”) se poderão esquecer de o ir lembrando, mas daí a não ser compreendido?!

    As pessoas hoje em dia, provavelmente porque muito poucas têm filhos, já que a natalidade é o que é, têm pouca noção do que são as crianças. O jpt é um caso desses.

    “Honra” é uma palavra que hoje em dia já ninguém usa e que, por isso, as crianças não entendem. Ainda no outro dia o meu filho (de 9 anos) a encontrou algures num livro (mas as crianças também pouco lêem) e me perguntou o que era; eu tentei explicar-lhe mas duvido que ele tenha compreendido. Foi a primeira vez que ele encontrou essa palavra, pertencente a um mundo estranho ao dele. Creio bem que a esqueceu tão depressa como a viu.

    1. ó Lavoura, eu venho ali da caixa de comentários do Teletrauma, e não gostei, da sua má-criação totalmente descabida e até histriónica no contexto daquele postal e posterior discussão. Pois já que aqui se fala de “honra” vou adiantando que uma das dimensões cruciais deste conceito-valor é mesmo a repulsa pelos comportamentos ofensivos aos “nossos”. E nisso, bem no topo da hierarquia, a repulsa pelos agressores das mulheres do nosso grupo social. Entenda-se, neste caso, os agressores das senhoras do nosso blog colectivo.

      Por isso, e mesmo que venha V. piar fininho (como neste caso) está vetado dos meus territórios, entenda-se, dos meus postais. Foi pela borda fora, desaprovar-lhe-ei os hipotéticos futuros comentários aos meus postais no sistema de edição do blog.

    2. Pode ser assim em sua casa, mas não é assim noutras…
      O seu filho de nove anos não vê televisão? Não vê as séries japonesas? Não vê as séries de aventuras? Em todas elas a honra é referida amiúde.

  5. Com permissão, quero expressar uma opinião contrária, mas juro que não vou ser malcriada:

    Penso que existe uma grande diferença entre uma criança de dez anos assinar um papel oficial, comprometendo-se, por sua honra, a qualquer coisa, e a atitude de que o jpt fala, do “director-adjunto”, que se limitou a estabelecer um acordo oral, de uma maneira muito diplomática e com a qual concordo interiramente, pois, além de transmitir à criança o conceito de honra, aumentou-lhe a auto-estima, ao considerar a sua palavra de confiança, admitindo-a, por assim dizer, no mundo dos adultos, o que orgulha qualquer petiz. Foi uma atitude muito pedagógica, pelo que chamo a atenção para o seguinte:

    – Não concordo com a assinatura do tal papel, os pais é que se deviam comprometer a enviar os seus filhos para o exame sem telemóvel;
    – Aplaudo a atitude do “director-adjunto” e acho que uma coisa não tem nada a ver com a outra!

    Aproveito para dizer que se confundem muito os métodos nas educações antigas e nas atuais. Por exemplo:

    – dar à criança todos os brinquedos que ela deseja e fazer-lhe todas as vontades pode não ter nada a ver com o “proteger demais”, mas, sim, com o querer aplacar a consciência de pai/mãe que têm pouco tempo para os filhos. Essas crianças nunca (repito: nunca!) se sentem protegidas. Pelo contrário: viverão toda a vida com a sensação de que nunca obterão o amor de que precisam, o que pode complicar muito as suas relações futuras.

    – uma educação autoritária (no sentido de subjugação e, não, de orientação, conceitos muito diferentes e que se confundem facilmente) não prepara ninguém melhor para a vida, apenas cria seres tímidos, rancorosos, medrosos, fingidos e sujeitos a sofrer de depressões.

    E agora não digam que me preocupo só com animais. Um dos meus hobbys é a psicologia, principalmente, a infantil (apesar de não ter filhos), porque acho incrível a maneira como alguns pais podem destruir a vida dos filhos, sem o saberem.
    Mas garanto que se pode aprender muita psicologia com os animais.

