A guerra no horizonte.


Luís Menezes Leitão,

 

Os antigos romanos, com a sua infinita sabedoria, diziam: “Si vis pacem para bellum“. Ou seja, se queres a paz, prepara-te para a guerra. Infelizmente, no entanto, o actual Ocidente perdeu totalmente essa perspectiva e arrisca-se a deixar desencadear uma guerra mundial, por total incapacidade de previsão e antecipação das consequências das decisões estratégicas que tomou.

 

Barack Obama, talvez confortado por a Academia de Estocolmo lhe ter dado o Nobel da Paz mal se sentou no cargo, apostou totalmente no isolacionismo americano, abandonando a postura intervencionista que desde Reagan sem excepção os Presidentes Norte-Americanos vinham seguindo. O resultado, como não poderia deixar de ser, foi o de que a América deixou de ser temida no mundo, sem deixar de ser odiada. Hoje, qualquer milícia pró-Rússia na Ucrânia acha que pode livremente tomar reféns, da mesma forma que os estudantes iranianos tomaram a Embaixada Norte-Americana em Teerão durante a presidência de Carter, que se mostrou incapaz de fazer fosse o que fosse. E como se isso não bastasse, o inenarrável Presidente da Coreia do Norte insulta o Presidente Norte-Americano, ao mesmo tempo que prepara mais testes nucleares, sabendo-se bem com que fim.

 

Quanto à União Europeia, que tem mostrado durante a crise financeira que tem muito pouco de união e ainda menos de europeia, limita-se a satisfazer os desejos de hegemonia de Berlim. Precisamente por isso mergulhou de cabeça na crise ucraniana apoiando precipitadamente um governo de extremistas formado na Praça Maidan, o que teve como contraponto a revolta das populações russas do país. Depois de a Rússia já ter anexado o que lhe interessava, ou seja a Crimeia, sem precisar de disparar um tiro, assiste-se a uma verdadeira guerra civil, em que de um lado estão os “terroristas” e do outro os “nazis”, enquanto os desgraçados dos observadores da OSCE são mandados para uma zona de guerra observar não se sabe o quê, sendo logo feitos reféns e qualificados como prisioneiros de guerra, sem que ninguém tome qualquer medida de retaliação.

 

Enquanto na Ucrânia e na Coreia do Norte os sinais de guerra são cada vez mais ameaçadores, a resposta do Ocidente continua a ser ridícula. As agências de rating consideram a dívida da Rússia como lixo financeiro, julgando que em caso de guerra os investidores continuarão a comprar dívida como se nada se passasse e a seguir os prestimosos conselhos destas agências. O Governo interino da Ucrânia acusa a Rússia de querer a terceira guerra mundial. E Obama acusa a Rússia de não levantar um dedo para resolver a crise ucraniana. Quanto à Europa, amarrada pelo colete de forças do euro, não tem quaisquer condições de ter a mínima presença militar, assobiando agora para o lado do sarilho que causou na Ucrânia. Continuem com os cortes orçamentais, deixem os países europeus sem defesa, e vão ver aonde vamos parar.

7 comentários em “A guerra no horizonte.”

  1. Há uma equação que efectivamente devia ter incluido, ou complementado, neste seu texto. E a equação traduz-se no facto de Obama ter herdado de anteriores administrações, em particular da administração desastrosa de Bush (filho), várias guerras inacabadas.
    Guerras estas que se alastraram a outros interesses, ou por causa destes, o célebre Nabucco que caiu por terra em favor do South Stream, que origina também uma cobiça, também por parte de Israel, aos recursos energéticos da Síria e colocou a Rússia na obrigação de sustentar uma carnificina que “pasta” por todo o médio oriente e que até usa a tão perigosa Al Qaeda, a favor do ocidente, para consumar as mais terríveis atrocidades no Iraque, Líbia, Síria…

    Não estranhemos, portanto, que a própria Ucrânia venha a ser o próximo passo Russo para evitar a desestabilização da sua torneira, aí implantada também, que fornece gás a muitos países de leste e também à Alemanha. Note-se que esta torneira produz os necessários recursos monetários à Rússia.

    Chegados à intervenção na Crimeia, pelos motivos referidos em seu texto, tudo quanto está a ocorrer naquela região são os passos previsíveis que se faziam sentir desde o início desta pantominice.
    E neste momento o triângulo Coreia do Norte, Síria, Ucrânia é o ponto de equílibrio ou desequílibrio de uma terceira guerra mundial.

    Já há muito que vinha a dizer que orásswemos muito; e volto a referir, para os que acreditam, que continuem a fazê-lo. Quando um país, como foi o caso da Rússia antes da intervenção na Crimeia, resolve fazer explodir uma ogiva nuclear em resposta às pressões americanas só mesmo um burro é incapaz de compreender que ali se ditam todas as regras de convivência pacífica ou não do mundo.

    1. A melhor administração Americana dos ultimos anos foi a de Bush: que matou milhares de Islamistas radicais e conseguiu separar os Islamismos ao impedir Bin Laden e a Al Qaeda de tomarem conta do Islão. Foi o intervencionismo de Bush que moveu o campo de batalha para o Iraque em vez de Manhattan obrigando a Al Qaeda a matar milhares de Muçulmanos em vez de Cristãos/Ateus.