    1. Não me parece que seja uma “opinião contrária”. Vou repetir, pois não é óbvio que não fui explícito no postal (e, se calhar, nos comentários). O meu assunto não é a assinatura num ante-exame de um documento por parte dos examinandos com 9 ou 10 anos. O meu assunto são as declarações dos críticos que consideram o conceito inatingível pelos petizes. Só isso.
      Quanto ao resto, enfim, como já disse, não acompanhei, terá que ser visto com algum detalhe. Acima de tudo o documento não é “oficial” (ou seja, não terá valor jurídico). Será uma convocatória ética, será uma “dramatização”. Será até, porventura, descabido. Mas, mais uma vez, não foi sobre isso que botei.

      Uma outra coisa: os bens que os miúdos têm. Há um discurso constante que torna até pecaminoso a oferta de bens às crianças – como se estes sejam uma compensação da falta de atenção, como neste seu comentário. Há exageros, decerto. Haverá esse traço compensatório em alguns casos, decerto. Mas há muito mais. Os bens estão disponíveis, são de uso corrente, tornam-se necessários e úteis. Qual a razão de não se disponibilizarem?
      Tenho uma filha que aos 9 anos, no 5º ano, recebeu um telemóvel. É-lhe e é-nos útil. Leva-o para a escola. Onde lhe e nos é útil. Está muito mais acessível (“pai, a aula de ginástica já acabou”, “pai, o almoço é horrível posso almoçar tosta?”, “filha, estou atrasado, meia hora”, “posso ir para casa da …?”, “vens com o pai de …”, isto tudo a evitar as idas ao telefone público). Qual é o problema? Há o argumento que as crianças estão sempre sob tutela (neste caso da escola). Sim, estão, mas tudo isto flui mais rapidamente assim.
      Antes, no meu tempo, recebíamos relógios, em princípio na 4ª classe (a mim aconteceu-me isso, ainda que o João André me tenha posto a duvidar do passado). Também estava sempre sob tutela, também sempre alguém me podia dizer as horas. Mas recebi(amos) o relógio. É a mesma coisa.
      Para mais, as coisas são identitárias. Marcos de uma relativa autonomia a que se vai acedendo~, aquilo que é o crescimento. As novas gerações têm isso muito depressa? Talvez, mas isso todas as mais velhas dizem das mais novas.
      Sobre estas coisas do consumo um facto que sempre me incomoda é assistir às constantes queixas dos professores (avulsas, em reuniões de turma, em reuniões globais com as direcções escolares, e até em declarações públicas) sobre a propriedade por parte dos alunos de bens de consumo vários (alguns são os tais “gadgets”). Ou seja, os professores elaboram criticamente sobre os valores que as famílias têm, esses que orientam as suas relações com as coisas, os bens. E isto é completamente inaceitável. É inaceitável que eles elaborem sobre o assunto, e ainda mais inaceitável que nem compreendam o que estão a fazer, por mera ignorância corporativa.

      Pois está-lhes vedado o proselitismo religioso (e como tal a avaliação dos valores religiosos das famílias), político (idem), sexual (têm que ter cuidado na elaboração sobre a sexualidade), etc. Mas podem-se dar ao luxo de dissertar sobre os valores relativos ao consumo de cada família (o que é que um professor tem a ver com o facto de eu comprar roupa cara ou barata para a minha filha? sapatos caros ou baratos? telefones caros ou baratos? etc caro ou barato, muito ou pouco?). E isso está-lhes completamente fora do pelouro.
      Peroram, sem sequer perceber o que não devem fazer. Sem se contextualizarem. E são professores. É grave. Muito mais grave dos que os tontos dos pais que dão coisas aos seus filhos.

      1. Caro jpt, nada tenho contra os pais que dão tudo e mais alguma coisa aos filhos, desde que isso não sirva de compensação para a falta de tempo e interesse. O mais importante para as crianças é sentirem que os pais se ocupam delas, se interessam por elas e as protegem quando precisam, independentemente dos valores materiais que lhes dão.
        Eu só referi este aspeto porque há muito a tendência para dizer que as crianças nunca foram tão protegidas e nunca tiveram tantos brinquedos como hoje, comparando com outros tempos em que elas não seriam tão “mimadas” e, por isso, mais bem preparadas para a vida. Não concordo!

        E um outro comentador (penso que o João André, vou depois confirmar) focou algo interessante: antigamente, parece que se ensinavam mais valores às crianças. Mas, então, porque é que há tanta gente crescida, de todas as idades, a mentir, a intrigar e a vigarizar, quebrando as “palavras de honra”?

        O problema, penso eu, é que, muitas vezes, os pais pregam uma coisa e fazem outra. Os pais, acima de tudo, devem servir de exemplo. Cito Eduardo Sá: “ninguém educa com bons conselhos, mas com bons exemplos”.

        1. Eu concordo com o que diz sob a dimensão “compensatória” das dádivas materiais, e não quis imputar-lhe opiniões. O que aproveitei foi para referir um constante discurso presente na corporação dos docentes que critica o consumismo. Em princípio até pode ser justificado e tem a Cristina Torrão toda a legitimidade para o fazer e também eu (cá em casa não atafulhamos a criança com benesses – até porque não podemos – e não a recompensamos com gadgets, para além do facto de, em termos mais globais, me irritar com isto do cidadão consumidor hedonista, que é a ideia que, da esquerda dos direitos adquiridos à direita da liberdade individual, vigora nessa gasta pátria). Mas, e repito-me, não têm os professores nada que opinar sobre os valores que conduzem as práticas sociais dos pais, neste caso no campo económico, tal como não o têm nos outros.
          Quanto a isso de “antes” se ensinarem mais valores do que agora já não sei se concordo. Não tenho conhecimentos, nunca li sobre isso coisas realmente palpáveis. Presumo que se ensinem outros, até porque desconfio sempre das derivas que vêm o presente deficitário relativamente a um passado superior (ou até de ouro).

          Também concordo com a necessidade de exemplos e não apenas de discursos na transmissão de valores. Mas não exageremos. Uma coisa, que penso necessária, é transmitirmos concepções-guias, valores cruciais. Outra é conseguir conduzir a nossa própria vida consoante esses “bens”. Todos temos os nossos pecados e pecadilhos, e é exactamente por não coincidirmos com os melhores valores que somos avaliados pelos nossos filhos (a tal coisa da des-ilusão, espera-se que relativa, e convívio com a realidade). Por exemplo, eu contei aqui este meu exemplo de infância de convívio com a “honra”. Não quero que daqui se retire que estou a afirmar que desde então sempre tive um comportamento honroso. Apenas que naquela idade tinha a noção, segui os ditâmes. Depois, enfim … A minha filha conhecerá o conceito, por enquanto acredita que o pai se lhe adequa, um dia verá que, enfim, o traste seguiu o melhor que pode o caminho mas …. espero, então, que o amor filial ultrapasse a relativa des-ilusão.
          Ou seja, não se seja maximalista

  6. Caro JPT. Aproveito o que escreveu para acrescenter que os “imbecis” são (e isso é preocupante) os “pais, mães e avós” destes meninos. “Em especial esses tão preocupadinhos que até “confederados”. e, que até governam…
    até…
    Helena/Cascais

    1. Alguns serão (seremos) … Mas talvez haja mais do que isso. Aqui de longe o que parece é uma sociedade tão crispada (há tanto tempo, não apenas agora com a crise) e com uma parcela mergulhada na cidadania-clic, que protesta e dispara sobre tudo. Depois como cada bocado de gente protesta contra parcelas diversas do que vai acontecendo há um constante ruído, criticando, resmungando, protestando. Um vagido gigantesco. Muito dele, muito dos protestos, são identitários (eu sou se, e só se, resmungar, gritar, assinar, laicar, comentar, blogar). Identitário, exactamente como os putos que são se tiverem telefones para os seus sms e partilhas de fotos e músicas e coisas assim. E outras “coisas” a que aspiram

      1. A distância não te ofusca nem distorce a lente. É isso mesmo, vivemos numa sociedade crescentemente crispada e cheia de frustrações. Pronta a disparar a eito sobre tudo e todos, com a preciosa ajuda da comunicação social para enfiar o dedo no gatilho.

  7. Hoje, 08-05-2013

    Na Escola Secundária D. Pedro IV – Massamá

    Uma aluna (a) do 6º. ano — Em plena aula, mandou a professora para o cara***!!!

    O caso ficou sanado… com um raspanete de circunstância!!!!

    1. Pois, mas isso também se relaciona com os enquadramentos institucionais. Certo é que há um grande amolecimento das relações hierárquicas, de autoridade, nas escolas. E nisso os professores terão alguma responsabilidade. Mas não apenas, eles são também vítimas de um estado geral da “coisa”

      Agora neste caso, assim a seco, sem perceber os contornos, é óbvio que a menina devia ser expulsa dos sistema oficial. E ou os pais a metiam numa escola privada, se tivessem dinheiro (ensinando-a, devido às despesas necessárias, que não se mandam os professores para o caralho) ou ela ficava restrita ao 5º ano, condenada em princípio a uma vida bem subalterna. (se calhar seria uma self-made woman, mas são excepções)

      Sem derivas autoritárias, um incremento da autoridade nas escolas parece-me urgente

  8. caro jpt:
    a honra é coisa humana, sabemos. sabemos também que as crianças a demonstram, quantas vezes mais e mais radicalmente do que os adultos, não antevendo as consequências da sua preservação e não caminhando em pézinhos de lã como a maioria dos que conheço quando à sua “defesa” são convocados.
    é por isso mesmo que acho ridícula a elaboração de um documento que vem agora a ser justificado pelos “educadores” do burgo como sendo apenas uma “chamada de atenção” para o assunto da utilização do telemóvel na sala de aula.
    creio que isto, por si, dispensaria mais considerandos em torno do tema.

    deixe-me ainda dizer-lhe acerca deste post: não compreendo aonde quer chegar.
    está de acordo com a utilização de tal documento ou, pelo que consigo inferir do que escreve, acha que bastaria dizer às crianças que não devem usar tal aparelho – mesmo sem a obrigatoridade da sua “palavra de honra”?
    é que, lido e relido, não vejo que o seu post – contra o que é habitual – acrescente alguma coisa à discussão.

    1. Só lhe posso agradecer essa sua opinião, a de que me costuma encontrar a contribuir com algo.
      Tentarei explicitar melhoro o pretendido no postal (para além do egoísta agrado com as memórias de infância): há demasiada gente a criticar (e neste caso até gente com responsabilidades nas organizações da “sociedade civil”, como aquela confederação) que não percebe o que diz. Tanto criticam que até podem acertar na crítica, por vezes, é uma questão de probabilidade, mas os fundamentos da reflexão são paupérrimos.
      Estou a falar (no postal) relativamente aos opinadores. Não sobre o ministério. Precisa este de melhorar? Com toda a certeza. Uma das formas de melhorar é se tiver vozes críticas de melhor qualidade, com maior ponderação. Com maior capacidade intelectual, neste caso específico até com maior património cultural

      Dito assim espero ter-me feito comprender, mesmo que náo sendo grande contributo para a questão.

      Quanto a esta, propriamente dita? Devia ser explícito para as crianças que na sala de aulas não há telemóveis. A haver estão desligados e nas mochilas. Ponto final parágrafo.

      O facto de ser preciso uma chamada de atenção para o caso demonstra muita coisa, a falta de disciplina nas salas de aula. O que levanta questões várias sobre os modelos de acção da docÊncia – por exemplo, a minha filha transitou de uma escola excelente, nada autoritária, extremamente interactiva para a escola portuguesa (que não é má). Na outra formavam antes de entrar na sala de aula. Não era uma parada militar, não havia hinos ou arengas. Era um passo de acalmia dos petizes, de concentração (e seria um bom momento para uma voz de “desligar os telefones”). Na escola portuguesa os putos saem directamente da natural e saudável gritaria e correria para dentro da sala de aulas, para a anti-natural quietude do banco da escola. Basta referir isto aos professores portugueses para os ver todos franzidos, ideologicamente choca-os a ideia de formatura, remete-os, inconscientemente, para noções de que nem sequer têm consciência.
      Lembro-me do meu desalento ao ouvir professores primários patrícios queixarem-se de que os miúdos entram na sala de aula vindos do recreio e que nos primeiros minutos querem logo ir à casa de banho, um corropio. PAra eles é falta de respeito, de disciplina, e quase acusam os pais de não doutrinarem os filhos numa postura mais respeitosa.
      Entenda-se, os putos passam os intervalos a correr, a jogar, aos gritos, na saudável azáfama. Transpiram abundantemente, aquecem (escrevo de MAputo). Entram na sala de aula aos pinotes. Liga-se-lhes o ar condicionado e saem dos 32 graus e regressam de chofre aos 20. Eu, com a bexiga treinada e com as entranhas ainda a não darem de si, fico logo aflito nestas situações, imaginem-se as crianças, numa correria para o xi-xi. Mas os Stôres queixam-se. Não pensam.

      Afasto-me da questão? Tenho uma série de pessoas a dizer que nao se ensinam valores, ou não se ensina a honra. Não poderá ser o primeiro exame da vida, o exame da 4ª classe, que todos recordamos, também o momento inaugural de uma assumpção pública, escrita, de um comportamento honrado?
      “Se bem me lembro” tirávamos o BI na 4ª classe e tínhamos que o levar para a escola no dia do exame, era a primeira ocasião que o usávamos. Era uma forma “dramatúrgica” de passarmos a cidadãos. Seria mesmo necessário? Era um teste e um rito de transição. Não poderá ser visto da mesma forma a assinatura de um papel que consagra um comportamento de cidadania honrada?
      Qual o verdadeiro problema com isto? Francamente, acho que é muito mais a (crispada, desesperada por vezes) vontade de tudo criticar. Sem, repito, pensar nos fundamentos da crítica

      1. estou elucidado.
        no entanto, não posso deixar de ir embora sem duas notas:

        1 – a indisciplina nas salas de aula é flagrante, atingindo por vezes níveis impensáveis numa sociedade que se quer saudável. podemos apontar mil e um motivos de cariz social, mas para o propósito educacional existem dois “disciplinadores” essenciais: a família e a escola. não me choca tanto assim uma “formatura” (que pode passar, como na pré-primária, pelos putos de mão dada a encaminharem-se para a sala), assim como não me choca a proibição total e absoluta da utilização – ou mesmo da posse – de telemóveis durante o tempo de aulas. para que tal suceda, bastará a recolha destes no início da aula ou, em alternativa, um “cerimonial de desligamento” dos referidos aparelhos. deixo a resposta aos pedagogos.

        2 – também sou dos que acham que existe falta de diversos “rituais de passagem” para os miúdos de hoje. nós tivemos a quarta classe, o segundo do ciclo, o quinto do liceu, o sétimo, a tropa (este quase definitivo para a passagem à vida adulta dos mancebos) e a faculdade. claro que nem todos tiveram as mesmas oportunidades e a grande maioria ficou-se pela quarta ou pelo segundo do ciclo e, caso fossem homens passavam directamente para a tropa, caso fossem mulheres, para o trabalho e casamento.
        ora, estes últimos não deixaram de se tornar adultos produtivos para a sociedade, pelo que os “rituais” institucionais devem ser considerados menos importantes do que o que a vida, em si, define como marcos.
        assim, sou levado a crer que esta minha opinião sobre a ausência de tais rituais se deva a um tipo de saudosismo, o mesmo que nos leva tantas vezes a dizer que os jovens “perderam os valores” – quando na verdade, se os perderam fomos nós que os não soubemos transmitir e, mais verdade ainda, o que se passa é que os valores são diferentes dos nossos.

        caro jpt, arrisco dizer que seremos mais ou menos da mesma idade. eu tenho 48 e acho que, a partir dos 40 a idade é sempre a mesma… falo com amigos meus e chegamos, ao fim da noite, sempre à mesma conclusão: há muita ferida por sarar, muito trabalho a fazer na definição do que é, afinal, o futuro que queremos. é normal. aproximamo-nos ainda das 4 décadas de democracia, muita coisa falta consolidar.
        o que não podemos é arriscar experiências pedagógicas, e muito menos experiências que envolvam a imposição ideológica e retrocessos civilizacionais. creio que, para todos os efeitos, a situação presente da educação em portugal se conota facilmente com esse retrocesso, motivada por determinada ideologia. e este exame, e a folha assinada, são apenas dois pequenos exemplos. sinais, se quisermos.

        claro que só a história julgará estas atitudes. para o bem e para o mal. mas a história, quem a paga, não somos nós. são os putos dos telemóveis e os seus filhos. e se quisermos usar a história em nosso favor, é ir aos países que apostaram em modelos educacionais que resultaram em sucesso e povos felizes. verificaremos que, se existem formaturas, não há lá muitos papeis para assinar por miúdos de 10 anos, nem tão pouco exames que os obriguem a provar o que valem tão cedo. a verdade é que esses países não apostaram numa triagem que em tudo mais não é do que engenharia social.

        enfim, também me afasto do assunto… mas as conversas são como as cerejas, não é?
        abraço.
        cjt

  9. Boa noite,

    Sobre criancinhas e honra fiquei agora com uma dúvida. Será que elas não conhecem já a “velhinha” história ou lenda do Egas Moniz de baraço ao pescoço na corte do Rei de Leão? E acompanhado, nesta deslocação, por sua mulher e filhos?

    Se no 4º ano de escolaridade as nossas criancinhas não conhecem este acontecimento ou lenda, o problema é mesmo esse. E não o papelinho que lhes pedem para assinar.

    JPT, receba um abraço.

    1. Conhecem. Têm programas de história vastos e interessantes (o José Manuel Fernandes há tempos veio escrever que agora não se aprende nada, comparou os exames do tempo dele com o que se aprende agora na primária. Irritei-me, e para blogar fui ver com mais detalhe os programas e livros da minha filha e as tralhas que o JMF tinha ressuscitado de meados dos anos 60s. Não tem comparação, ainda que algumas coisas que a gente de então fica muito ufana de ter aprendido na 4ª classe terem passado para o primeiro período do 5º ano de agora – sendo que agora se estuda mais anos, sendo que na primária se aprendem muito mais coisas do que naquele antigamente)
      OBrigado, abraço para si

  10. No meu tempo a Escola era só para ensinar. O respeito, a honra, a educação, etc., tudo isso se aprendia em casa. E lembro-me perfeitamente, fui para o meu exame da 4.ª classe, como se fosse um dia normal de aulas. A bata branca impecável como sempre. A única diferença foi o não levar a minha mala de madeira, feita pelo meu pai, com os livros lá dentro.
    E também me lembro que a única resposta imediata que não tive para dar, foi á pergunta para dar um exemplo de um colmo. E aquela cana-da-índia, que tantas vezes serviu de ponteiro, mas também em cima da minha cabeça para me chamar a atenção, colocada ao longo da ardósia, veio a servir-me para responder com a ajuda da examinadora que projectou o olhar na sua direcção. Qual cábula!

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