      Obama tem feito bons esforços para estragar tudo isso. Incluíndo aliar-se à Al Qaeda na Síria. Precisamente por não ser intervencionista precisa de aliados.
      Mas a sua cabeça parece não fazer a ligação.
      Já quando a Al Qaeda combatia os Americanos no Iraque já era bom…

      E claro como é lugar comum na sua esquerda já cá faltavam as referências à energia como se o que se passa tivesse coisa alguma que ver com o assunto.
      Só faltou a referência ao complexo militar industrial. O Americano claro. Nunca se vê um esquerdista a comentar o complexo militar industrial Russo. Na verdade o único que existe, e que chama complexo aos próprios sistemas de armas.

      1. O meu amigo tem de acalmar os cavalitos e fazer uma viagem histórica sobre a Al Qaeda e Bin Laden. Depois tem de fazer outra viagem histórica ao 11 de Setembro, e depois disso venha aqui falar de Bush.

        Obrigado por essa da “sua esquerda”. Já vi que progrediu um bocadito mais. Já não é a esquerda mas a “minha esquerda”. Tá a ajeitar. Tá sim senhor.

        Já agora, faça uma viagem, mesmo que virtual, à Turquia e veja em que pé se encontra o gasoduto e o fornecimento de gás que hoje é de interesse levar à Alemanha. Vá lá, prometa que faz este trabalho de casa. Não se esqueça de ver os sócios empresariais do Nabucco.

        Vá, para não me chamar mauzão eu dou uma ajuda:
        http://pt.wikipedia.org/wiki/Gasoduto_Nabucco
        http://pt.wikipedia.org/wiki/South_Stream
        Mais outro:
        http://www.jornal.ceiri.com.br/russia-e-alemanha-inauguram-o-gasoduto-nord-stream/

        Veja também esta notícia de 2009:
        http://www.presseurop.eu/pt/content/news-brief/46141-ex-politicos-disputam-influencia-nos-gasodutos

        Depois deste trabalhito feito, proponho trabalhos sobre os recursos energéticos na costa Síria assim como sobre os interesses envolventes, e o que originou a estupidez da política alemã no Chipre ameaçando interesses económicos dos Russos.
        Depois analise todos os interesses quer americanos quer russos, em particular os americanos, numa forte dependência da Europa alinhada a seus interesses energéticos. Posteriormente, não se esqueça de fazer uma análise séria sobre o novo deslocamento estratégico para o pacífico, região bem próxima da Rússia, China, Coreias e Japão.
        E depois disto feito, espero que compreenda o significado de bom senso e que proponha seja aplicado sempre e em qualquer situação, até mesmo nos comentários compulsivos sobre “vem aí a esquerda”.

  2. Não entendo a lógica do segundo parágrafo do post. Nenhum dos reféns em questão é americano, pelo que Obama pouco ou nada tem a ver com o caso, o qual de forma nenhuma é comparável com a tomada de reféns americanos em Teerão em 1979. Não se põe em causa que os EUA interviessem militarmente para “salvar” indivíduos que não são seus cidadãos.

  3. [a Europa] não tem quaisquer condições de ter a mínima presença militar, assobiando agora para o lado do sarilho que causou na Ucrânia

    Fico sem perceber o que gostaria o Luís que a Europa fizesse ou tivesse feito. Se acha que a Europa não deveria ter atiçado o conflito na Ucrânia (eu acho isso), então, parece-me a mim, não faz sentido que deseje que a Europa vá agora intervir militarmente, atiçando ainda mais esse conflito.
    O conflito até agora não atingiu qualquer dimensão militar, e não vejo porque desejaria o Luís que a Europa se aprontasse para ter uma “presença militar” na Ucrânia. A qual presença, que eu saiba, ninguém na Ucrânia deseja!

  4. Uma das razões para o abandono da política intervencionista é que ela produziu muito poucos frutos.
    Os EUA na prática perderam as guerras do Iraque e do Afeganistão ao não terem atingido os seus objetivos. E essas guerras quase levaram o país à falência, sem contar com a destruição dos países invadidos.
    A ideia que tudo se resolve pelas armas é muito perigosa e quase sempre falsa.
    Não tenho nenhum desejo que a Europa sirva para um novo tira-teimas como o do Afeganistão, onde parece que todos perdem, russos, ocidentais e sobretudo a população local.

  5. Um texto muito mais certo e que mostra um dos primeiros resultados do enorme desastre a todos os níveis da administração Obama. O outro, o interno, nos EUA vai ficar bem mais calor daqui a uns anos.
    O outro desastre que ficará para sempre ligado ao desastre Obama: é quem o elegeu, o jornalismo americano e internacional.
    Quanto à Europa só pode existir guerra se a esquerda europeia “humanista” que domina a narrativa quiser: Foi assim na Sérvia e Kosovo. Só quando os “Guterres” e os “Sampaios” quiserem.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *